A família, origem e fim da vocação sacerdotal



No ano de 2014, quando comecei a discernir meu chamado ao sacerdócio, minha vida mudou radicalmente. No início daquele ano, eu pensava em ser pai e, ao mesmo, ser todo de Deus, dedicando-me ao serviço pastoral. Eu já vivia o desejo de conduzir as pessoas como catequista, mas faltava-me dar os passos necessários para a paternidade. Numa conversa com meu pároco, em que ele me indagou com uma pergunta que eu nunca havia feito a mim mesmo: “você já pensou em ser padre?” e me explicou que ser padre é ser pai de muitas pessoas, as quais eu formaria e levaria para Deus mediante as obras e o sacrifício espiritual de todo dia. Pouco tempo depois, numa Adoração ao Santíssimo Sacramento durante um retiro, já no segundo semestre daquele ano, senti-me fortemente chamado por Deus ao sacerdócio. Então, eu disse “sim, Senhor; se tu queres, eu quero”.


Aquele passo fundamental para a minha vocação foi feito na liberdade de abrir mão de constituir uma família no matrimônio para abraçar a família que Deus me daria no sacerdócio. Mas isso não significa que eu fiz uma escolha entre um bem e um mal ou que a vocação sacerdotal seria uma rejeição da família e uma oposição a ela. Na verdade, eu me via chamado a ser como Jesus, que, assumindo a nossa humanidade, quis ter uma família, mas também elevou os laços espirituais acima dos de parentesco carnal (cf. Mt 12,46-50). Dessa forma, Ele chama alguns dentre seus discípulos para manifestar ao mundo que é próprio de Deus atrair os homens para Si no amor como co-participantes da realidade familiar do Pai, do Filho e do Espírito Santo, que é o Amor.


É justamente assim a vida de um padre: ele tem sua família de origem, mas é chamado a ser pai espiritual de todos. Ele gera os filhos de Deus nas águas do batismo, nutre-os com o Pão da Vida, forma-os com a Palavra e conduze-os no caminho do Reino celeste. Ele dispõe inteiramente de sua vida para que os homens tenham a Vida de Cristo. Por isso, ele se une à Igreja para formar a família de Deus; não gera filhos de sangue, mas tem muitos filhos sobre os quais exerce autoridade divina, e pesa em seus ombros a responsabilidade por cada um deles diante do Senhor, que o constituiu pastor de Seu rebanho e administrador de Sua vinha.


O vocacionado ao sacerdócio rende gratidão a Deus por seus pais, que lhe deram a vida e a educação, e por seus irmãos, que lhe proporcionaram a fraternidade. Ele aprendeu na Igreja doméstica a abdicar dos próprios gostos em favor do outro e a assumir seus deveres com responsabilidade. A vocação sacerdotal aprende também da vocação matrimonial o dom de si no amor livre, total, fiel e fecundo. Assim, o futuro sacerdote vê na família o exemplo de alteridade, de sacrifício, de doação e de generosidade que ele deve viver. Nesse sentido, o seio familiar cristão é o celeiro das vocações e o primeiro seminário, porque dá à Igreja e à sociedade homens de Deus.


Se, por um lado, a família é base da vocação sacerdotal, por outro lado, o sacerdócio edifica a família. A entrega incondicional a Deus na vida sacerdotal aponta o fim a que todos são chamados: a união eterna com Deus, que superará a aliança matrimonial e os graus de parentesco. Quando um jovem sai de casa para ser Alter et Ipsus Christus em união esponsal com a Igreja, ele parece, por vezes, “frustrar” os planos dos parentes, que projetavam sua vida familiar e sua carreira profissional. Porém, o filho sacerdote é graça inestimável para a família: “quando um filho deixa sua casa para ser padre, Jesus Cristo ocupa seu lugar”, diz São João Bosco. Os familiares de um sacerdote são honrados pelo povo e pelo clero (basta ir a uma missa de ordenação para constatar esse fato), mas também são chamados a participar na comunidade cristã como gesto de gratidão a Deus, que dignou-se conceder-lhes tão sublime dom.


Portanto, a família é origem e fim da vocação sacerdotal: dela emanam as vocações, que, por sua vez, edificam a família humana na aliança com Deus. Sou grato ao Senhor pela minha família e certamente ela se alegra comigo pelo fato de Cristo me dar uma família, não pelo sangue, mas pelo Espírito, que me dá tantos pais, mães, irmãos e irmãs que caminham comigo, me sustentam e rezam por mim. Por sinal, eles sempre elogiam os meus pais por se dedicarem tanto a mim.


Que Deus me dê a graça de ser um homem caridoso como meu pai, amoroso como minha mãe e bondoso como meus irmãos. E que eu, trazendo de casa a fé e a caridade, testemunhe a eles e a todos a alegria de fazer a vontade do Pai Eterno na Igreja e de amar a todos com um coração semelhante ao de Cristo.


Autor:


Pastores Dabo Vobis
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