Bíblia: um olhar imparcial acerca dos registros históricos

A aplicação do termo imparcialidade no contexto das ciências humanas, como História, Política, Sociologia, Filosofia e Direito, costuma causar grandes dificuldades de compreensão, sobretudo pelo fato de ele remeter a uma neutralidade humana diante de fatos apresentados, o que nem sempre é possível. Assim, entende-se que a imparcialidade é sempre um desafio e uma armadilha.



O jurista, historiador e jesuíta Michel de Certeau, a quem o Papa Francisco definiu como "o maior teólogo para os dias atuais", chama a imparcialidade de o “lugar” do historiador, não como referência geográfica, mas institucional. Em outras palavras, o “lugar”significa a influência que o historiador adquiriu no seu processo formativo. Assim, por mais que sejam analisadas as mesmas fontes, as interpretações dos historiadores dependem de sua vinculação institucional, ou seja, de sua formação acadêmica, suas referências culturais, de seu posicionamento ideológico, entre outros fatores. Portanto, separar o historiador e pesquisador do homem – com realidade própria e experiências adquiridas – é o mesmo que desumanizá-lo.


Contudo, vale ressaltar que nas ciências humanas, essa falta de neutralidade ou a conduta imparcial do pesquisador não significa que ele possa proceder sua pesquisa agindo de má fé. A imparcialidade das ciências sociais não é brecha para a desonestidade intelectual ou para a irresponsabilidade científica.Infelizmente, alguns pesquisadores acabam abusando dessa parcialidade a tal ponto que sua pesquisa carece de qualquer credibilidade. Aqui, essa neutralidade não tenta favorecer determinado grupo ou pessoa, mas ela é mero reconhecimento do limite humano perante a realidade. O ser humano, a cultura e a sociedade não são imparciais e todas elas derivam de um contexto único e irrepetível.

Desse modo, Certeau fala sobre a imparcialidade como uma grande dificuldade de interpretação dos fatos históricos devido ao “lugar”, ou seja, devido ao recorte temporal, espacial, cultural e social em que se vive. Por isso que se pode afirmar que não há neutralidade para as ciências humanas nem para o historiador. O importante, nesse caso, não é a objetividade da pesquisa, mas o rigor metodológico, o aprofundamento e os resultados da pesquisa em contato com as fontes.

É muito comum escutar que o objetivo da História é “entender o passado, para corrigir o presente e melhorar o futuro”; porém, esse pensamento é meramente ideal. Seu objetivo, contudo, está em perceber o processo no qual os homens atravessaram os anos até chegar no exercício atual de suas vidas. Para isso, é necessário investigar os diversos panoramas de uma época com os olhos daquela mesma época, evitando uma outra armadilha da História, o anacronismo (erro cronológico quando um fato não está de acordo com a sua época).


Como diria o poeta inglês, John Donne, ao afirmar que “nenhum homem é uma ilha isolada”, assim também nenhuma pessoa é alheia ao contexto da realidade em que vive. A imparcialidade, entendida como ausência de influência, é insustentável e fictícia. Ausência de imparcialidade também não significa a parcialidade voluntária e fraudulenta. Qualquer tentativa de equidade nas ciências humanas já é uma maneira de privilegiar qualquer uma das partes. Nesse sentido, a imparcialidade recai sobre o “lugar” do historiador/pesquisador e não sobre as fontes e aos documentos.


Deve-se ressaltar a íntima relação entre a escrita e a História, pois as escritas documentais surgem como fonte de análise para a História. Os documentos são fontes seguras para estabelecer uma análise histórica e uma teoria cronologicamente plausível. A definição clássica de documento, segundo os manuais de Arquivologia, é qualquer informação registrada em um suporte. A partir dessa básica definição de documento (informação + suporte), entende-se que o termo mais difícil e penoso de ser compreendido é a informação. Ela não é somente ideia ou conhecimento, mas possui um significado mais complexo. A palavra “informação” deriva do latim informare e tem seu significado como "dar forma", "modelar", "fabricar". A partir da Idade Média, houve uma evolução semântica onde a informação passou a ser entendida como "noticiar", "avisar" e "instruir".


Etimologicamente, a informação é tanto objetiva como subjetiva, porque se apoia em pesquisa de documentos (objetividade) e em interpretação das pesquisas (subjetividade). Assim, dar uma informação para alguém é, de certa maneira, "modelar" o informado, pois o outro sempre recebe a informação de modo ativo e interpretativo. Quando ela é entendida e processada, atua sobre a pessoa, podendo formar ou deformar. Por esse motivo, a informação tem grande importância documental, pois ela tem condições de alterar a percepção de uma determinada realidade histórica.


