Carlo Acutis, 15 anos, amor a Jesus Cristo e nada mais



Mestre, que devo fazer para herdar a vida eterna?[1]. Ainda hoje, essa mesma pergunta feita a Jesus Cristo ressoa em todos os cantos do mundo; e acredito, piamente, que continuará repercutindo até o fim dos tempos, justamente por ser uma indagação que nasce da natureza do homem, do mais íntimo de seu coração. Desde a Grécia Antiga, o questionamento sobre a finalidade última do homem já estava nos diálogos filosóficos, assumindo, em Aristóteles, a perspectiva da ‘felicidade’, atividade desejada por si mesma[2].


Todos querem ser felizes! E louco seria quem se dispusesse a duvidar dessa afirmação. Em um mundo com valores enlouquecidos, ainda que a eternidade se transvista de uma realização de si que toca mais a terra do que o céu, a sede por um aperfeiçoamento que não tem fim permanece consumindo a humanidade. Para onde caminhar? Como e com quem? É a Deus que procuram! Os santos são aqueles que tiveram as escamas retiradas dos olhos – recuperando não somente a vista do corpo[3] –, e que sabiamente viveram sobre o fundamento da fé, entendendo que essa virtude não os afastava da vida, mas os ensinava a viver.


No último dia 10 de outubro, o confuso mundo moderno voltou a se confundir. O acontecimento? A Igreja elevava Carlo Acutis aos altares, permitindo a devoção pública. A confusão? O novo beato falecera aos 15 anos; um youtuber[4] que, aparentemente, nada fizera de significativo, como o monumental exemplo de São Francisco de Assis. Para finalizar a estrondosa incompreensão, o corpo do jovem, exposto para veneração, trajava tênis e um simples moletom. Pronto! As redes sociais entraram em estado de euforia: o que pudera fazer, em apenas 15 anos, para ser indicado pela Igreja como modelo de vida santa? Amou Jesus Cristo profundamente.


Carlo Acutis não se deixou seduzir pelos frágeis tesouros desejados pela juventude; como todos os santos, transcendeu o seu próprio tempo. Viveu para o transcendente sem deixar de colocar os seus pés, diariamente, na mesma terra em que eu e você pisamos. Sua vida é um grande modelo para os jovens, pois ensina que os valores do Evangelho são mais preciosos que os sucessos constantemente perseguidos por nossa geração. Bendito seja Deus, por dar razões, novamente, para os jovens se entusiasmarem com a possibilidade da santidade em meio às exigências cotidianas, além de denunciar radicalmente as incoerências de nossos tempos, a partir do sorriso de um jovem virtuoso e decidido por Jesus.


Nascido no dia 3 de maio de 1991 em Londres – batizado poucos dias depois –, Carlo foi o responsável pela conversão dos Acutis. O menino encontrou, nos ensinamentos cristãos de sua babá, o interesse na Igreja e nas coisas de Deus, e despertou na própria família a necessidade de preencher o vazio que a afeição ao mundo não era capaz. Cresceu na fé, cultivou uma vida sacramental e uma bela devoção à Virgem Maria; deixou rasto[5], foi o bom odor de Cristo[6] e despertou no coração dos que o cercavam o mais puro desejo pela eternidade. Com a sua sensibilidade às necessidades alheias, levou paz aos inquietos e mundanos corações de amigos, “conhecidos virtuais”, irmãos de rua, porteiros de colégios, professores, entre tantos outros.


Quanta incoerência com a percepção atual sobre a família: um filho que realiza e devolve o sentido de vida aos pais. A visão cristã sobre a “abertura à vida” tem gerado ódio e ataques ideológicos; é considerada retrógrada, ofensiva ao corpo da mulher e contrária à liberdade de decisão do casal. As famílias numerosas ou simplesmente aquelas que estão dispostas a realizar a vontade de Deus têm desaparecido. O egoísmo se transformou em uma virtude, chamada “direito de escolher”; os filhos deixaram de ser o dom eterno e mais precioso do casal para receberem os rótulos de “inferno”, “trabalho”, “gastos elevados” e “empecilhos para a vida dos adultos”. Não para a família Acutis! Carlo pode ser considerado uma espécie de “paraíso”, uma graça e um privilégio gozado pelos poucos que podem conviver com um santo dentro de casa.


