Afinal, quem foram os Padres da Igreja?



Como católico, muito provavelmente você já deve ter escutado, lido, ou se deparado em alguma ocasião – ainda que isso tenha lhe passado desapercebido – com a expressão Padres da Igreja. Pode ser, na verdade, que alguns que leem esse texto tenham ao menos uma noção de quem foram esses homens na história da Igreja; todavia, outros, devido a uma menor familiaridade com a teologia católica, possivelmente se veem um pouco perdidos ao se deparar com essa expressão. É especialmente para esse grupo de pessoas – sem excluir os demais – que esse texto se destina, no desejo, tanto de que possamos delimitar quem foram os Padres da Igreja, como de explicitar sua fundamental importância para a fé e a Tradição católica, e nossa admiração por estes veneráveis discípulos do Verbo Encarnado e amantes da Igreja Católica, a verdadeira e única fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo.


Ao longo dos primeiros séculos de apostolado da Igreja, o termo Pai/Padre sofreu algumas alterações, de modo a englobar de forma cada vez mais precisa o que esta nomenclatura poderia oferecer espiritualmente aos fiéis. No princípio, referia-se somente aos Apóstolos e Bispos, pois estes geravam novas vidas sobrenaturais no sacramento do batismo; porém, por volta do século V, a presente terminologia começa a se dirigir também aos sacerdotes e diáconos, como reconhecimento do importante papel que estes desempenhavam nas comunidades cristãs primitivas[1].


Sem muito nos delongarmos em divagações históricas, importa a nós a compreensão de que a historiografia e a teologia católica definiram os Padres da Igreja como aqueles importantes teólogos e autores cristãos dos primeiros séculos de atividade apostólica na Igreja, e que atendam necessariamente aos seguintes quatro critérios (os quais me detenho de modo particular nas próximas linhas): doutrina ortodoxa, santidade de vida, aprovação eclesiástica, e antiguidade[2].


  1. Doctrina Orthodoxa: o primeiro critério a ser atendido é a necessidade de que os escritos daquele determinado autor manifestem uma teologia que esteja de fato em comunhão com o ensinamento da Santa Igreja Romana, ainda que isso, nesse determinado momento da história, não significasse uma isenção absoluta de equívocos em elementos de menor importância para os principais artigos de fé ou aqueles ainda não definidos, uma vez que a teologia cristã estava dando os seus primeiros passos dentro de um reto e orgânico desenvolvimento[3].

  2. Sanctitas Vitae: uma vez que o ordenamento dos processos de beatificação e canonização só seriam desenvolvidos um bom tempo depois, a santidade de vida desses homens era comprovada pela sua vida exemplar em meio aos seus e pelo reconhecimento e veneração dos fiéis em relação ao modelo de vida que levaram[4].

  3. Approbatio Ecclesiae: na medida em que é o magistério quem tem o dever de guardar e transmitir o depósito sagrado, é também ele o responsável por reconhecer a quem de fato se aplica o título de Padre da Igreja, tomando por base os demais critérios[5].

  4. Antiquitas: o último critério fundamental a ser atendido para que a Igreja destine a alguém o título de Padre da Igreja é o período em que se viveu. A antiguidade aqui exigida não necessariamente corresponde àquela própria da cronologia histórica, que determina o fim desse período com a queda do Império Romano, em 476 d.C.. O título de ‘último Padre ocidental’, que leva Santo Isidoro de Sevilha (+ 676), e ‘último Padre oriental’, dado a São João Damasceno (+750), mostram que o período aqui em consideração é aquele da Antiguidade Tardia, que se estende até o fim do século VIII[6].

Assim, para exemplificar alguns que, tendo atendido aos quatro critérios acima citados, receberam o título de Padres da Igreja, podemos nos lembrar no ocidente de São Jerônimo, Santo Ambrósio, Santo Agostinho e São Gregório Magno, e no oriente de Santo Atanásio, São João Crisóstomo, São Basílio Magno e São Gregório de Nazianzo.


Uma vez explicitado quem são de fato esses veneráveis teólogos do período patrístico, podemos agora nos deter um pouco sobre o porquê decidiu a Igreja conceder-lhes tamanha importância, de modo a serem citados com impressionante frequência nos documentos magisteriais, e colocados em posição de destaque em vias de solução para tantas questões teológicas.


