Constância, uma virtude para todos!

O ser humano busca a felicidade. É um “ser inquieto à procura de sua perfeição”.[1] Enquanto pessoa é livre em sua realidade ontológica, capaz de autodeterminar-se mediante a necessidade intrínseca de buscar sua própria realização e superar as suas limitações.



Contudo, muito mais que isso, a pessoa é chamada à santidade, à vida sobrenatural da Graça dada por Nosso Senhor Jesus Cristo no seu Mistério Pascal. Ultrapassando a nossa natureza humana, Deus disponibilizou ao homem uma condição superior, a de ser chamado filho de Deus, a vivermos na sua vida divina[2].


Mas como? De que forma chegar à vita beata dos bem-aventurados? Além da Graça de Deus, indispensável para qualquer ascensão espiritual, uma das mais caras virtudes para o progresso na vida interior, isto é, a vida íntima com Deus, é a constância. Segundo Santo Tomás de Aquino, a constância deriva da virtude cardeal da fortaleza. Muito parecida com a perseverança, ela tem a finalidade de enfrentar e resistir a determinado obstáculo imposto. É próprio dela persistir firmemente no bem, sem desistir quando aparecem obstáculos inesperados.[3] Desta forma, a constância é a virtude sobre a qual o agente é capaz de resistir a dificuldades exteriores impostas ao ato, diferentemente da perseverança, que diz respeito à contínua ação do agente na própria ação do ato.


É nessa perspectiva que o Papa Bento XVI ao falar da oração, que é um dos meios ordinários e essenciais para a comunhão com Deus, afirma que: “a constância ao reservar o próprio tempo a Deus é um elemento fundamental para o crescimento espiritual”.[4] O valor da constância se dá justamente pelo fato de que nada que seja valioso é fácil, o que torna o esforço exercido pela pessoa na contínua prática do bem um meio meritório e santificador.


E por que fracassamos? Por que às vezes não se consegue realizar os objetivos impostos pela consciência? Por que não somos constantes? Muitas das vezes, porque não se vê “as dificuldades da vida como um convite de Deus para ‘ir além’, para crescer em qualidade humana e espiritual, numa escala do bom para o melhor”.[5] É nesta perspectiva que Rafael Cifuentes coloca que “a causa mais frequente dos fracassos é precisamente a inconstância”[6], que deriva do medo do obstáculo apresentado ou da falta de determinação na busca do bem, não confiando na graça de Deus. Por isso, “a inconstância de espírito e a pouca confiança em Deus são o princípio de tentações perigosas”[7], que nos afastam da nossa verdadeira vocação e nos tornam insatisfeitos perante as vicissitudes da vida.


Assim sendo, denota-se que o fracasso é mais atribuído à inconstância do que à incapacidade. Na verdade, “quantos homens inteligentes e entusiastas fracassaram por não terem sido capazes de suportar o peso de um trabalho continuado”[8]. De fato, a força da constância se justifica na contínua progressão, na fidelidade às mínimas coisas, essencial para a vida espiritual e humana de forma geral, pois, como já diziam os grandes santos, “quem não progride, regride”.


Não há constância sem um ideal, sem uma meta a ser edificada e construída pela pessoa. Ela é, portanto, uma virtude de alicerces, que forma a base sólida do edifício de virtudes a ser construído. “Ninguém pode chegar a ser aquilo que antes não projetou atingir e realizar”[9]. Assim sendo, na vida cristã, o verdadeiro ideal ou meta a serem seguidos devem ser aqueles que são queridos por Deus.


Deus nos chama todos à santidade[10], mas não nos impõe. Nos chama a sermos co-criadores, para que, mediante a Graça e a nossa própria capacidade de autodeterminação, sejamos plenos e felizes. A árdua tarefa consiste, nessa perspectiva, em pegar esse ideal objetivo, que é dado por Deus, e transformá-lo em um ideal subjetivo, para que, incorporado pela pessoa, possa ser buscado de maneira constante.


Ninguém deve desanimar se ainda não conseguiu ser constante ou ainda não possui um ideal ou uma meta que motive o seu progresso espiritual. Em Cristo Senhor, temos um ideal divino e humano que, quando conhecido de fato e enraizado no coração, torna-se motivação vital e o modo perfeito de constância.[11] Peçamos, portanto, à Santíssima Virgem, que sempre foi constante na prática das virtudes e do verdadeiro amor, para que conhecendo a Cristo possamos amá-Lo, imitando suas atitudes, confiando na Sua misericórdia e graça que é dada àqueles que a pedem[12].



[1]A Constância – Dom Rafael Llano Cifuentes

[2]Jo 1, 12ss

[3]Suma Teoloógica, 2-2,137,3c

[4]Escola de Oração – Papa Bento XVI

[5]A Conquista das Virtudes – Pe. Francisco Faus

[6]A Constância – Dom Rafael Llano Cifuentes

[7]Imitação de Cristo – Tomás de Kempis

[8]A Constância – Dom Rafael Llano Cifuentes

[9]Idem

[10]Mt 5, 48

[11]A Constância – Dom Rafael Llano Cifuentes

[12]Mt 7,7

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Pastores Dabo Vobis
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