A direção espiritual


A direção espiritual é o meio normal para o progresso espiritual da alma. O foro interno da vida cristã só pode ser conduzido mediante a assistência de um bom diretor espiritual que conheça a reta doutrina da fé, tenha experiência no trato das almas e conheça seu dirigido, para lhe indicar os meios de não recair no pecado e de progredir na virtude. Mais do que isso, a direção espiritual é um meio de santificação, pois revela a vontade de Deus, em situações muitas vezes obscurecidas pela concupiscência da carne e pelo orgulho da alma. Quando São Paulo teve seu encontro pessoal com Cristo Jesus, seus olhos ficaram cegos e ele só pôde recobrar a vista, quando recebeu a imposição das mãos e a Palavra de Deus pela boca de Ananias. Mas São Paulo precisou confiar em Deus, necessitou ser conduzido ainda cego à cidade para que fosse dito a ele o que devia fazer[1].


Assim é a direção espiritual: quando a alma tem seu encontro pessoal com Cristo Jesus, diante do pecado, que possivelmente cometeu contra Deus e às vezes contra a própria Igreja, a alma fica atônita. Já fez o ato de fé, já tem o desejo de mudar de vida, de conversão, mas está perdida, não sabe o caminho, precisa da ação do Espírito Santo, da ação da Graça, de maneira mais ordenada, precisa fortalecer sua vontade para corresponder à vontade de Deus. A alma que inicia na vida espiritual está como que cega ainda, precisa ser conduzida à um bom confessor, um bom diretor espiritual que lhe imponha as mãos para o perdão dos pecados. Mais do que isso, a alma precisa de alguém instruído na fé, que lhe conduza a responder ao amor de Deus, necessita do diretor espiritual que lhe aponte o caminho e proclame a Palavra de Deus sobre a sua vida. Aí, ouvindo o que deve fazer, lhe caem as escamas dos olhos.


O padre Garrigou-Lagrange (OP), discorrendo sobre a necessidade da direção espiritual, cita os Santos Padres Basílio, Jerônimo e Agostinho: São Basílio afirmou a importância de encontrar um homem que sirva de guia seguro, que mostre o caminho reto para se chegar à uma vida santa. Basílio afirma também que é orgulho acreditar que não se precisa de conselhos. São Jerônimo escreve a Rústico orientando-lhe que não fosse ele mesmo seu próprio mestre, mas que tivesse um guia para o caminho que o fizesse se comprometer com Deus. Santo Agostinho diz que ninguém pode caminhar sem um guia, assim como um cego não trilha bom caminho sem um condutor.[2] Como se pode denotar, a direção espiritual é um meio eficaz para perfeição cristã.


Acerca dos meios gerais de perfeição, Adolphe Tanquerey cita como um dos meios externos principais a direção espiritual:

A direção: assim como Deus instituiu uma autoridade visível, para governar externamente a sua Igreja, assim quis também que as almas no foro interno fossem conduzidas por um guia espiritual experimentado, que lhes possa fazer evitar escolhos, ativar e dirigir esforços[3].

A direção espiritual é uma necessidade moral: o diretor ajuda a saber o que se deve fazer. Tanquerey cita Cassiano, que em seu Livro das Instituições estimula vivamente os jovens cenobitas a abrirem a alma ao ancião encarregado de dirigi-los e a lhe manifestarem sem falsa vergonha os pensamentos mais secretos, confiando-se completamente a ele para o discernimento do que é bom e do que é mau[4]. Garrigou-Lagrange cita São Bernardo, que afirma aos seus noviços o dever de se deixar conduzir por um pai nutrício que os instrua, dirija, console e encoraje. Lagrange cita ainda São Vicente Ferrer, que em seu tratado De vita spiritual, fala que Nosso Senhor jamais concederá sua graça, aquele que negligenciam a direção espiritual[5].


A direção espiritual dos iniciantes é sábia, firme e paternal, quebrando o orgulho da alma e levando-a à humildade, para que supere tendências jansenistas, ou laxistas. A direção dos adiantados e avançados visa garantir a docilidade da alma às inspirações do Espírito Santo. Os adiantados passarão pelas purificações ativas da alma e chegarão, certamente, as purificações passivas, ou a noite escura, como denominou São João da Cruz, em sua obra Subida do Monte Carmelo: Nesses momentos caberá ao diretor dar fortaleza e consolo a alma, até passar a noite escura. As qualidades do diretor são abordadas por Garrigou-Lagrange: Sua caridade deve ser desinteressada e leva-lo a não se apegar aos corações[6]. Enfim, o diretor espiritual deve ser bom, prudente e levar a alma ao esforço da meditação e contemplação, para alcançar a virtude.


