A necessária devoção ao Sagrado Coração de Jesus

Na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, pareceu oportuno considerar brevemente a origem da devoção e da comemoração litúrgica, primeiramente; depois, discorrer um pouco sobre a natureza do amor presente no Coração Sagrado de Jesus; e, por último, falar sobre a verdadeiro devoção ao Coração Divino e sua relação com a nossa santificação.


I. As origens da devoção e da liturgia ao Sagrado Coração de Jesus

Em primeiro lugar, é preciso destacar, como ensinado pelo Papa Pio XII na Encíclica “Haurietis Aquas”[1], que o fundamento da devoção ao Sagrado Coração de Jesus está nas Escrituras Sagradas, nos Padres da Igreja, na Liturgia e nos teólogos: essas são as suas fontes. A Igreja, por meio de seus pastores, especialmente os Romanos Pontífices – Inocêncio XII, Bento XIII, Clemente XIII, Pio VI, Pio IX, Leão XIII, Pio XI, Pio XII, para citar alguns – que reconheceram, estabeleceram e fizeram difundir essa devoção, não fez senão propor aos seus fiéis o tesouro do infinito amor de Deus para com todos os homens, o qual, no Coração amabilíssimo do Redentor, expressa-se como numa síntese. Essa é a origem revelada da devoção ao Coração de Jesus.

“Em substância, este culto não é outra coisa senão o culto ao amor divino e humano do Verbo encarnado, e também o culto àquele amor com que o Pai e o Espírito Santo amam os homens pecadores.”[2]

Embora a substância da devoção pertença ao patrimônio público revelado da fé, Nosso Senhor se serviu de revelações privadas, as quais se deram por visões e locuções dirigidas a alguns santos ao longo da História da Igreja, para divulgar a devoção que queria instaurar ao Seu Sagrado Coração.

“O próprio Senhor revelou este divino mistério a alguns de seus filhos após havê-los cumulado com abundância de dons sobrenaturais, e os elegeu para seus mensageiros e arautos”[3]. Portanto, “só gradualmente esse coração chegou a ser objeto de culto especial, como imagem do amor humano e divino do Verbo encarnado”[4].

A origem histórica está relacionada à Santa Gertrudes, monja beneditina mística que viveu na Saxônia, no século XIII. Ela foi agraciada com visões de Nosso Senhor, as quais relatou no livro “Revelações”, também chamado “O Arauto do Amor Divino”. Mais tarde, no século XVII, São João Eudes – que depois viria a ser proclamado “Autor do culto litúrgico do Sagrado Coração de Jesus” pelo Papa Leão XIII e “Pai, Doutor e Apóstolo do Sagrado Coração de Jesus” pelo Papa São Pio X – foi um grande propagador desta devoção, e o primeiro a compor um ofício litúrgico e Missa em honra do Sagrado Coração de Jesus, ainda cerca de 30 anos antes que Santa Margarida Maria Alacoque recebesse as visões do Sagrado Coração, entre 1673 e 1675. Essa última santa recebeu de Jesus visões, locuções, promessas e o pedido de divulgar a devoção ao Seu Sagrado Coração, sobretudo pela comunhão reparadora: a comunhão reparadora, aliás, manifesta o estreito vínculo entre a Solenidade de Corpus Christi e a do Sagrado Coração de Jesus. A festa litúrgica do Sagrado Coração de Jesus é celebrada na sexta-feira após a Oitava de Corpus Christi, por assim dizer, já que foi precisamente em um dia como esse que Santa Margarida Maria recebeu a “grande visão” de Nosso Senhor.


