A Liturgia das Horas na vida da Igreja


“Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. O espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca.”[1]

Certa vez ouvi um padre dizer que a oração é um encontro entre duas pessoas que se conhecem e se amam. Entre as várias definições de oração, esta parece sintetizar na simplicidade de um encontro tudo o que as outras tentam dizer... é impulso do coração, elevação da alma a Deus, um olhar elevado ao Céu, um grito de reconhecimento e amor[2], é encontro de um Deus que ama com alguém que é amado. Se entendemos isso, o conselho de Jesus ganha novas cores, porque a vigilância não será um simples “estado de alerta” nem a oração se tornará mero pedido de socorro, mas companhia, encontro de amor, comunhão.


Essa comunhão se realiza de maneira especial na Liturgia, “pela qual, especialmente no sacrifício eucarístico, se opera o fruto da nossa Redenção’”[3], porque ela é eminentemente “ação sacerdotal de Cristo mesmo, que é continuada na Igreja e por meio dela sob a ação do Espírito Santo”[4]. Ora, se é verdade que o Verbo se fez carne e, analogamente, o mesmo Verbo se fez Palavra Humana[5], isto é, fez-se Escritura, é também verdade que a Liturgia é o lugar privilegiado da proclamação e do anúncio dessa Palavra. Quem age e se comunica na Liturgia é o próprio Deus, de modo que o homem, tomando parte nela, pode realizar sua mais alta dignidade: poder adorar e glorificar a Deus conscientemente[6].


Haveria muito a dizer sobre esse movimento consciente do homem em direção a Deus, mas importa-nos aqui somente um elemento, a oração, particularmente a Oração das Horas ou Liturgia das Horas. Como já foi dito, a oração é um encontro do homem com Deus e, em grande medida, é um movimento do homem em Sua direção, mas não se pode esquecer que

a oração dirigida a Deus tem de estar ligada a Cristo, Senhor de todos os homens, único Mediador, o único por quem temos acesso a Deus. Ele une a Si toda a comunidade dos homens, e de tal forma que entre a oração de Cristo e a de toda a humanidade existe uma estreita relação. Em Cristo, e só n’Ele, é que a religião humana adquire valor salvífico e atinge o seu fim[7].

A partir daí podemos compreender dois aspectos importantes da Oração das Horas. O primeiro é o fato de ser uma Liturgia, o que significa que não é uma prática de devoção, nem tampouco uma oração “feita pelos homens” para se santificarem ou um exercício ascético[8]. Ora, pelo Batismo somos assumidos por Cristo como membros de Seu corpo, que é a Igreja[9], e nos é dado participar da vida divina e nos tornamos filhos de Deus[10]. Com efeito, é dessa unidade inseparável entre Cristo e a Igreja que deriva toda a eficácia da Liturgia, que é uma oração pessoal do próprio Senhor Jesus Cristo da qual podemos tomar parte como seu corpo. Há aqui um dado importante: a comunhão entre o homem e Deus não é resultado de um esforço ou uma ação do homem, mas dom gratuito de Deus, é fruto de uma obra totalmente livre realizada por Ele em favor do homem[11]. Desse modo, todo batizado participa do Sacerdócio de Jesus Cristo e “a assembleia que celebra é a comunidade dos batizados, os quais, ‘pela regeneração do Espírito Santo, são consagrados para serem casa espiritual e sacerdócio santo’”[12], de modo que o cristão está habilitado, por força dos méritos de Cristo, a exercer o culto da Nova Aliança[13].


O segundo aspecto é sua índole comunitária, que lhe confere uma dignidade especial e a torna objeto de uma promessa de Nosso Senhor: “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali eu estarei, no meio deles”[14]. Assim, se temos em mente o que foi dito no início, que a oração é um encontro entre duas pessoas que se conhecem e se amam, podemos contemplar um pouco do mistério dessa oração: é Cristo que louva e glorifica o Pai no Espírito Santo e o faz por nossa voz, ela é comunhão de Amor de toda a Trindade que se manifesta na oração de Cristo que se faz tangível e sensível na oração da Igreja, no ‘Cristo-total’, cabeça e membros, que reza.


De fato, a Igreja sempre guardou religiosamente o que Cristo disse: “É preciso orar sempre, sem desfalecimento”[15], sem nunca cessar de rezar, e esse preceito é cumprido de modo particular com a Liturgia das Horas[16]. Desde a era apostólica, consagrou determinados momentos do dia à oração pública e em comum, como lemos nos Atos dos Apóstolos: “Eles eram perseverantes no ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações”[17]. Essa perseverança não era mantida apenas com base numa obediência a um preceito, como seria de se esperar de muitos judeus da época de Jesus, mas era uma fidelidade amorosa, uma firme esperança e confiança de que na oração o Seu Senhor estava ali, junto dos seus. Desse modo, a disposição da Igreja em guardar determinados horários para a Oração, as chamadas ‘horas canônicas’, não é mera disciplina, mas uma relação profunda de intimidade com seu Senhor, expressão do desejo de cumprir e ver cumprido o que Dele recebeu.


