A cruz sob a ótica católica

Ao se deparar com a temática da cruz, é necessário buscar entendê-la a partir de uma ótica correta, a fim de resguardar o sentido mais profundo, muito bem expressado por São Paulo: “A linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma força divina” (1 Cor 1,18). Assim, para não gerar confusão ou uma compreensão leviana – como aqueles que enxergam apenas dor e sofrimento na morte, ao invés da vida que brota ao aproximá-la de Cristo –, a chave de interpretação para a temática da cruz é considera-la à luz das Escrituras e da pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Dessa forma, olharemos o madeiro com outros olhos e, assim, compreenderemos quão grandiosa é a cruz.



A fim de percorrer um caminho seguro, é importante realizarmos alguns questionamentos: entendemos que Nosso Senhor nos salvou? Sim, esta verdade é acachapante. Como Cristo nos salvou? Salvou-nos por meio do seu sangue? Sim. Salvou-nos por meio de sua obediência ao Pai? Sim. Tudo isto é verdade, mas é apenas uma face da moeda. Ora, para nos salvar, Cristo se utilizou de instrumentos no intuito de operar a obra de salvação, e o principal meio foi sua Sacrossanta Humanidade. Ele é Deus e Homem verdadeiro. Portanto, Cristo nos salva através de sua Santa Humanidade e o instrumento que ele se utilizou para nos conceder a salvação foi a cruz: “Por sua santíssima Paixão no madeiro da cruz mereceu-nos a justificação”, nos ensina o Concílio de Trento.


A cruz “sem” Cristo é escândalo, é motivo de maldição, contudo, a cruz “com” Cristo redunda em salvação. Assim, quando o Santo Corpo do Senhor toca a cruz e seu Preciosíssimo Sangue banha o madeiro, aquele objeto de escárnio, zombaria, tortura e desprezo, tocado pelo Sangue Redentor, transforma-se numa fonte de salvação: “Porque aprouve a Deus fazer habitar nele toda a plenitude e por seu intermédio reconciliar consigo todas as criaturas, por intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus” (Colossenses 1,20). Por isso, a Igreja afirma: “A Redenção nos vem antes de tudo pelo sangue da Cruz” (CIC 517).


Desde o Antigo Testamento, tudo aponta para a cruz: Moisés que levanta a serpente numa haste, trazendo a cura a todo aquele que a olhasse (Nm 21). Depois, o próprio Senhor retoma tal imagem e afirma: “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim deve ser levantado o Filho do Homem, para que todo homem que nele crer tenha a vida eterna” (Jo 3,14-14). Em outra oportunidade, Jesus torna a abordar essa mesma temática: “E quando eu for levantado da terra, atrairei todos os homens a mim” (Jo 12,32).


Portanto, no intuito de não se desprezar este essencial acontecimento, em um primeiro momento nosso olhar não deve se levantar para Cristo glorioso e Ressuscitado, mas, ao contrário, ao Cristo das dores, chagado, habituado ao sofrimento (Cf. Is 53). Dessa forma, é possível realizar a mesma experiência que São Paulo: “Fui crucificado junto com Cristo” (Gl 2, 19).


A concepção do amor à Cruz se encontra, principalmente, nas epístolas de São Paulo, onde se retoma muitas expressões sobre a cruz: “Quanto a mim, não pretendo, jamais, gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo. (Gl 6,14). Noutro lugar, o Apóstolo lembra ainda que o anúncio do Evangelho, feito por ele, não foi qualquer Cristo, “mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos; (1Cor 1,23). Um capítulo depois, completa: “Julguei não dever saber coisa alguma entre vós, senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado” (1Cor 2,2) e noutra passagem afirma: “Ó insensatos gálatas! Quem vos fascinou a vós, ante cujos olhos foi apresentada a imagem de Jesus Cristo crucificado? (Gl 3,1). Assim, a linguagem paulina, de maneira implícita, terá um liame com a cruz, pois ao falar de entrega, oblação, sacrifício, não há como não pensar no madeiro sagrado: “Eu vos exorto, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual” (Rm 12,1; Cf. Rm 6,13; 8,13;). O Apóstolo dos Gentios insiste que devemos crucificar o homem velho a fim de que renasça o homem novo: “Pois os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as paixões e concupiscências” (Gl 5,25).


