A espiritualidade do Advento

O Verbo eterno do Pai,

da luz do Pai emanado,

nascendo eleva a história,

caída pelo pecado.[1]


Todos os anos a Igreja propõe aos fiéis, nas quatro semanas que antecedem o Santo Natal, a meditação sobre a vinda de Cristo, nosso Senhor. Essa meditação se apresenta duplamente: primeiro, somos chamados a meditar na segunda vinda de Nosso Senhor, na parusia, quando virá como glorioso juiz a julgar vivos e mortos. Por outro lado, e assim nos convida a liturgia do advento em seus dias mais próximos ao Natal, voltamo-nos para a primeira vinda de Cristo, na gruta de Belém. Esse duplo movimento faz com que os cristãos, tendo os olhos no futuro, na consumação dos tempos e do Reino dos céus, também revivam de maneira eficaz o grande evento da encarnação do Filho de Deus que, sendo Eterno, faz-se presente no tempo, levando a história humana à sua plenitude.



Diante dessa realidade tão rica, somos chamados nesse tempo à vivencia de uma fecunda espiritualidade, voltada, primeiramente, para a realidade passageira desse mundo e para a esperança da restauração de todas as coisas em Cristo. Como muito bem expressa o Papa Emérito Bento XVI, “o Advento é o tempo em que é necessário que os cristãos despertem no seu coração a esperança de poderem, com a ajuda de Deus, renovar o mundo”.[2]


A essa feliz esperança dos cristãos na segunda vinda de Cristo une-se a esperança do povo fiel do antigo testamento na sua primeira vinda. Assim, faz todo o sentido a Igreja cantar, na antífona de comunhão do segundo domingo do advento a bela profecia de Baruc (5,5; 4, 36): Jerusalem, surge et sta in excelso, et videm jucunditatem, quae veniet tibi a Deo tuo – “Levanta-te Jerusalém, sobe no alto e vê: vem a ti a alegria do teu Deus”. Com beleza poética e espiritual mistura-se a esperança dos primeiros pais com a nossa, o anseio da antiga Jerusalém com o da nova Jerusalém, a Igreja.


Aproximando-nos da solenidade do Natal, a Igreja procura afervorar nossos corações com uma intensificação da expectativa da vinda do Salvador feito carne no ventre da Virgem Mãe. Para isso nos dá as antífonas maiores nas Vésperas e no introito da Missa, as ditas “Antífonas do Ó”, em virtude da interjeição que as inicia. Esses textos estão repletos de um riquíssimo sentimento filial, onde clamamos a Cristo em seus mais belos títulos (Emanuel, Chave de Davi, Adonai...) a que não tarde em vir em socorro de nossa frágil humanidade. Todo esse piedoso anseio parece culminar com o responsório da primeira leitura do Ofício do dia 24 de dezembro: “Amanhã será varrida da terra a iniquidade e sobre nós há de reinar o Salvador do mundo”.


Vemos, portanto, como a espiritualidade do advento, a qual poderíamos muito bem chamar de uma espiritualidade da esperança, está intimamente ligada à liturgia. Se deixarmo-nos guiar pelo rumo tomado pelas leituras, pelas exclamações das antífonas, pela beleza teológica dos hinos do Breviário, conseguiremos de fato viver esse tempo dito “de espera” com fecundidade. Através da meditação no mistério da encarnação, da devoção filial à Virgem Mãe e na contemplação das figuras apresentadas a nós como modelo de anúncio do Cristo (São João Batista, os profetas), conseguiremos tirar desse tempo grande proveito espiritual e poderemos celebrar com toda dignidade o Natal de Nosso Senhor, no espírito a que nos exorta Santo Agostinho: “Celebremos com alegria a vinda da nossa salvação e redenção. Celebremos este dia de festa, em que o grande e eterno Dia, gerado pelo Dia grande e eterno, veio a este nosso dia temporal e tão breve”.[3]


[1] Estrofe do hino do Ofício de Leituras no tempo do Advento

[2] Angelus no primeiro domingo do advento de 2005.

[3] Santo Agostinho- Sermão 185


Autor:


Eduardo D. Santana Silva

(Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro)


Pastores Dabo Vobis
  • Instagram - White Circle
  • Facebook - Círculo Branco