Para falarmos da importância central dos Padres da Igreja na teologia católica, devemos ter como ponto de partida o último critério estabelecido como fundamental para a presente categoria: a antiguidade. Aqui não se trata de um mero saudosismo, ou de afirmar que algo pode ser dito melhor na medida em que é mais antigo. Porém, a antiguidade, nesse contexto, confere a esses homens um grande peso de autoridade, uma vez que muitos deles foram discípulos dos próprios apóstolos, ou foram protagonistas no árduo dever de explicitar os artigos de fé deixados por Nosso Senhor aos apóstolos, além da tarefa de interpretar as Sagradas Escrituras, sendo, portanto, os grandes bastiões da Tradição, a qual puderam presenciar em vida os primeiros passos[7].


Alguém poderia objetar tamanha autoridade, uma vez que o próprio magistério da Igreja exalta, na verdade, Santo Tomás de Aquino – um escolástico do século XIII – como o Doctor Communis Ecclesiae, tal qual recomendou o Romano Pontífice Pio XI, em sua encíclica Studiorum Ducem. Ainda no início do seu processo de canonização, em 1318, Santo Tomás foi objeto dessas palavras não pouco engrandecedoras de Sua Santidade, o Papa João XXII: “[Tomás] mais iluminou a Igreja do que todos os outros doutores; um homem pode lucrar mais em um ano com seus livros do que [estudar] os ensinamentos dos outros por toda a vida”[8]. Ademais, muitos outros Papas, em documentos eclesiais, destacaram Santo Tomás de Aquino como nossa maior referência teológica.


Tudo o que acima se diz é verdadeiro, e damos tanto consentimento ao magistério quanto possível. Porém, não se trata de rebaixar os Padres da Igreja; essa posição privilegiada que ocupa Santo Tomás eleva ainda mais o lugar daqueles teólogos na história da Igreja e no desenvolvimento orgânico da doutrina católica, uma vez que o fundamento da teologia tomista, não poderia ser outro senão os escritos dos Padres da Igreja.


Uma constatação simples de que Tomás se amparou antes de tudo na doutrina desses nossos “Pais na fé”, é o fato de que em sua obra magna – A Summa Theologiae – o Doutor Comum cita os Padres da Igreja centenas de vezes. Não satisfeito em apenas citá-los, Santo Tomás ainda quis deixar para a posteridade um grande compilado dos comentários dos Padres da Igreja sobre os quatro Evangelhos, na obra intitulada Catena Aurea.


Além da vasta obra e dos pilares da teologia deixados pelos Padres, o testemunho de vida de cada um desses homens deve servir para nós – católicos do século XXI – como grande exemplo a ser seguido. Muitos desses homens viveram em períodos de crise na Igreja, onde pululavam as mais diversas heresias; ademais, quando a hostilidade pagã também não pretendia dar descanso a expansão cristã, muitos mártires foram deixados pelo caminho.


Alguns desses fatores são fortemente compartilhados em nossos tempos, e por isso o amor à Igreja, o combate às heresias, a valorização da ortodoxia na doutrina, a coragem em dar a vida pela Verdade, a devoção à Eucaristia e à Virgem Maria – frutos daquilo que Nosso Senhor nos deixou no Evangelho – devem ser elementos que também nós devemos abraçar com todas as nossas forças, de modo que, com São Paulo e com os Padres da Igreja, possamos, ao fim de nossas vidas, exultar ao dizer “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé”[9].

[1] Cf. DROBNER, Hubertus. Manual de Patrologia. Ed. Vozes, 2003, p. 11-12. [2] Cf. QUASTEN, Johannes. Patrología I. Ed. BAC, 1978, p. 13. [3] Cf. DROBNER, Hubertus. Manual de Patrologia. Ed. Vozes, 2003, p. 12. [4] Cf. Ibidem. [5] Cf. Ibidem. [6] Cf. Ibidem. [7] Cf. QUASTEN, Johannes. Patrología I. Ed. BAC, 1978, p. 13. [8] D. Prümmer, Fontes vitae S. Thomae Aquinatis: Notis historicis et criticis illustrati (Toulouse: Biblioplam, 1912) p. 148-149. [9] 2Tm 4,7

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