Chesterton e a alegria das coisas comuns


Ao ler o prefácio de alguma edição brasileira dos livros de Chesterton, frequentemente me deparo com certas descrições, nas quais aquele que escreve afirma como é difícil introduzir o pensamento de tão eminente figura. Outros continuamente reafirmam a sua agudeza de pensamento, seus distintos paradoxos, seu humor em todas as situações, sua gratidão diante da existência, etc. O fato é que, indiscutivelmente, sua vida e seus escritos são suficientemente eloquentes para falar desta nobre alma. No entanto, entre tantas e distintas qualidades, atrevo-me a sintetizá-las em sua extraordinária capacidade de se maravilhar diante das coisas comuns. O senso comum e a admiração são as molas propulsoras do coração deste gigante que, diante das coisas simples da vida, era a mais inocente das crianças.

"Quando se fala de senso comum, costuma-se entender como algo inferior, e quando falamos em senso comum entende-se como um senso inferior: o sentimento ou realidade vulgar. Mas não há nada disso. O senso comum significa o sentimento compartilhado por todos os artistas e heróis, pois senão, não seria comum. Platão tinha senso comum; Dante tinha senso comum. Chamamos de senso comum o atributo ao qual participam o santo e o pecador, o filósofo e o ignorante"[1]

De coração largo e sempre atento ao cotidiano, Chesterton teve uma visão de mundo extremamente ampla e conservadora. Nenhuma coisa era vulgar a ponto de ser desprezada, ao contrário, tudo era extraordinário pelo simples fato de ser, pois “dizer que uma coisa é bem-sucedida significa que esta coisa existe[2]. Ele, que é chamado o “apóstolo do senso-comum”, é distintamente reconhecido pela grande capacidade de admiração. Relegar à admiração diante das coisas comuns um aspecto secundário e subjetivo era, para Chesterton, negar à experiência humana o acesso às realidades mais profundas e mais importantes da vida. É inevitável que, contemplando a beleza da realidade, lembro-me imediatamente deste grandalhão, que do canivete que se encontra em meu bolso à Pietá de Michelangelo, me ensinou a admirar e considerar todas a coisas.

“Suponho que todos devem ter refletido sobre como são primitivas e poéticas as coisas que uma pessoa carrega nos bolsos; o canivete, por exemplo, modelo de todas as ferramentas humanas, o filhote da espada. Uma vez planejei escrever um livro de poemas sobre as coisas em meus bolsos. Mas descobri que seria muito longo, e a idade dos grandes épicos já passou”[3]

Esta nobreza de espírito se mostra ao ver beleza e sentido mesmo em situações antagônicas. Diante de um tempo chuvoso, em que grande parte das pessoas veem tédio e impossibilidades, Chesterton vê a grandeza da situação que se lhe apresenta. Ele estava na estação de Oxford, esperando um trem que o levasse a Londres, quando, de repente, decidiu caminhar uma parte do trajeto em vez de ir de trem. Ele escreve:

“Não sei se as outras pessoas são como eu nesse aspecto, mas para mim é sempre o mau tempo, o que pode ser chamado tempo inaproveitável, que lança na vida um sentido de ação e romance. Em dias de céu azul claro não quero que nada aconteça; o mundo está completo e belo, um objeto de contemplação”[4]

Só um pensador como Chesterton poderia tratar uma situação tremendamente trivial, com profundo ‘assombro’ diante da realidade que o circunda. As realidades mais profundas da vida são revestidas pelo seu espetacular senso comum, que tudo expressa por meio de uma história prática da vida cotidiana. Por exemplo, em uma de suas crônicas, “O Taxista Extraordinário”, ele relata como, após uma calorosa conversa com seus melhores amigos, de convicções filosóficas opostas, a discussão, como frequentemente ocorria, chegou à questão de se um homem pode ter certeza de alguma coisa. Entre divergências epistemológicas e ceticismo, Chesterton afirma com veemência, aquilo que todo camponês sabe por experiência: “Se nunca tive a experiência de algo como a certeza, não posso nem sequer dizer que uma coisa seja incerta[5].