Profusamente tecnológica e globalizada, a nossa geração tem encontrado muitas funcionalidades a partir dos avanços tecnológicos. Porém, inúmeros problemas revelam a necessidade prudencial de perceber as redes sociais como lobos em peles de cordeiro[7]: disseminação das fake news, injúrias e difamações, “furos de reportagem”, além da exposição de conteúdos sexuais e do comércio pornográfico. Um atentado à ordem moral!


Em contrapartida, muitos cristãos perceberam – sobretudo no uso da internet – que poderia ser uma excelente forma de evangelização. Desde 2003, aos 12 anos, Carlo Acutis já demonstrava estar atento à toda e qualquer oportunidade para anunciar o amor que o seduzira e dera sentido à sua vida. Iniciou um apostolado virtual, organizando um site informativo e extremamente apurado acerca dos milagres eucarísticos[8]. Não se deixou perverter pelas tentações e armadilhas presentes nas redes sociais. Um adolescente que ensina aos jovens a necessidade de discernimento, inclusive, no uso da aclamada tecnologia; uma sabedoria que não poderia ser apenas cultivada humanamente, mas aperfeiçoada pela graça divina.


Dono de um coração puro e indiviso, justamente por não exigir para si o senhorio. No aparente novo normal, há algumas décadas se inserem cada vez mais precocemente elementos sensuais na educação e na cultura difundida às crianças e adolescentes. O nosso novo beato é um sinal de pureza; um jovem que se preocupou mais com a beleza de sua alma, do que o exibicionismo do corpo. Novamente, Deus fala à juventude!


Sempre descritos como pessoas com muita energia e empolgação, os nossos jovens têm empregado toda a sua intensidade em passadas largas e ágeis rumo a lugar nenhum. Possuem o desejo ardente e explosivo pela eternidade; porém, pela ausência de direção, transformam-se em uma bomba-relógio, prontos para explodirem a si mesmos. Diferentemente, Carlo Acutis nunca teve dúvidas sobre o caminho a ser percorrido: “A Eucaristia é a minha autoestrada para o céu”[9]. Desde muito novo, Carlo já se sentia atraído pelo amor que brota da presença real de Cristo no Sacramento da Eucaristia. Recebe-a pela primeira vez aos 7 anos, e nunca mais se afasta da fonte da Vida, fazendo da vida sacramental a bússola que tanto desejava.


Para nós católicos, é claramente um sinal de esperança e de misericórdia divina, haja vista a desgovernada juventude ganha agora um exemplo próximo de vida, de alguém que não abriu mão de ser adolescente, aprendendo a bem escolher quais prazeres convinha gozar e quais se tratavam apenas de conquistas superficiais e passageiras. Tanto no sentido literal quanto no espiritual – fica à critério do leitor –, consumiu a própria vida por Deus e pela Igreja, sem precisar abandonar sua paixão pelos computadores, filmes e jogos eletrônicos ou deixar empoeirar os seus livros de informática.


Nascido em uma família rica, Carlo Acutis é um nítido exemplo de um jovem que poderia ter escolhido projetos de vida fundamentados na ganância financeira, no desejo pela vida longa e pela eterna juventude, a fim de realizar todos os planos pessoais, viagens, conquistas e fama. Nada disso! Sua extrema humildade revela um coração decidido pelos valores e pelas conquistas eternos. Pode até ser pintado como ‘bom menino’, um jovem humanitário que ajudava os pobres; porém, o que é altruísmo para o mundo, é sede de eternidade para os santos, marcada pela necessidade de encontrar-se com Cristo no outro e ser o anunciador de Cristo para o outro, a mais bela caridade, que nasce em um coração em chamas e todo entregue ao Espírito Santo.