A devoção ao Sagrado Coração de Jesus expandiu-se admiravelmente, tendo sido estendida à toda a Igreja em 1856, pelo Papa Pio IX. Em 1889, o Papa Leão XIII elevou-a à categoria de Festa e, em 1928, Pio XI elevou-a à dignidade de Solenidade, conferindo-lhe uma Oitava e Missa própria – a Oitava seria, depois, supressa pelo Papa Pio XII. Os Papas dos últimos séculos têm escrito e incentivado muitíssimo esta devoção. Alguns exemplos são: a encíclica “Annum sacrum”, do Papa Leão XIII, por meio da qual entregou à Igreja uma fórmula de consagração ao Sagrado Coração de Jesus, tendo ele mesmo consagrado toda a humanidade ao Divino Coração; a encíclica “Miserentissimus Redemptor”, do Papa Pio XI, que trata da reparação devida ao Sagrado Coração; a encíclica “Haurietis Aquas”, do Venerável Papa Pio XII, sobre o culto ao Sagrado Coração; e mesmo outros escritos não propriamente destinados ao Sagrado Coração, mas que trataram e recomendaram a sua devoção, como a encíclica “Redemptor Hominis”, de São João Paulo II. Cite-se, ainda, as indulgências concedidas aos fiéis que portassem o escapulário com a imagem do Sagrado Coração de Jesus, e as concedidas pela récita do ato de desagravo ao Sagrado Coração de Jesus, conhecido como “Dulcíssimo Jesus”.


Tudo isso concorre para demonstrar, por um lado, a importância e o alcance dessa devoção; e, por outro, que justamente a chancela da Igreja e a divulgação universal da devoção ao Coração Divino advogam em função de que ela não está restrita ao benefício privado de alguma pessoa ou grupo, nem mesmo é fortuita e oriunda de uma piedade particular de alguns santos especialmente comovidos pela imagem do Coração de Jesus, mas que está inscrita no patrimônio universal da Igreja, e “nasce das fontes do dogma católico”, segundo expressão do Papa Pio XII na Encíclica “Haurietis Aquas”[5].

“Não se pode dizer nem que este culto deve a sua origem a revelações privadas, nem que apareceu de improviso na Igreja, mas sim que brotou espontaneamente da fé viva, da piedade fervorosa de almas prediletas para com a pessoa adorável do Redentor e para com aquelas suas gloriosas feridas, testemunhos do seu amor imenso que intimamente comovem os corações. Evidente é, portanto, que as revelações com que foi favorecida s. Margarida Maria não acrescentaram nada de novo à doutrina católica. A importância delas consiste em que – ao mostrar o Senhor o seu coração sacratíssimo – de modo extraordinário e singular quis atrair a consideração dos homens para a contemplação e a veneração do amor misericordioso de Deus para com o gênero humano”[6].

O Papa Pio XII, ainda na mesma Encíclica, chama a atenção para o fato de que muitos não têm a devoção ao Sagrado Coração de Jesus na honra e estima que lhe são devidas[7]. Alguns tratam-na com preconceito e indiferença, como se ela fosse uma devoção sentimental e não um meio poderoso de estabelecer e renovar os costumes cristãos na vida individual, familiar, social e eclesial; outros se confundem e equiparam-na a qualquer outra devoção que a Igreja aprova e favorece, como se ela fosse um acréscimo à piedade pessoal, que cada um estaria à vontade para praticar livremente; e outros, ainda, argumentam que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus não seria adaptada às necessidades atuais da Igreja, seja porque veem que as atenções deveriam estar postas em temas da doutrina social e da ação da Igreja em âmbito temporal, seja porque consideram que a penitência, a expiação e as outras virtudes intrínsecas à essa devoção não são aptas para suscitar a piedade nos fieis. Certamente, os que pensam assim se equivocam, pois:

Se se ponderam devidamente os argumentos em que se funda o culto ao coração ferido de Jesus, todos verão claramente não se tratar aqui de uma forma qualquer de piedade, que se possa pospor a outras ou ter em menos, mas sim de uma prática religiosa sumamente apta para conseguir a perfeição cristã [...] [8].

“O culto ao sagrado coração é considerado como a mais completa profissão da religião cristã. Verdadeiramente, a religião de Jesus Cristo funda-se toda no Homem-Deus mediador; de maneira que não se pode chegar ao coração de Deus senão passando pelo coração de Cristo”[9]

II. O amor divino, espiritual e humano do Coração de Jesus

“Deus amou tanto o mundo que deu Seu Filho Único para que todo aquele que nele crer, não pereça mas tenha a vida eterna”[10]. Como dito na primeira seção, a substância do culto ao Sagrado Coração de Jesus é o amor que Deus tem em relação a todos os homens. Em seu infinito amor, “o Verbo se fez carne e habitou entre nós”[11], assumindo uma natureza humana íntegra e perfeitíssima, a qual lhe serviu de instrumento para realizar a obra da glorificação de Deus e da redenção dos homens, como canta o trecho do Hino das Vésperas da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus:

O amor vos fez assumir

o nosso corpo mortal,

e, novo Adão, reparastes

do velho a culpa fatal.