O objeto da direção espiritual é tudo quanto interessa à formação espiritual das almas. Neste sentido, cabe ao dirigido espiritual responder as orientações que recebe. A direção espiritual não se confunde com a confissão dos pecados. A este respeito afirma Tanquerey:

A confissão limita-se à acusação das faltas: a direção vai muito mais longe. Remonta às causas dos nossos pecados, às inclinações profundas, ao temperamento, ao caráter, aos hábitos contraídos, às tentações, às imprudências: e tudo isto, a fim de poder descobrir os verdadeiros remédios, os que vão à própria raiz do mal[7].

Qual deve ser então, a correspondência da alma à direção espiritual? Em primeiro lugar, o dirigido deve respeitar seu diretor como pai. Ao mesmo tempo deve evitar familiaridade excessiva com ele, de modo a cair em falsa vergonha ou outros erros na direção. O dirigido deve ter com o diretor respeito temperado com afeição. Em segundo lugar, o dirigido espiritual deve ter confiança no diretor, tendo com ele um trato sincero e simples. Depois, o dirigido deve ter docilidade para acolher os conselhos do diretor espiritual, do contrário não mudará de vida. Cuide-se para não trocar de diretor espiritual com frequência, do contrário perde-se muito tempo trilhando novamente o caminho de confiança e orientações. Examinem-se os reais motivos, para se trocar de diretor espiritual: Serão motivos plausíveis, ou orgulho ferido diante de uma orientação mais enérgica do diretor?


A direção espiritual deve levar a pessoa a estabelecer uma regra de vida, harmônica, com um programa pontual que possibilite o crescimento nas virtudes. Precisa-se santificar o tempo mediante a oração e o trabalho, temperando-o com a caridade fraterna com o próximo, especialmente em alguma forma de apostolado. Para isso, o dirigido espiritual deve obedecer ao plano de vida estabelecido com seu diretor, sempre com prudência, mas fidelidade aos horários pontuados. Deve-se encontrar na direção espiritual os horários do dia em que se vai rezar, tempo para oração mental e indicações de leitura espiritual. Deve-se estabelecer junto com o diretor, a prática da oração litúrgica e orações de piedade, sempre com espírito de fé e desejo sincero de santificar o tempo. Também as relações sociais precisam estar enquadradas no plano de vida espiritual, estabelecido na direção.


A continuidade na direção espiritual é fundamental para que a alma produza frutos. Diz Lagrange: é preciso manter o máximo possível certa continuidade na direção, para que nela exista verdadeiramente um espírito de seguimento e de perseverança no bom caminho. Não deixemos um bom guia, porque ele nos repreende para o nosso bem[8]. A direção espiritual é instrumento do Espírito Santo para avançarmos pelo caminho estreito, que se alarga cada vez mais, quando nos aproximamos do Céu.


Autor:

[1] cf. At 9 [2] cf. GARRIGOU-LAGRANGE. Reginald. As três idades da vida interior. Tomo I. Ed. Cultor de livros: São Paulo, 2018. p. 313 [3] TANQUEREY. Adolphe. Compêndio de Teologia Ascética e Mística. Ed. Cultor de livros: São Paulo, 2017. p. 234 [4] cf. TANQUEREY. Adolphe. Compêndio de Teologia Ascética e Mística. Ed. Cultor de livros: São Paulo, 2017. p. 283 [5] cf. GARRIGOU-LAGRANGE. Reginald. As três idades da vida interior. Tomo I. Ed. Cultor de livros: São Paulo, 2018. p. 313-314 [6] GARRIGOU-LAGRANGE. Reginald. As três idades da vida interior. Tomo I. Ed. Cultor de livros: São Paulo, 2018. p. 319 [7] TANQUEREY. Adolphe. Compêndio de Teologia Ascética e Mística. Ed. Cultor de livros: São Paulo, 2017. p. 287 [8] GARRIGOU-LAGRANGE. Reginald. As três idades da vida interior. Tomo I. Ed. Cultor de livros: São Paulo, 2018. p. 322

Pastores Dabo Vobis
  • Instagram - White Circle
  • Facebook - Círculo Branco