A vida intelectual e a busca pela felicidade

Os seres humanos buscam a felicidade. “A felicidade é, portanto, algo absoluto e autossuficiente, sendo também a finalidade da ação”[1]. Todos trabalham buscando a felicidade. O crescimento social tem como meta a alegria. É uma constante procura pela felicidade. Mas há algo no coração humano que não se aquieta. Mesmo após conseguir tudo aquilo que deseja, continua desejando. É uma espécie de movimento “sem fim”. Às vezes parece infinito. Mas o mundo é “limitado”. “Limitada” é a inteligência humana. E finita é a sua vontade, que não pode ser nem ter tudo aquilo que deseja. Porém, o ser humano continua querendo algo que não consegue possuir. Talvez o que o ser humano quer, aquilo que pode aquietar sua vontade, não seja material, mas sim espiritual.



Há algo no humano que é divino. Exatamente em virtude disso nada nesse mundo parece parar o desejo, a vontade, a inteligência. Uma simples percepção da história revela isso. Já se vão milhares de anos e o ser humano continua com problemas semelhantes. Guerras, brigas, discórdias, medos, doenças, mortes, tudo isso consegue perpassar a história. Essas coisas são acentuadas, sobretudo, quando o humano para de olhar para o divino. Porque no divino há algo humano; e a humanidade revela algo divino. De tal modo que, buscando algo acima de si, o humano consegue ver o florescer do mundo espiritual. “É como está escrito: Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou...”[2].


Mas quando se esquece do mundo espiritual, o divino parece desaparecer. Hoje são aproximadamente 322 milhões de pessoas com depressão. Outras 800 mil aproximadamente tiram a própria vida por ano. Muitos indivíduos sofrem com transtornos psicológicos. Isso parece o retrato de uma sociedade incapaz de discernir entre a verdade e o erro; o amor e a emoção; o bem e o mal. Essa “infantilidade intelectual” tem consequências gravíssimas para toda humanidade. “Donde provêm as ideias que temos? São elas reprodução de objetos externos a nós, ou antes, criações de nossa mente? A este problema, como ao anterior podemos dar diversas soluções”[3]. Se não existe uma verdade acessível a todos os seres humanos, todas as “verdades” são possíveis. E se todas as “verdades” são possíveis, Hitler estaria “certo”.


Esse é o resultado de uma sociedade que tenta criar a verdade. Isso é perigoso. É uma questão meramente intelectual e humana. Não envolve sequer crenças religiosas. A verdade independe do sujeito. Ela lhe é anterior. O intelecto humano entra em contato com a realidade sensível conhecendo-a. Nessa relação entre sujeito e objeto surge um conhecimento. Esse conhecimento é resultado do objeto conhecido e do sujeito que o conhece. Assim, chega-se a um conhecimento verdadeiro, factual, universal e acessível a todos os indivíduos pensantes. Por isso, a verdade é algo aceito pelo indivíduo que a detecta. Assim, alguém que conhece uma casa diz: “tem teto; piso; janelas; portas”. Mas se esse mesmo alguém diz: “Vi uma casa batendo asas e voando até o Cristo Redentor”, certamente a pessoa que o escutava desconfiaria da veracidade do fato. Qual então seria o critério para se chegar à verdade? Certamente o objeto, ou seja, a casa, mas também o indivíduo, pois certamente ele sofre de algum distúrbio intelectual.


Em virtude disso, é necessária uma vida intelectual para se viver as realidades espirituais. A felicidade depende disso, pois os seres humanos se alegram com a verdade e se regozijam no bem. “Há, pois em nossa alma, cogitação, isto é, o pensamento que discorre e indaga”[4]. Ninguém gosta de ser enganado com uma mentira. Tampouco se ouve falar de pessoas que adoram o mal. Pelo contrário, uma sociedade precisa ter a verdade como critério de suas relações e o bem como meta de todos os seus comportamentos. Se assim não fosse, as pessoas seriam incapazes de confiar umas nas outras. O “outro” seria sempre alguém que se aproxima do “eu”, procurando fazer-lhe o mal. Uma humanidade assim é doente e fadada ao fracasso. Mas um mundo onde reina a verdade e o amor é um lugar verdadeiramente bom. Quando os seres conseguem viver a verdade e o bem numa sociedade, tanto mais se aproximam do ideal. Contudo, isso só é possível quando, intelectualmente falando, as pessoas conseguem aceitar a verdade e aderir ao bem, ainda que isso lhes cause alguma espécie de dano.