O vosso amor, que criou

a terra, o mar e o céu,

do antigo mal condoído,

nossas cadeias rompeu.

Ora, o Verbo é “Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai”, como reza o Símbolo Niceno Constantinopolitano. Em si mesmo, portanto, conhece e ama como Deus conhece e ama, isto é, de modo divino, sublime e espiritual.


Na Encarnação, ao assumir uma natureza humana íntegra em todas as suas propriedades – corpo, alma, afetividade, sensibilidade, paixões –, em tudo semelhante à nossa, exceto o pecado, o Verbo de Deus encarnado, Jesus Cristo, recebeu um coração físico gerado pelo Espírito Santo nas entranhas virginais puríssimas de Maria. Além disso, nas Sagradas Escrituras, o coração é o centro vital do homem, como o lugar interior em que se entrecruzam o corpo e o espírito, a inteligência, a vontade e a afetividade, sendo o lugar da abertura à verdade e ao amor[12].


A devoção ao Sagrado Coração de Jesus é direcionada ao mesmo tempo, portanto, ao coração físico de Jesus gerado nas entranhas virginais puríssimas de Maria por obra do Espírito Santo e, na Cruz, rasgado pela lança do soldado; e ao coração de Jesus tomado em sentido simbólico, enquanto expressão dos amores divino e humano presentes em Jesus Cristo pelo mistério da união hipostática.

“Quando adoramos o coração de Jesus Cristo, nele e por ele adoramos tanto o amor incriado do Verbo divino como seu amor humano e os seus demais afetos e virtudes, já que um e outro amor moveu o nosso Redentor a imolar-se por nós e por toda a Igreja, sua esposa”[13]

A partir da Encarnação, e para toda a eternidade, Deus ama os homens não só com o amor divino e espiritual que lhe é próprio, mas, pelos sentimentos e afetos humanos do Coração de Jesus, unido à Pessoa do Verbo, ama os homens com um amor humano.

III. A verdadeiro devoção ao Sagrado Coração de Jesus

“Vim trazer fogo à terra; e o que quero senão que ele seja ateado?”[14].

A imagem do Sagrado Coração de Jesus é a de um coração ardente de amor, coração que traz em si os sinais da Paixão: a chaga da lança que o transpassou e a coroa de espinhos que feriu a cabeça do Divino Redentor. Nisso estão contidos os dois atos principais pelos quais os homens devem retribuir o amor infinito de Jesus: uma caridade ardente que fuja do pecado para se lançar no abismo do amor de Deus, correspondendo-lhe por uma vida santa, vivida em conformidade com a Sua Lei: é o que se procura pela consagração total de si; e a expiação, que é o meio pelo qual o homem busca, por meio de sacrifícios oferecidos a Deus, reparar, a título de justiça e de amor, os abusos e as injúrias cometidas contra o amor infinito de Deus.


Consagração de si e expiação: os dois pilares fundamentais da verdadeira devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Mas por que verdadeira? Existe uma falsa devoção ou falsos devotos do Sagrado Coração?


Primeiro, talvez seja oportuno questionar o que é uma devoção. A devoção, como ensina Santo Tomás, “não é outra coisa senão a vontade pronta de se dedicar a tudo o que se relaciona com o serviço de Deus”[15]. É uma prontidão da vontade: isso quer dizer que é uma disposição para agir depois de ter meditado sobre a verdade e a bondade de algo. No caso do Sagrado Coração de Jesus, depois de meditar sobre a verdade do amor infinito de Deus e a sua bondade, sentimo-nos impelidos a amar de volta e a expiar.


Depois, parece oportuno recolher, adaptando-os, o esquema e a terminologia utilizadas por São Luís Maria Grignon de Montfort em seu “Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem Maria” para falar sobre a verdadeira devoção e os verdadeiros devotos, por um lado; e sobre a falsa devoção e os falsos devotos, por outro.


