Construindo um castelo no meio da cidade

Há mais ou menos dois anos, eu vivia uma pequena angústia causada pela dificuldade de entender o que era uma vida de oração constante em meio a uma vida ativa, a qual exigia compromissos acadêmicos, trabalhos de casa, atividades pastorais, enfim... Olhava para aquele “orai sem cessar” [1] dito por São Paulo com certa desconfiança frente à experiência presente. Minha dúvida, provavelmente, não era tão ingênua a ponto de achar que eu deveria recitar o Pai Nosso ou a Ave Maria vinte e quatro horas por dia, mas me questionava justamente sobre como conseguir manter o coração elevado a Deus diante de tanta agitação, barulho, convivência (mesmo as melhores)...



Bom, se alguém pensa que esse texto deve acabar com um escrito de que sim, eu achei a chave para toda essa inquietação e agora sou uma oração ambulante, engana-se bastante. Penso que isso seja trabalho para uma vida toda, algo que exige esforço perpétuo e constante melhoramento dos hábitos, mas não deixo de ver frutos daqueles meses em que refletia muito nisso. Nesse período, obviamente decidi levar essa questão ao meu diretor espiritual, na época um padre velhinho e muito amável, o saudoso Pe. Oscar, admirado por todos no nosso seminário. Suas palavras foram singelas e diretas ao ponto: “deves construir um castelo no meio dessa cidade”.


A minha grande confusão era pensar que o barulho e a agitação eram externos a mim. Sim, de fato também o são; porém, aos poucos, meditando naquelas palavras do padre, ia entendendo que o maior barulho estava dentro de mim e no modo como eu absorvia aquela correria exterior. Ele não queria me dizer que eu precisava me enfiar num mosteiro ou algo do tipo (a não ser que entendesse que tinha vocação para tal). Ele queria dizer, simplesmente, que diante de toda a necessidade de cumprimento de obrigações e da correria dos horários - própria de quase todos os estados de vida -, minha alma precisava estar sempre refugiada nesse castelo, nessa fortaleza interior que nos permite oferecer com qualidade nossas ações diárias a Deus, e que, claro, esse projeto de castelo ganharia tijolos na medida em que eu me aproveitasse muito bem dos momentos de oração pessoal e que prezasse, de fato, por uma vida “contemplativa no meio do mundo”.


Sobre a expressão usada acima, para alguns ela pode parecer um pouco fora da realidade. Mas, certamente, não era dessa forma que os santos a enxergavam. Mariano Fazio, um sacerdote argentino, narra da seguinte forma o que pensava São Josemaria Escrivá sobre o assunto: “afirmava que sua ‘cela’ era a rua, e que ali poderia ter um alto grau de contemplação. Coerentemente com a luz que havia recebido no chamado à santificação da vida comum, convidava a descobrir Deus nas circunstâncias normais da existência humana”[2]. Esse modo de pensar – que muito antes que dele, brota do próprio Evangelho – lhe rendeu da parte da Santa Sé, no decreto sobre suas virtudes heroicas, o título de “contemplativo itinerante”[3], expressão essa que vai ao encontro do que aqui estamos tratando.


Dentre tantos desafios que poderiam ser pontuados para uma vida nesses moldes, e que alguém com maior experiência espiritual fosse capaz de destacar, limito-me a comentar sobre dois aspectos. O primeiro se trata da desvalorização do silêncio no mundo moderno. De fato, parece uma relação proporcional: na medida em que Deus foi tirado do centro das decisões da sociedade, fomos assistindo cada vez mais a um mundo barulhento, preocupado em demasia com os prazeres imediatistas que podemos extrair dessa vida, e com a capacidade humana de administrar suas finanças para usufruir desse modelo de vida. Assim, para a maioria das pessoas, parece esquizofrênico aquele que guarda um tempo do seu dia para uma meditação pessoal, por exemplo, e que não se deixa levar pelo bombardeio de informações das redes sociais. Sobre a incompatibilidade da vida com Deus e com o barulho, dirige-nos essas palavras o Cardeal Robert Sarah: “Deus nos sustém, e vivemos com ele a todo instante guardando o silêncio. Nada é melhor para descobrir a Deus que o seu silêncio inscrito no centro de nosso ser. Se não cultivamos esse silêncio, como encontrar a Deus? O homem gosta de viajar, criar, fazer grandes descobertas. Mas permanece fora de si mesmo, longe de Deus, que está silenciosamente em sua alma”[4].


Em segundo lugar, penso que é importante a reflexão de como temos levado a nossa vida pastoral. Somos tentados por vezes, com grande espírito pelagiano, a crer que por nossas forças e pelas nossas qualidades humanas seremos capazes de salvar o mundo abraçando-o. Assim, frequentemente e de modo sutil e gradual, pode ser que nos tornemos grandes ativistas, com uma mentalidade “pastoralista”, em que não encontro mais tempo para uma vida espiritual de qualidade, já que essa não é mais uma prioridade em frente aos compromissos pastorais que se multiplicam, tantas vezes de modo pouco otimizado e sem necessidade. Longe de ser essa uma mentalidade exclusiva de alguns clérigos, como podem pensar alguns, há muitos leigos que absorveram o mesmo pensamento. Despreocupados em reservar tempo para sua relação íntima com Deus, acabam dando não mais do que a si mesmos – e não a Deus – aos outros. Dom J.B. Chautard nos recorda com ênfase que uma vida apostólica efetiva sempre será fruto da união com Deus alcançada pela vida interior, e por isso diz: “Por mais intensa que seja, a vida ativa tem o seu termo neste mundo: pregações, ensinamentos, trabalhos de todo gênero, tudo isso cessa no limiar da eternidade. A vida interior, essa não conhece ocaso: a melhor parte, que não lhe será tirada.[5]


A verdade é que cultivar o silêncio interior e a vida de oração são critérios fundamentais para todos aqueles que desejam alcançar a santidade proposta por Nosso Senhor, e isso independe do estado de vida ou vocação. Assim, cada um a seu modo, cumprindo bem os seus deveres de estado, é capaz de construir um castelo no meio da cidade, ainda que seja obra para toda vida. Busquemos sempre um coração semelhante ao do Bom Pastor, na certeza que é somente daí que podem brotar as verdadeiras alegrias, e assim gozaremos juntos daquela vida em abundância da qual nos prometeu o Cristo.


[1] ITs 5,17


[2] Mariano Fazio - O último romântico


[3] Congregação para a causa dos santos – Decreto sobre as virtudes heroicas de São Josemaria Escrivá de Balaguer


[4] Robert Sarah e Nicolas Diat - A força do silêncio contra a ditadura do ruído


[5] Dom J.B. Chautard - A alma de todo apostolado


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Pastores Dabo Vobis
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