Interessante notar, também, que o próprio Cristo se refere de forma direta, lembrando-nos sobre a realidade da cruz: “Se alguém me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8, 34). Cristo quer que tomemos o seu jugo sobre nós, pois seu jugo é leve; Ele quer nos dar o descanso, mas o descanso que nos dá é na sua cruz. (Cf. Mt 11, 28-30). O fardo de Cristo é a sua cruz. Lembro aquilo que tenho insistido desde o início: a cruz sempre com Cristo, mas nunca sem Cristo.

Traçar sobre nós a cruz, além de ser um gesto profundamente bíblico (invocamos o testemunho da Escritura e o que os apóstolos viveram), torna-se também cristológico e trinitário. Além disso, traçar este sinal sagrado sobre nós apresenta um significado de pertença, isto é, nos colocando debaixo do império, do Senhorio de Cristo, é como se disséssemos: “Não mais me pertenço, pertenço-me ao Crucificado”. (Cf. CIC 1235). Uma leitura atenta a algumas passagens bíblicas, como Ez 9, 4; Is 44, 5; Ap 7,3; 14,1; 22,4 revela que os escolhidos de Deus eram marcados com um sinal, o qual permitia que nada lhes acontecesse. Assim, ao nos marcamos com o sinal da cruz dizemos: “Senhor, sou todo teu. Senhor, fui resgatado, salvo, santificado por tua cruz”

Poderíamos ainda indagar como e onde se dá o reinado de Cristo, e a Escritura nos responde: “Deus anulou o documento que, por suas prescrições, nos era contrário e o eliminou, cravando-o na cruz; despojou os principados e as potestades e os deu publicamente em espetáculo, arrastando-os no seu cortejo triunfal”. (Colossenses 2,14-15). E a Igreja, por meio de seu magistério, ensina-nos: “o verdadeiro sentido de sua realeza só se manifestou do alto da Cruz” (CIC 440).


Cristo durante toda sua vida foi tentado por Satanás, mas a última tentação não se deu no horto das Oliveiras, mas sim no alto da cruz. Sabendo que Deus reconciliaria o gênero humano “pela virtude da cruz, aniquilando nela a inimizade” (Efésios 2,14) e que tudo estava perdido, o diabo dizia pela boca dos sumos sacerdotes, dos escribas e daqueles que passavam e viam Cristo crucificado: “desce da cruz” (Cf. Mc 15,30; Mt 27,40). Assim, no momento ápice, supremo de dor e sofrimento, o diabo ainda tentava fazer com que Cristo descesse da Cruz, renegando e fugindo daquele que seria o cumprimento da vontade do Pai. Por isso, o diabo tem horror à cruz do Senhor e, não à toa, São Paulo afirma que muitos se “portam como inimigos da cruz de Cristo” (Filipenses 3,18).


Então, compreende-se toda a riqueza bíblica, teológica e espiritual de algumas das orações tradicionais, de uso dos fieis, as quais estão impregnadas da realidade da cruz: “Eis a cruz de Cristo, fugi potências do mal....”; “A Cruz sagrada seja minha luz...”, “Crux, ave, spes única” (Hino das II Vésperas da Festa da Exaltação da Santa Cruz”); “Nós Vos adoramos e bendizemos, Senhor Jesus Cristo, que pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo”, entre tantas outras.


Assim, podemos dizer e rezar: Cristo Reina? Sim, sem dúvida. Onde? Ao que respondemos: “Regnavit a ligno Deus - Deus reinou do alto do madeiro” (Cf. CIC 550).

Enfim, como chamados à santidade, temos todos uma vocação que perpassa a cruz de Cristo, pois “fora da Cruz não existe outra escada por onde subir ao céu”, como nos ensina Santa Rosa de Lima (Cf. CIC 618). Ademais, como brasileiros, temos também um chamado especial: sermos o povo da cruz, o povo da Terra de Santa Cruz. Que a Santíssima Virgem nos ajude a permanecer fieis a esta vocação, junto à cruz de seu Filho, como resolutamente ela se manteve.


Reina a Cruz, Triunfa a Cruz, Impera a Cruz. Viva Cristo Rei!


Referências

[1] BÍBLIA. Português. Bíblia Edição Catequética Popular. 7 ed. Tradução dos originais grego, hebraico e aramaico mediante a versão dos Monges beneditinos e Maredsous (Bélgica). São Paulo: Ave Maria, 2008.

[2] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Loyola, 2000.


Autor:


Pastores Dabo Vobis
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