O outro termo usado para definir documento é o suporte. Este é entendido como o meio no qual a informação é registrada. Do mesmo modo que cada civilização formou o seu próprio sistema de escrita, os suportes foram desenvolvidos a partir dos mais diversos materiais possíveis e de acordo a disponibilidade dessa matéria-prima em sua região. Estes materiais, nos quais eram registradas as informações, podiam ser rígidos (osso, argila, metal, madeira, barro, bambu) ou flexíveis (couro, tecido, entrecasca de árvores, papiro).

Diferente do que se pensa, o documento não é um procedimento de registrar a memória cultural, artística, política, social e religiosa de uma sociedade. Porém, a principal finalidade desses registros é uma tentativa de responder a um problema atual, em que o autor consegue expressar isso por meio de registros. Assim, os documentos não se tornam um registro histórico de imediato, mas eles são criados com o objetivo de comunicar uma informação atual para sua própria época e localidade. Essa informação registrada em determinado suporte gera o documento, o qual tem diversas finalidades. Essa finalidade volta-se para o seu valor documental.


Na Arquivologia, essa finalidade está dividida em dois valores: o primário e o secundário. O valor primário ou imediato é inerente a criação do documento. Segundo Rousseau e Couture (1998), “o valor primário de um documento está baseado nas utilizações imediatas e administrativas que lhe deram os seus criadores, por outras palavras, nas razões para as quais o documento foi criado”.Um bom exemplo disso é o primeiro documento escrito da História. Esse registro foi realizado em tábuas de argila e seu possível autor chama-se Kushim. O primeiro registro escrito gerou o primeiro documento, na qual é conhecida como “As Tábuas de Kushim”, na cidade de Uruk (antiga cidade da Suméria), entre os anos 3400 a 3300 a.C. O curioso é o conteúdo desses escritos, pois não são narrativas epopeicas ou lendas míticas, mas uma simples contagem de grãos de cevada. Sobre isso, afirma Harari: “é revelador que o primeiro nome registrado na história pertença a um contador, e não a um profeta, poeta ou grande conquistador”.


Tábuas de Kushim

Esse exemplo ajuda muito a entender sobre os documentos. O provável autor escreveu a quantidade de grãos de cevada na argila não para fazer memória de como era sua cultura ou a dieta utilizada em suas refeições, ou ainda, para demonstrar que sabiam numerar grandes quantidades, mas para resolver um problema simples de gestão de sua época. Diante da possível fome ou da escassez de alimento, fez-se necessário contar os grãos de cevada.Provavelmente, o que muitos historiadores apontam é que essa contagem de grãos de cevada foi com o intuito de gerenciar alguma aldeia. Gerenciar é, antes de tudo, contar. Aquele que quantifica os seus suprimentos, alimentos e afazeres revela-se um bom gerenciador. Assim, os documentos são registros da vida cotidiana de seus escritores, como a própria atividade de contar. A contagem de grãos registrada por Kushim não continha um valor histórico em si, mas um valor administrativo e imediato daquele momento.Somente depois esse documento de valor primário tornou-se secundário.


Outro termo utilizado na Arquivologia é o gênero documental. Todas as vezes quando se refere aos diferentes suportes e maneiras de como uma informação foi registrada destaca-se o seu valor enquanto gênero. Os documentos históricos ajudam a identificar e construir momentos importantes da sociedade e eles estão dispostos em diversos gêneros, tais como: escritos, iconográficos, digitais, visuais, sonoros, audiovisuais entre outros. Os documentos históricos são registros do passado (e que perderam o seu valor primário), que auxiliam na assimilação da história de uma pessoa, de um estado, de uma nação.


O valor do documento tem seu caráter gradual, ou seja, o registro só adquire o valor secundário depois que passar pelo valor primário. Assim, o valor secundário tem a sua utilidade para fins diferentes daqueles para os quais foram originalmente produzidos. Por isso, é importante destacar que as fontes documentais básicas são aquelasque mais estiveram em contato próximo com o evento ou o fato ocorrido. A essa fonte dá-se o nome de fonte primária, por estarem acompanhadas do episódio em questão. Muitas vezes, os documentos de fonte primária são provenientes de uma organização competente que, de acordo com as atribuições de suas atividades, registra os documentos.


Manuscritos bíblicos

Os documentos antigos mais sagrados que existem são aqueles que compõem o cânon dos textos bíblicos. Tais documentos são manuscritos que em seu conjunto formam os livros. A palavra “Bíblia”, provém do grego biblos, e significa conjunto de livros. A Bíblia ou Sagrada Escritura é uma obra humana literária e por isso pode ser usada para inúmeras finalidades do campo científico, ou seja, a Sagrada Escritura não é somente um livro sagrado, mas uma obra literária. Ademais, não é também uma obra humana somente, mas de inspiração divina, e obra da Revelação a partir da fé e sem erros.