“De que vale ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder ou arruinar-se a si próprio?”[10]. O apostolado realizado na internet não revela uma ambição pequena e preguiçosa; pelo contrário, a grandeza de alma de alguém que não desejava a conversão de ninguém menos que o mundo inteiro. Em vez de se arruinar no fracasso de alguém que não encontra mais sentido para lutar, consumia-se como vela. A conquista não era para si. Desejava levar almas para Deus, iluminando a busca dos homens pela eterna realização, assim como vivido por Santo Agostinho em sua conversão: “Interroguei o mar, os abismos e os seres vivos, e todos me responderam: ‘não somos o teu Deus, busca-o acima de nós’”[11].


“Ofereço todos os sofrimentos que deverei padecer ao Senhor pelo Papa e pela Igreja”[12]. Ciente da leucemia fulminante a que estava acometido, já no leito de morte, serenamente, entregue à Providência e ao amor materno de Nossa Senhora, diz a seus pais que oferecia à Igreja todos os sofrimentos que enfrentaria, para, assim como o Apóstolo dos gentios, completar em sua carne o que faltou à paixão de Cristo[13]. Assim, em vez de fundamentar a própria vida em toda e qualquer forma de prazer e na busca incessante de evitar todo e qualquer tipo de sofrimento, a vida de Carlo Acutis, novamente, é uma grande denúncia: ensina à juventude que viver plenamente os planos de Deus conferem um prazer mais nobre e elevado.


Por fim, quando novamente lhe perguntarem, caro leitor, o porquê de a Igreja beatificar um jovem “youtuber” de 15 anos – colocando-o como um modelo para a juventude –, responda de forma simples: seu testemunho nos ensina a viver! Assim, como afirmado por São Paulo – quando diz ter encontrado o segredo de viver, na alegria, nas tribulações, na abundância ou privações[14] –, Carlo Acutis aprendeu a viver. Um jovem comum, com desejos, anseios e inquietações. Descobriu que viver não é uma atitude passiva, mas escolher e lutar diariamente, “gastando a sua vida em uma causa que valha a pena”[15]; é ter os olhos voltados para a eternidade. Viveu pensando em morrer, não de forma pessimista e melancólica que beira ao suicídio, mas como alguém que se prepara alegremente para, no momento de sua morte, saber a quem pertenceu a sua alma e o seu coração, a Deus ou aos homens.


Peçamos a intercessão de Carlo Acutis por todos os jovens, e consagremos as nossas vidas à Nossa Senhora – por quem tinha uma terna e piedosa devoção –, em especial sob o título de Aparecida – Padroeira do Brasil, país contemplado pelo primeiro milagre reconhecido –, dia em que o nosso jovem beato nasceu para a Vida.


Beato Carlo Acutis, rogai por nós!

[1] Lc 18, 18 [2] ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Livro X, 6, 1176b1 ss [3] Cf. At 9, 18 [4] Este termo foi empregado não de forma a se referir a alguém que possui um canal no YouTube, mas a pessoas que são detentoras de conteúdo na internet, como sites ou blogs pessoais, e os “alimenta” de maneira informativa e interativa. [5] São Josemaria Escrivá. Caminho. n.1 [6] Cf. 2 Cor 2, 15 [7] Cf. Mt 7, 15-20 [8] http://www.miracolieucaristici.org/pr/Liste/list.html [9] OCCHETTA. Francesco. Carlo Acutis: a vida além do limite. p.21 [10] Lc 9, 25 [11] SANTO AGOSTINHO. Confissões. X, 6 [12] OCCHETTA. Francesco. Carlo Acutis: a vida além do limite. p.32 [13] Cf. Col 1, 24 [14] Cf. Fil. 4, 10-14 [15] Frase bastante conhecida no testemunho do falecido Bispo, Dom Henrique Soares

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