É vivendo a verdade e o bem que se torna possível perceber que há uma Verdade e um Bem acima da própria inteligência. Assim se percebe a brevidade da vida e a transitoriedade das realidades físicas. A alma humana consegue viver uma felicidade não condicionada ao que se pode ter, nem ao status, mas uma felicidade provinda da certeza de ser espiritual, de estar nesse mundo como viajante. A pessoa consegue acalmar o coração mesmo diante das incertezas. É Deus a razão de sua existência. Não consegue desejar outra coisa, senão estar com Deus, mesmo em meio aos diversos trabalhos da vida. Ela usa dos bens do mundo como meio para se chegar ao destino. Percebe que Deus é a causa de sua inteligência e que por meio dela se relaciona com Ele. Porque conhecer é se relacionar. A alma é invadida por um desejo de Deus que a move para Ele. O sujeito percebe que é amado por Ele e sente necessidade de comunicá-Lo aos outros. Pois o amor é difusivo. É assim que a intelectualidade ajuda a perceber o quanto há de divino no humano.


Dessa maneira que a paz vencerá a guerra. Reinará na sociedade a verdade capaz de colocar em relação os diferentes. É assim que o “outro” é percebido como “outro eu”, de tal maneira, que o “nós” seja resultado do encontro entre o “eu” e o “tu”. O mundo é transformado segundo a conduta das pessoas. A mentira é vista como tal. O bem é buscado por todos. A felicidade é o fim de todos aqueles que estão no mundo. Todos buscam o bem uns dos outros. O sofrimento do “outro” é um sofrimento para o “eu”. Todos se amam e tem ao “outro” com estima. Talvez isso pareça utópico, mas o reconhecimento da verdade e do bem enquanto tais, aproxima o céu da terra e a terra do céu. Assim, Deus habita nos seres humanos e esses se tornam morada de Deus. O mundo se torna representação da Verdade e Bondade de Deus. “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, a saber, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito”[5].


É aceitando a Verdade e aderindo ao Bem que se aquieta o desejo da alma humana. Para isso, contudo, é necessária a liberdade. O ser humano precisa querer conhecer a Verdade e o Bem. Sem essa escolha, é impossível o ser humano se libertar das ilusões imaginárias. Quando há uma vida intelectual, os sujeitos reconhecem a verdade e o bem que existe na lei moral. Percebem em sua consciência que há uma “ordem”: fazer o bem e evitar o mal. Detectam ainda que o arrependimento, o remorso, a contrição revela que há um modo correto de agir e que, quando esse é violado, “Alguém” fala na sua própria consciência. As paixões se tornam combustível para a busca do bem quando guiadas pela razão. A alma empreende um progresso espiritual que caminha juntamente com a evolução intelectual. Esse é o encontro entre fé e razão. “Fizeste-nos para Ti e inquieto está nosso coração, enquanto não repousa em Ti”[6].

[1] ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. 4ª ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991, p.15

[2] 1Cor 2, 9

[3] MONDIN, Batista. Curso de Filosofia. 3ª ed. São Paulo: Paulus, 2006, v. 1, p.23

[4] TOMÁS DE AQUINO, Verdade e Conhecimento. 2ª ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2013, p.293

[5] Rm 12, 2

[6] AGOSTINHO, Confissões, I, 1, 1


Autor:


Diácono Kennedy Ferreira

(Diocese de Formosa - GO)

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