Com efeito, é assim que os membros da Igreja são santificados, pela participação na vida divina, na vida da graça que lhes é comunicada e alimentada pelos Sacramentos e cultivada pela oração e, de modo privilegiado, na oração litúrgica. Entretanto, a Liturgia das Horas, também chamada de ‘Ofício Divino’ é recitada primordialmente porque a Deus pertencem o louvor, a glória, a santidade e a majestade[18], e não porque ela nos transformará e santificará. Como foi dito, a Liturgia não é um exercício ascético, mas sua intenção primeira é louvar e glorificar a Deus. A segunda intenção é pedir a graça de Deus, mas, se somos atendidos (se recebemos de Deus as graças que nos santificam), isso não se deve simplesmente ao fato de havermos pedido, mas é sempre um ato totalmente livre e gratuito da parte de Deus.[19]


Com esse espírito é que a Igreja escolheu guardar determinadas horas do dia para a oração. Os primeiros cristãos viveram no ambiente do Império Romano, por isso é razoável que esse ambiente tenha influenciado esse ordenamento do dia para o que hoje chamamos de Liturgia das Horas. Das formas como os romanos dividiam a jornada, uma delas era em quatro horas diurnas e quatro noturnas.

As quatro horas diárias eram subdivididas em prima, terça, sexta e nona, que correspondem aproximadamente ao nosso horário: prima (6-9), terça (9-12), sexta (12-15), nona (15-18). As quatro horas da noite foram subdivididas da seguinte forma: primeira vigília ou véspera, segunda vigília ou meia-noite, terceira vigília ou canto do galo, e quarta vigília ou manhã. Eles tinham a seguinte correspondência com a nossa: primeira vigília: 18-21; segunda vigília: 21-24; terceira vigília: 24-3; quarta vigília: 3-6[20].

É esse ordenamento das horas que a Igreja segue, de modo que todo o dia é permeado com louvores e ações de graças a Deus e é, assim, santificado. Atualmente permanecem as horas prima, a que correspondem as Laudes; terça, sexta e nona, a que correspondem as Horas Médias; e a primeira vigília, a que correspondem as Vésperas. Além dessas horas, há ainda o Ofício das Leituras, que no ordenamento atual não está vinculado a nenhuma hora canônica, e as Completas, que são rezadas como último ato litúrgico do dia. Desse modo, “a Liturgia das Horas alarga aos diferentes momentos do dia o louvor e ação de graças, a memória dos mistérios da salvação, as súplicas, o antegozo da glória celeste, contidos no mistério eucarístico, ‘centro e vértice de toda a vida da comunidade cristã’”[21]. Ademais, “para que a atividade que caracteriza nossa época não se torne puro dinamismo carente de espírito sobrenatural e o apostolado não seja pura propaganda humana – os apóstolos prescindiram de outros ministérios para atender à oração –, ela deve ser temperada com a oração freqüente”[22]. É assim que os consagrados e sacerdotes rezam: eles têm por vocação a doce obrigação de emprestarem sua voz a Cristo e de se colocarem como intercessores em favor de toda a Igreja, santificando as horas do dia em favor de todos os membros de Cristo.


A Liturgia das Horas como que “emana” das Sagradas Escrituras, ela é sua espinha dorsal e sua fonte, dela se tomam a maior parte do Ofício Divino e nela se inspiram as orações que a completa, frutos da rica tradição eucológica[23] da Igreja. “Entoai juntos salmos, hinos e cânticos espirituais; cantai e salmodiai ao Senhor, de todo o coração”[24]. Eis o que a Igreja se empenha em fazer ao longo da história e continuará sempre até o Esposo chegar: ela “vigia e ora”, jamais silencia a voz de Cristo que ressoa em seu seio e reza ao Pai em nosso favor.

“O Espírito e a Esposa dizem: ‘Vem’! E quem ouve também diga ‘Vem’! Quem tem sede, venha, e quem quiser, receba gratuitamente a água da vida.”[25]

[1] Mt 26, 41 [2] Catecismo da Igreja Católica, nn.2558-2559 [3] Sacrosanctum Concilium, n.2 [4] BONAÑO, J. A. Abad Ibáñez M. Garrido. Iniciación a la liturgia de la Iglesia. 2. ed. Madrid: Ediciones Palabra, 1988. [5] Dei Verbum, n.13 [6] HILDEBRAND, Dietrich von. Liturgy and Personality. Baltimore: Hildebrand Press, 2016. [7] Instrução Geral da Liturgia das Horas, n.6 [8] “Pelo termo ascese comumente se entende o conjunto dos esforços mediante os quais se quer progredir na vida moral e religiosa” (BORRIELLO, L.; CARUANA, E.; DEL GENIO, M. R.; SUFFI, N. Dicionário de Mística. São Paulo: Paulus: Edições Loyola, 2003. p. 111) [9] Cf. 1Cor 12 [10] Cf. Gl 4, 7; 1Jo 3, 1 [11] Cf. Ef 1, 9ss [12] Catecismo da Igreja Católica, n.1141 [13] Instrução Geral da Liturgia das Horas, n.7 [14] Mt 18, 20 [15] Lc 18, 1 [16] Instrução Geral da Liturgia das Horas, n.10 [17] At 2, 42 [18] Cf. Sl 115, 1 [19] HILDEBRAND, Dietrich von. Liturgy and Personality. Baltimore: Hildebrand Press, 2016. [20] BONAÑO, J. A. Abad Ibáñez M. Garrido. Iniciación a la liturgia de la Iglesia. 2. ed. Madrid: Ediciones Palabra, 1988. [21] Instrução Geral da Liturgia das Horas, n.12 [22] ALISEDA, Casimiro Sanchez. Historia del Breviario Romano. 1. ed. Madrid: Centre de Pastoral Litúrgica, 2020. [23] A eucologia é o conjunto de orações de um livro litúrgico ou de uma celebração. Assim como as leituras representam o que Deus nos quer comunicar, os textos eucológicos são as orações que nós dirigimos a Deus. (Dicionário Elementar de Liturgia. Disponível em: http://www.liturgia.pt/dicionario. Acesso em 21/06/2020). [24] Ef 5, 19 [25] Ap 22, 17

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