O segredo dele não estava simplesmente na linguagem (que é uma obra de arte) muitas vezes poética, outras vezes apologética; também não estava em uma ideia de difícil compreensão (que Chesterton conseguia explicá-la com uma sagaz metáfora), mas tão somente naquilo que a dona de casa e juiz experimentam, na simples observação da realidade, no senso comum: “ que o prazer está todo no pungente momento de passagem da ignorância para o conhecimento”[6].


Mais que viver na esfera das abstrações e deduções, ou construir discursos inflamados de palavras complexas e neologismos ideológicos (típico das atuais produções acadêmicas), o maravilhamento das pequenas coisas (do senso comum) suscita em nós um encontro com a Unidade, a Bondade e a Verdade do ser. Dito de outro modo, é a Beleza que nos permite ver os traços de realidade que todas as coisas possuem. Nas palavras de Josef Pieper, tudo isso tem de causar em nós um “abalo”, ou seja, a beleza da realidade é digna de admiração, mais ainda, de maravilhamento. Uma forte tendência nos “intelectuais” do século XXI é o desprezo pelas pessoas simples e pelas coisas ordinárias da vida. Faz-se o uso de uma linguagem acadêmica, com seus apostos, neologismos e expressões de efeito; recorre-se a uma polissemia sem fim, que resulta tão somente num vácuo de ideias, e repudia aquele homem simples que vê o óbvio (que a grama é realmente verde) e é grato por isso.

“O mero sofisma é uma das coisas que mais detesto, e, para meu mal, é uma das pechas que mais vulgarmente me lançam ao rosto. Não conheço nada mais desprezível do que um mero paradoxo, que, afinal, não passa de uma maneira engenhosa de defender o que, por sua natureza é indefensável”[7]

Para Chesterton, o que realmente importa é aquilo que todo aluno de filosofia, pelo menos uma vez na vida, ouviu de algum professor: que o ato de conhecimento começa com a admiração. Mais ainda, com a admiração e gratidão pelas tremendas coisas triviais. Isso é possível quando nos reconhecemos bem-aventurados por participarmos deste universo, que é exterior à nossa percepção, é objetivo e emocionante. Buscar o sentido moral mais profundo da realidade é a melhor ocupação para aqueles que sabem que “na vida são sempre os pequenos fatos que expressam as grandes emoções...”[8] É sensacional o mistério por trás do senso comum.

“O que chamamos de trivialidades são na realidade as pontas soltas de inúmeros contos; a existência ordinária e sem sentido é como dez mil emocionantes novelas policiais misturadas numa colher”[9]

Por isso ele é magnânimo, e um exemplo para todo pensador contemporâneo. Não somente pela capacidade ímpar de conexões, agudeza de pensamento, raciocínio profundo e sua apologética perspicaz, mas pelo profundo respeito pelo seu opositor, reverência pela sua alma imortal. Ele atacava ideias, com veemência e argumentos irrefutáveis, e ainda assim conseguia fazer amigos, e mais, manter estes amigos. Ele era um modelo do princípio cristão de “odiar o pecado e amar o pecador” (o que se vê nos diversos contos do Padre Brown). São recorrentes em suas crônicas (de modo particular em “Tremendas Trivialidades” e “Considerando todas as coisas”) que, antes de relatar o fato e perscrutá-lo com seu bom senso, ele faz primeiro um elogio ao seu interlocutor (seja um opositor nas ideias seja sua esposa):

_ “Depois entrei na cozinha (que, juntamente com o restante da casa pertencia a uma velha senhora muito justa e sensata...)...”[10]
_ “(...) E esse homem não era um taxista desonesto. Se alguma vez existiu uma face humana séria e simples e humilde ... era a face daquele ressentido e respeitos taxista.”[11]
_ “ (...) esse francês era pelo contrário bastante solene e digno...”[12]
_ “Mas, Ó sábio amigo, Barbeiro da rua Strand ...[13]
_ “(...) o policial líder se tornou tão amável e cortês...”[14]
_ “Lembro-me uma vez de discutir com um honesto e jovem ateu...”[15]