A falsa devoção é aquela praticada pelos falsos devotos, que são de tipos diferentes. Os falsos devotos são os críticos, os exteriores, os presunçosos, os inconstantes, os hipócritas e os interessados. Os críticos são aqueles fieis orgulhosos que criticam a devoção ao Sagrado Coração como algo ingênuo, inapto, antiteológico ou exagerado; os exteriores são aqueles fieis que se prendem aos elementos sensíveis da devoção ao Coração Divino, fazendo-a consistir num sentimento vago e superficial que dá mais importância às práticas exteriores – medalhas, escapulários, ladainhas – do que à essência da devoção; os presunçosos são aqueles fieis que, presumindo-se amparados, por exemplo, pelas promessas feitas pelo Sagrado Coração de Jesus e dirigidas à Santa Margaria Maria Alacoque, se dão licença para viverem a religião de forma relaxada e pouco comprometida, quando não totalmente entregues aos vícios e pecados, pensando que Deus os perdoará se não se arrependerem real e totalmente, só porque cumpriram algumas práticas externas devocionais; os inconstantes são aqueles fieis que abandonam rapidamente os atos relativos aos pilares da devoção – consagração de si e reparação – ao mínimo sinal de tentação, aridez espiritual ou desgosto; os hipócritas são os fiéis que ingressam, por exemplo, no Apostolado da Oração, em confrarias erigidas em honra do Sagrado Coração de Jesus, ou mesmo em Ordens e Congregações religiosas a Ele dedicadas simplesmente pra serem tidos pelos homens como bons e exemplares; por fim, os interessados são aqueles que praticam a devoção ao Sagrado Coração de Jesus unicamente pelos benefícios temporais – saúde, emprego, dinheiro, sucesso, etc – ou espirituais que possam lhe advir dela: o seu erro está em que, esquecendo-se do Criador, voltam-se unicamente sobre os bens criados – temporais ou espirituais -, desejando possui-los.


Ao contrário, a verdadeira devoção ao Sagrado Coração de Jesus é interior, terna, santa, constante e desinteressada. Interior porque nasce da meditação e da estima que se tem pelo amor divino; terna porque cheia de confiança no abismo infinito da caridade ardente de Deus, cujo símbolo e compêndio é o Sagrado Coração de Jesus; santa porque tem por alicerce a detestação, fuga, expiação e reparação dos pecados e a correspondência ao amor divino por meio da consagração total de si; constante porque é robustecida pelas graças divinas e pela fortaleza da alma fiel que deseja cumprir sempre de forma mais perfeita e mais pronta os deveres de reparação e amor que têm para o Divino Coração; desinteressada porque não busca servir a Deus por espírito de lucro, senão unicamente porque enxerga na devoção ao Sagrado Coração de Jesus um meio excelente de amar e honrar a Deus, que é digno, em Si mesmo, de todo nosso amor e empenho. Essas cinco características, unidas aos dois pilares – consagração de si e reparação – são as notas fundamentais da verdadeira devoção ao Sagrado Coração de Jesus.


Concluindo, remeto os leitores às Encíclicas Papais citadas na primeira seção desse texto a fim de saborearem melhor a doutrina católica relativa à essa devoção especialíssima na vida da Igreja: para que conheçam melhor o seu conteúdo, sua fundamentação teológica, sua especial utilidade nesses tempos pelos quais passa a Igreja, e para a edificação das almas dos fiéis a nível pessoal, familiar, social e eclesial, e os estimulo a pedirem ao Sagrado Coração de Jesus, nesse dia, o dom de um amor ardente, terno, santo, constante e desinteressado, pelo qual venham a se entregar a Ele e reparar os próprios pecados e oferecerem-se como vítimas de expiação pelos pecados do mundo inteiro.

V. Jesus, manso e humilde de coração.

R. Fazei o nosso coração semelhante ao Vosso.

[1] Cf. Haurietis Aquas, n.10 [2] Cf. Ibidem, n.46 [3] Cf. Ibidem, n.47 [4] Cf. Ibidem, n.50 [5] Cf. Ibidem, n.53 [6] Cf. Ibidem, n.52 [7] Cf. Ibidem, nn.6-7 [8] Cf. Ibidem, n.62 [9] Cf. Ibidem, n.60 [10] Cf. Jo 3, 16 [11] Cf. Jo 1, 14 [12] Cf. Lumen Fidei, n.26; Catecismo da Igreja Católica, n.2563 [13] Cf. Haurietis Aquas, n.43 [14] Cf. Lc 12, 49 [15] Cf. Summa theol., II-II, q.82, a.1


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Pastores Dabo Vobis
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