A presença de Deus no inconsciente



Viktor Emil Frankl (1905 – 1997) é um nome que paulatinamente cresce nos meios da psicologia. Ele foi um psiquiatra judeu nascido em Viena, na Áustria. Formou-se em Medicina, especializou-se em Psiquiatria e doutorou-se em Filosofia com uma tese sobre a presença de Deus no inconsciente humano. Justamente neste ponto, Frankl vai contra as teorias psicológicas reinantes e abre novos horizontes para a psicologia e para a psiquiatria: assume que o homem não é um mero composto de matéria biológica e de uma psique, mas que também possui uma dimensão espiritual. Por esse motivo, deve ser cada vez mais conhecido e estudado.


Desde jovem, tinha indagações sobre o homem e sobre seu destino. Na escola, ouviu um dia de um professor que o homem não passava de um processo de combustão e oxidação. Isso o incomodou de tal maneira ao ponto de se perguntar “se o homem é só isso, qual o sentido da minha vida?”. Com o passar dos anos e após a entrada na universidade, percebe entre as correntes filosóficas e psicológicas uma visão niilista, materialista e reducionista do homem. Isso o incomoda em tal grau que decide elaborar a sua Análise Existencial[1].


Porém, teve seu trabalho interrompido durante a Segunda Guerra Mundial. Infelizmente, como a maioria dos judeus, foi levado para os campos de concentração nazista e permaneceu lá por quatro anos (1942 – 1945). Desde seu primeiro dia em Auschwitz[2], sua vida esteve por um fio. Já na chegada, havia uma “primeira decisão sobre ser ou não ser”[3]: ao chegar, a maioria era levada para os fornos ou para as câmaras de gás.


Neste primeiro dia, todos os seus pertences lhe foram tirados, incluído suas roupas. Estava deixado, literalmente, a sua existência nua e crua. Apesar de ter sobrevivido a essa primeira triagem, teve que enfrentar durante anos diversos obstáculos como frio, fome, doenças[4], humilhações, dentre outras situações. Diante dessa situação, muitos preferiam “ir para o fio”[5], ou seja, se suicidarem tocando os arames farpados de alta tensão. Por isso, os presos esperavam ir direto para a câmara de gás: queriam se poupar de cometer suicídios.


Por esses e outros casos, Auschwitz foi um lugar de muito espanto, medo e reflexão. Dizia Frankl que nem mesmo “o sonho mais terrível poderia ser tão ruim como a realidade que nos cercava ali no campo”[6]. Isso tudo aconteceu justamente porque havia uma ideia reducionista em voga na Alemanha de Hitler: a teoria do espaço vital. Dizia ela que somente os de raça pura, ariana, poderiam viver em sua nação e que eles tinham uma missão natural de dominar os outros povos, por serem superiores. Foi essa crença infundada que gerou todas estas atrocidades durante a Segunda Grande Guerra.


Para contrapor tudo isso e tentar revalorizar o homem, Viktor Frankl remonta a sua Análise Existencial e a desenvolve. Sua teoria ganha um novo nome: chama-se Logoterapia. Isso acontece eminentemente porque baseia-se na busca de um sentido para a vida. A vida deve ter uma razão (logos): não estamos jogados ao acaso. Este sentido não deve ser produzido, mas sim encontrado. Além disso, ele varia de pessoa para pessoa, de situação para situação. Tendo isso em mente, ele compara a vida com um jogo de xadrez. Há um suprassentido na vida (ganhar o jogo), mas em cada situação temos sentidos diferentes para serem descobertos (as movimentações no xadrez). A cada mudança de situação (jogada do adversário), depara-se com uma circunstância nova a ser vivida.


Através dessa busca de sentido e do empenho por realizar esse objetivo, conseguiu convencer muitos companheiros de não desistirem da vida dentro de Auschwitz. Fazia com que muitos aguentassem mais dias que o esperado justamente porque ansiavam em ver a esposa, cuidar dos filhos, ajudar os irmãos ou até mesmo publicar as reflexões da Análise Existencial, como foi o objetivo de Frankl. Naquele momento, teve um grande papel de herói em meio aos seus irmãos de campo. Além disso, essa procura de um sentido tem muito a ajudar a sociedade atual, já que muitos sofrem de males psicológicos provindos de uma aparente ausência de motivos para viver


Para que a logoterapia chegasse a esse ponto, Viktor teve de elaborar uma ideia de homem que correspondesse ao máximo com o que ele realmente é. Sua concepção antropológica afirma essencialmente que o homem é um ser espiritual-pessoal, capaz de autodeterminar-se e de orientar-se para o significado e os valores, além de ser auto transcendente[7]. A partir destes quatro pontos, ele possibilita a busca de sentido na vida humana.