Chesterton foi um veemente apologeta, que não se curvou diante das falácias de seu tempo e refutou todas as opiniões que queriam se impor como naturais. Ele criticou a modernidade não porque odiasse o tempo em que vivia, mas porque ela era contra o homem comum. O modernismo, “nome tão fraco e anti-filosófico”, que pregou o progresso do homem, torturou-o ao ponto negar-lhe seu maior anseio, o bom senso e o bom humor. Enquanto o mundo progredia, a modernidade tirou Deus do homem, portanto, tirou toda a alegria genuína. Chesterton combateu com ardor as noções falaciosas de “evolução” e “progresso”, pois entendeu que estas nada eram mais do que um desvio no caminho ideal do homem, elas impediam a verdadeira transformação. A modernidade ensinou à juventude que é mais fácil mudar o ideal. Mas Chesterton era um gênio colossal, ou melhor, era um santo, um humilde, e resgatou o senso comum. Considerando todas as coisas, ele compreendeu que ser cristão é o mais sensato, a condição mais bela da realidade: a alegria de ser cristão, daquele em que o senso comum e o sensus fidei se fundiram na eterna gratidão pelas ordinárias coisas da vida e pelo Extraordinário que as criou. Só no Cristianismo ele percebeu que a alegria é imensa, relegando à tristeza uma pálida condição acidental.

“O Cristianismo satisfaz, rápida e perfeitamente, o instinto ancestral do homem para se conservar na posição correta. E o satisfaz completamente porque, por intermédio de seu credo a alegria torna-se algo gigantesco, enquanto a tristeza torna-se algo particular e pequeno (...)A alegria que foi apequena propaganda do pagão, é o gigantesco segredo do cristão (...)”[16]

Enfim, eu poderia ter falado de Chesterton sob diversos aspectos, mas como escreveu Carlos Ramalhete, para os tempos atuais, Chesterton, o “filósofo do bom-senso” tem importância particular. Ele pode indicar o caminho para o homem pós-moderno. Diante do homem, que supõe caminhar em direção ao nada, num mundo em que é preciso “provar que a grama é verde” e que “não é o balançar das árvores que produz o vento”, Chesterton tem a resposta com a alegria do maravilhamento. A alegria do seu bom senso inunda quem o lê, pois, toda sua filosofia é a filosofia do homem comum.

“Se a nossa vida é realmente tão bela como um conto de fadas, devemos nos lembrar que toda a beleza de um conto de fadas reside nisto: que o príncipe tem admiração e não medo. Se o príncipe tivesse medo do gigante, ele terminaria ali, mas se ele não ficasse assombrado com o gigante, acabaria o conto. Tudo depende se ele é suficientemente humilde para admirar e suficientemente altivo para desafiar”[17]

[1] Chesterton em “Dickens” [2] Chesterton, G.K, Considerando todas as coisas, p. 37, Trad: Mateus leme, São Paulo, Ecclesiae, 2013. [3] Chesterton, GK, Tremendas Trivialidades, p.18, Trad: Mateus Leme, São Paulo, Ecclesiae, 2012 [4] Chesterton, G.K, Tremendas Trivialidades, p. 22, Trad: Mateus Leme, São Paulo, Ecclesiae, 2012 [5] Chesterton, G.K, Tremendas Trivialidades, p. 32, Trad: Mateus Leme, São Paulo, Ecclesiae, 2012 [6] Chesterton, G.K, Considerando todas as coisas, p. 111, Trad: Mateus leme, São Paulo, Ecclesiae, 2013. [7] Chesterton, GK, Ortodoxia, p.26, Trad: Cláudia Albuquerque Tavares, São Paulo LTR, 2001 [8] Chesterton, G.K, Considerando todas as coisas, p. 119, Trad: Mateus leme, São Paulo, Ecclesiae, 2013. [9] Chesterton, G.K, Tremendas Trivialidades, p. 22, Trad: Mateus Leme, São Paulo, Ecclesiae, 2012 [10] “Um pedaço de giz” [11] “O Taxista extraordinário” [12] “Na Praça da Bastilha” [13] “O Barbeiro Ortodoxo” [14] “Alguns policiais e uma Moral” [15] “O erro da imparcialidade” – Considerando todas as coisas [16] Chesterton, GK, Ortodoxia, p.204, Trad: Cláudia Albuquerque Tavares, São Paulo LTR, 2001 [17] Chesterton, GK, Ortodoxia, p.150, Trad: Cláudia Albuquerque Tavares, São Paulo LTR, 2001

Autor:


Ir. Bernardo

(Mosteiro da Santa Cruz - Anápolis)

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