Dar-vos-ei Pastores!

“Pastores dabo vobis iuxta cor meum”[1]– Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração. Com esta passagem, do livro do profeta Jeremias, o Papa São João Paulo II inicia a composição da Exortação Apostólica pós-sinodal que desenvolvera o tema da formação dos sacerdotes. Nada melhor do que destacar este trecho da Sacra Escritura para iniciar a reflexão sobre esta temática que, mesmo tendo sido concebida há mais de duas décadas, continua sendo deveras atual – e não só isso – mas perpassa também a História da Igreja desde os primeiros chamamentos do próprio Cristo quando elegeu os doze que o acompanhariam e dariam seguimento ao anúncio do Reino.


A promessa de Deus de não deixar o povo desemparado faz-se experiência da realização da profecia que se perpetua não tão somente na preparação da vinda do Cristo, no Antigo Testamento[2], mas também na certeza que Ele dá aos apóstolos – e, por consequência a Igreja – Sua palavra de que não os deixaria sozinhos.[3]


O Corpo Místico de Cristo – a Igreja – dotada de seus membros[4]tem em alguns deles – os ministros ordenados – estes pastores os quais o Senhor prometera para guiar o Seu rebanho e levá-lo ao Seu encontro. “Sem sacerdotes, de fato, a Igreja não poderia viver”[5]. Todavia, para que se exista o sacerdote, faz-se necessário homens que, escutando o chamado do Senhor, respondam a Ele positivamente e deixem-se ser forjados no caminho de discipulado onde o próprio Mestre forma através de inúmeras perspectivas repetidas desde os colóquios Dele com os Seus, até os dias atuais, nos seminários do mundo inteiro.


Sob o baldaquino da vocação onde se unem esponsalmente a vontade de Deus e a resposta do homem, Ele realiza o grande milagre de fazer-Se configurar na criatura, para que esta, respondendo à graça possa ser instrumento eficaz do tríplice múnus que é pedido de quem abraça tão sublime vocação: ensinar às ovelhas o seguimento do Verdadeiro Pastor, regê-las e guardá-las para que o mal não se apodere delas e oferecer sacrifícios agradáveis a Deus em favor deste rebanho que fora confiado.


Todavia, como afirma o Doutor Angélico “gratia praesupponit natura” [6],– a graça pressupõe a natureza – o homem deve entender-se como um instrumento nas mãos do Senhor para que Ele faça a obra, mas deve se preparar dignamente para que esta graça aja. Comprovando este adágio tomista, deu um nobre exemplo, o Papa Emérito Bento XVI que, ao ser eleito sucessor de Pedro, em sua primeira fala afirmou: “Consola-me saber que o Senhor sabe trabalhar e agir também com instrumentos insuficientes.”[7]Ora, o até então Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, homem especialista na Sacra Teologia, reconhece-se, mesmo em sua grande eloquência intelectual um necessitado da graça.


Entretanto, por que elencar estes pontos – a necessidade de pastores, a resposta ao chamado, os deveres sacerdotais de imitação do Cristo e a colaboração com a graça – até aqui? Todas elas auxiliam o seminarista a perceber e rememorar uma máxima que é repetida em vários documentos sobre a formação, bem como da boca dos formadores: “Não se pode esquecer, finalmente, que o próprio candidato ao sacerdócio deve ser considerado protagonista necessário e insubstituível de sua formação.”[8]Nenhum outro pode substituir este protagonismo de liberdade que o próprio candidato ao sacerdócio deve fruir. Até mesmo o Espírito Santo, age na liberdade dada a todo homem, respeitando as escolhas do sujeito que discerne a vontade de Deus em sua vida.


Tendo em vista, então, essa premissa do protagonismo, urge, cada vez mais, no seio da formação, que ela esteja de acordo com a Sacra Doutrina da Igreja, bem como os fundamentos que foram discernidos e pronunciados em sua história para a vocação sacerdotal, mas também, as necessidades apostólicas do tempo em que estes mesmos seminaristas estão sendo formados e discernem seu chamado.


Ao interiorizar o estilo de vida autenticamente sacerdotal[9]que pede a Nova Ratio Fundamentalis, um dos aspectos que se demanda do seminarista é a capacidade de conseguir levar a cabo sua formação em vistas de atingir, com fidelidade ao Senhor e a Sã Doutrina, as novas ágoras de disseminação do conhecimento, do diálogo, mas, sobretudo, da Palavra de Deus. “Sereis minhas testemunhas [...] até os confins da terra.”[10]Estas novas ágoras, estes novos confins da terra têm se ampliado em ambientes que jamais foram pensados e que são novos para qualquer tipo de pedagogia ou estratégia de ação.


Entendendo este desafio que surge, a Igreja percebe que a introdução dos seminaristas no mundo chamado digital precisa ser parte integrante na construção de sua formação pastoral, mas também humana, dado que: “através dos meios modernos de comunicação, o sacerdote poderá dar a conhecer a vida da Igreja e ajudar os homens de hoje a descobrirem o rosto de Cristo, conjugando o uso oportuno e competente de tais meios – adquirido já na formação – com uma sólida preparação teológica e uma espiritualidade sacerdotal forte, alimentada pelo diálogo contínuo com o Senhor”[11]


Intentando, pois, responder ao chamado do Senhor através da voz da Igreja surge a ideia de levar a cabo este protagonismo do discernimento e da formação para o sacerdócio ministerial neste novo ambiente de evangelização. Ademais, tendo em vista que a formação é um ambiente comunitário e que as relações humanas são primordiais não só para o crescimento individual, mas também, porque o próprio ensinamento do Senhor leva o homem a servir ao outro numa atitude de imitação da realeza de Cristo que “não veio para ser servido, mas para servir”[12], um apostolado nestes moldes não poder-se-ia ser projeto de uma única mente, portanto, emerge a figura de um grupo de jovens rapazes, que pretensos a um ideal comum – responder a vontade de Deus – reúnem-se corajosamente para abraçar este desafio de realizar um apostolado com verdadeiro espírito sobrenatural que seja fonte de santificação[13]para si e para os outros.


Que este apostolado – mas não só ele, como todos aqueles que têm intenções boas de fazer a Palavra do Senhor ser propagada a todas as nações das mais variadas formas – possa ser fiel a sentença do Aquinate “obiectum amoris est bonum, quod est communicativum sui.”[14]– o objeto do amor é o bem que é comunicativo de si mesmo; e que aqueles que desejam intimamente realizar a vontade da Trindade Santíssima, necessitam pedir, com a mesma humildade do cego Bartimeu “Domine, ut videam”[15]– Senhor que eu veja – o que tu queres de mim.



[1]Jr 3, 15

[2]cf. Jr 23, 4

[3]cf, Jo 14, 18

[4]cf. I Cor 12, 12

[5]PDV 1

[6]cf. I, q. 2, a. 2

[7]BENTO XVI. Benção Apostólica urbi et Orbi. Primeira Saudação do Pontífice.19 de abril de 2005

[8]PDV 69

[9]Cf. RFIS 131

[10]At 1,8

[11]BENTO XVI Mensagem para o 44º Dia Mundial da Comunicação Social (16 de maio de 2010): AAS 102 (2010), 115-116.

[12]Mt 20, 28

[13]MARIN, Antonio Royo. Teología de la perfección cristiana.Biblioteca de Autores Cristianos: Madrid, 1988.

[14]I-II, q. 28, a. 4

[15]Mc 10, 51



Autor:


Pastores Dabo Vobis
  • Instagram - White Circle
  • Facebook - Círculo Branco