O ponto a ser destacado nesse texto é o que mais difere o fundador da Logoterapia dos outros psicólogos. Com base em Nicolai Hartmann e Max Scheler, desenvolve a ontologia dimensional. Basicamente, afirma que o homem é um ser biopsicoespiritual, ou seja, um ser que possui as dimensões biológica, psicológica e espiritual. Essa Imago Hominis frankliana permite que se entenda o homem como ele é, ou seja, uma pessoa com diferentes níveis de dimensões, mas com unidade interior (Unitas Multiplex).


De todas elas, a parte mais interior é a espiritual e, por isso, intocável e exclusivamente humana. Dessa forma, é a seção mais importante do homem. Consequentemente, sua dignidade está fincada nela. Com esse argumento, Frankl consegue ir contra problemas atuais como a eugenia, já que mesmo na pior das doenças e necessidades, a pessoa continua tendo a mesma dignidade de quando era saudável. Sua dimensão mais interna não é tocada; permanece a mesma, independentemente da situação física ou psicológica da pessoa.


Tendo como pressuposto a ontologia dimensional, Frankl vai mais a fundo e diz que dentro de cada dimensão há o consciente, pré-consciente e inconsciente. Cada dimensão perpassa cada nível de consciência. Entretanto, este inconsciente frankliano não vem unicamente de elementos instintivos, mas também espirituais. Com isso, há uma expansão de todo o inconsciente, diferenciando-se em instintividade inconsciente e espiritualidade inconsciente[8].


A espiritual, por conseguinte, também tem os três níveis, sendo a parte do inconsciente a mais profunda. Na consciência é onde se ouve a voz de Deus, e precisamente no inconsciente espiritual que o homem tem a capacidade de se conectar com Deus[9]. Nele que está o desejo do homem pelo transcendente e pela eternidade. Com isso, somente o homem, dentre todas as espécies, pode almejar o eterno, justamente porque somente ele possui esta dimensão espiritual.


A partir disso, vê-se que o homem precisa enxergar-se como um ser espiritual para que consiga encontrar algum sentido em sua vida. Como visto, o sentido da vida pode variar de pessoa para pessoa, mas deve-se ter um sentido último voltado para o objeto de desejo mais excelente: a própria divindade. A vida do homem somente terá pleno sentido quando repousar a alma em seu criador.


Ao abrir as portas para o mundo espiritual e transcendente, Viktor Frankl estabelece sua importância na contemporaneidade. Sem ele, a psicologia não teria um ramo que considerasse o que o homem possui de mais excelente, que é o âmbito espiritual. Por isso, faz-se necessário aos psicólogos católicos conhecerem cada vez mais a obra deste grande homem, que viveu na pele a sua teoria. Felizmente, no Brasil e no mundo, Frankl torna-se a cada dia mais conhecido. Em um mundo onde as pessoas não encontram mais sentido, a logoterapia se torna mais necessária como instrumento para trabalhar a nossa humanidade.


Autor:


[1] INSTITUT, V. F., 2021. Sobre a Biografia. [Online] Disponível em: https://www.viktorfrankl.org/biography.html [2] Maior e mais famoso campo de concentração nazista [3] FRANKL, Viktor E. A presença ignorada de Deus. 20 ed. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes,2019, p.26 [4] Havia epidemia de Tifo exantemático nos campos de concentração [5] FRANKL, Viktor E. A presença ignorada de Deus. 20 ed. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 2019, p.33 [6] Ibid., p. 45 [7] PETER, R.,. Viktor Frankl: A antropologia como terapia. São Paulo: Paulus, 1999, p.12 [8] FRANKL, Viktor E. A presença ignorada de Deus. 20 ed. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 2019, p.19 [9] PETER, R.. Viktor Frankl: A antropologia como terapia. São Paulo: Paulus, 1999, p.91