Na encíclica DIVINO AFFLANTE SPIRITU, o papa Pio XII destaca a contribuição que novas descobertas documentais têm realizado para o entendimento do contexto de uma determinada época e, consequentemente, para a compreensão da Sagrada Escritura:

“Aumentam o valor destas explorações os monumentos escritos por vezes encontrados, que ajudam muito a conhecer as línguas, a literatura, a história, os costumes, os cultos daqueles antiquíssimos povos. Nem é menor a importância da investigação e descoberta dos papiros, tão frequente em nossos dias, e que tanto tem contribuído para melhor conhecimento das letras e instituições públicas e particulares, especialmente do tempo de nosso divino Salvador.” (n.11)

Deus é o autor dos textos sagrados, e hagiógrafos são aqueles que escreveram tais textos por inspiração divina. Assim, Deus é a causa principal ou primeira, pois move-se por si mesmo, e o hagiógrafo é a causa instrumental. O escritor sagrado é cooperador na ação de efeito da causa primeira. Ao escrever um documento, o autor sagrado não é mero instrumento neutro ou imparcial, como se o homem fosse um instrumento inerte e estático, mas ele é vivo, racional e livre para registrar sua informação. Para compreender a Sagrada Escritura é necessário, também, estudar o autor e compreender o contexto em que ele viveu.


De acordo com o contexto de cada autor, surgem os gêneros literários da Sagrada Escritura. As motivações para formação do gênero literário são pautadas nas emoções e sentimentos dominantes dos hagiógrafos. Essas emoções dominantes (ira, júbilo, alegria, amargor, luto) serão externalizadas através de fórmulas estilísticas (simples, rebuscado, poético). Tudo isso para que as fórmulas estilísticas se transformem na melhor maneira que o autor encontrou para se expressar. Às emoções dominantes e fórmulas estilísticas deve-se adicionar o vocabulário típico da época. Tudo isso soma-se com o “Sitz im leben” (contexto vital). Este não é um saber teórico da vida do autor, mas a compreensão do remetente, o motivo do destinatário, o efeito que o autor queria causar, a instituição que o indivíduo participava, a condição social, histórica, geográfica, econômica e climática de sua época.  


Na Encíclica PROVIDENTISSIMUS DEUS, de Leão XIII, ao falar sobre os estudos bíblicos, o papa chama a atenção dos cientistas que acolhem com muita credibilidade os registros antigos e não bíblicos, porém desprezam a autoridade dos escritos bíblicos:

“Alguns agem assim também com hostilidade e sem saldo suficiente, como a confiança dos livros e documentos do passado seculares como se não poderia haver suspeita de erro com respeito a eles, apesar de negar, pelo menos, a mesma fé para livros das Escrituras antes da menor suspeita de erro e sem sequer parar para discuti-lo”. (n. 44b)

Portanto, a imparcialidade nos registros históricos deve ser vista, primeiramente, como um processo de construção histórica. A cadeia de informações que o historiador deve fazer tem por objetivo a elaboração de uma teoria que justifique os fatos decorridos e registrados. Para os autores dos manuscritos, esses fatos registrados são administrativos; para os pesquisadores,científicos e históricos.


Com exceção dos registros escritos da História (historiografia), entende-se que os documentos são criados primeiramente para responder a uma demanda de sua época. Somente em seguida, o documento de valor primário pode assumir o seu segundo valor, ou seja, o histórico. Caso este documento seja oportuno e revele uma faceta de um determinado contexto, ele passa a assumir o seu valor secundário. Assim, os registros históricos foram produzidos como tentativa de solucionar uma dificuldade em questão. Aquele que registra faz isso para suprir uma demanda pessoal, familiar ou social. Logo, nenhum registro nasce histórico, mas torna-se histórico por conta do valor documental que é dado pela historicidade.

O mesmo acontece com os documentos e manuscritos da Sagrada Escritura, em que os hagiógrafos escrevem, não de modo imparcial e neutro, mas registram seus escritos a partir da visão e influência de seu contexto para resolver uma demanda de sua época. Assim, a credibilidade dos registros antigos se sustenta na autoridade de quem inspira (Deus) e pela importância da autoridade moral de quem transmite (hagiógrafo).


[1]: COUTURE, Carol; ROUSSEAU, Jean-Yves. Os Fundamentos da Disciplina Arquivística. Lisboa: Dom Quixote, 1998.

[2]: HARARI, Yuval Noah. Sapiens: uma breve história da humanidade. Trad. Janaína Marcoantonio. Porto Alegre: L&PM, 2015. Autor:


Pastores Dabo Vobis
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