Metanoia: Uma conversa para seminaristas

A caminhada como seminarista é um mistério em si. Não tenho outra definição mais precisa do que mistério de amor e correspondência total, ou deveria ser. Quando ingressamos no processo de discernimento, subtende-se que já somos perfeitos e exemplares cristãos. Sabemos que não é assim. Muitos de vocês, como eu, somos frutos de uma primeira conversão radical, ou seja, não nascemos em uma família com tradições e vivência fortíssima dos sacramentos, dos Evangelhos, da Tradição, real conhecimento da Igreja e tudo que compõe a nossa fé católica; somos, muitas vezes, de famílias de “gente boa”, que não recebeu uma formação católica descente e concreta, por conseguinte, acaba em uma vida desregrada e com pouquíssimos valores coerentes para norteá-la.



Com essa carência de cristianismo na vida prática, vemos duas ramificações: uma é a total indiferença para com Deus e seus “seguidores”; como no meu caso. Com quatorze anos até acreditava em Deus, porém as suas ‘regras proibiam a minha total liberdade’ em fazer o que quiser da vida. O outo ponto é a total descrença em um ser divino (ateísmo); essa geralmente acompanhada de alguma forte decepção afetiva, como a perda de algum ente amado, desastres naturais, entre outros fatores mais intelectuais. Dessas duas mentalidades há vários casos de verdadeiras mudanças e, delas, belas vocações como o caso de São Francisco de Assis (de jovem devasso para grande amante da Pobreza) Santo Inácio de Loyola (de militar impiedoso para missionário abrasado), e assim por diante. A nossa primeira conversão, geralmente, se dá em algum movimento, escutando alguma palestra ou questionando sobre algo que a graça de Deus operou de forma tão misteriosamente forte que somos impelidos a mudar de vida. Ao invés do pecado, queremos Deus; trocamos os nossos afazeres por Cristo e todo o trabalho é para o Amado.


Nesse turbilhão de “primeiro amor”, como alguns gostam de dizer, “encontro com Cristo”, “Batismo no Espírito Santo”, “Amor apaixonado pelo Ressuscitado” entre outras diversas denominações para uma única experiência pessoal com o Deus Trino ― que ansiosamente nos esperava ― é nítido pensar em como a “nossa vida será um perpétuo louvor a Deus”. É justamente essa decisão de entregar a nossa vida por Cristo que faz com que uma loucura - ingressar no seminário - seja algo mais do que falta de opção, mas “uma determinada determinação”, como diria Santa Teresa de Ávila.[1]Pois é nítido quando vemos um cristão frouxo que não sabe como viver a sua fé de modo coerente, de forma radical como manda nosso Senhor. Nós somos assim: queremos ser santos. Mas não queremos tanto. Permitimo-nos certos prazeres e poucas renúncias. Somos fracos, disso todos sabem, entretanto o problema está quando essa fraqueza se transforma em um vício que não queremos lutar. E, de fato, falta uma decidida decisão.


Continuemos na frase dessa Doutora da Igreja, uma vez que ela percebe que a vocação a qual Deus nos impele deve ser correspondida com uma alma viva e determinada. Sim! Nosso Senhor que nos chama; portanto eu não escolho ser padre (como erradamente escutamos), mas eu respondo ao sacerdócio. É uma diferença gritante: na primeira vemos uma alma que parece que vai ao supermercado e, na prateleira, escolhe qualquer produto para sua satisfação pessoal; na outra vemos um convite, que precisa ser respondido com uma afirmação ou negação, ou seja, uma decisão. Entretanto, temos que deixar bem claro que uma decisão precisa ser decidida, parece até uma redundância, mas não. É-nos bastante nítido ver que, muitas vezes estamos no seminário e percebemos os pecados, erros que nossos irmãos cometem e isso nos revolta, nos faz mais críticos e, pode até ser uma indagação bem natural: “o que esse cara faz no seminário?” ou: “Manda ele de volta para uma catequese católica que ensine, pelo menos, a conquistar as virtudes”.


Pois bem, esses julgamentos servem perfeitamente para perceber quão orgulhoso estamos e, depois, lançá-los para nós, deixar que a minha consciência (tão rápida para julgar e condenar meu irmão) seja a advogada e diga-me o tamanho da volta necessária para retornar aos moldes daquela primeira conversão. Pois sabemos o quanto deixamos esse Primeiro Amor ser esmagado por uma pilha de livros de Ética, Metafísica, Hermenêutica, Direito Canônico e uma grade curricular misturada com afazeres pastorais... E vamos, pouco a pouco, nas palavras de Santa Teresa, “véu por véu, escondendo o gigantesco brilho do diamante que carregamos dentro da alma”, ou seja, matamos a chama do por que estou no seminário se não é para ser formado na fornalha do coração de Nosso Senhor para ser sacrifício aos homens.


Por isso que, o seminarista que não se converte, nos detalhes, nas pequenas coisas, nos vícios mais particulares e corriqueiros, será o mal fadado de um sacerdote que não consegue se santificar e mediocriza o povo a ele confiado. Isso é uma conversa séria! A Igreja não precisa de padres meia-boca; medíocres na oração, na preparação de cada palestra, planejamento de conversas, não. Temos que dar tudo.


Por fim, sempre ter os olhos fixos naquela que reconduz todo e qualquer pecador: a Virgem Maria. Nossa mãe, e Mãe da Igreja acompanha nosso processo de discernimento com muita atenção para que seus filhos prediletos, os sacerdotes, sejam gerados no seu ventre Santo com toda dedicação e amor, pois ela, como seu Filho, sabe mais que ninguém os estragos que um consagrado mal formado e impiedoso faz a um povo. Quantas lágrimas e soluços essa Piíssima Mãe recolhe de almas que imploram pela santificação do clero, pois, as chagas que muitos carregavam no tempo de seminário, não foram curadas e sanadas pelo amor do Amor e, em consequência, ferem o rebanho do Senhor. Irmãos, para concluir, deixemos ser formados e renovar os propósitos de viver na presença do Salvador, já que foi Ele quem nos chamou, Ele quem forjará em nós o coração do Bom Pastor.



[1]Santa Teresa de Ávila – Castelo Interior, Cap. XVIII


Autor:


Pastores Dabo Vobis
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