Coração de Pedro e boca de Paulo: a pedra da Igreja e o apóstolo dos gentios.

A Igreja Católica Apostólica Romana é para nós católicos, e não somente, mas também para o mundo, um sinal e um tesouro de Deus, que nos auxilia nesse caminho peregrino rumo aos céus e onde professamos pela fé que este é nosso fim ultimo. Assim, a Mãe Igreja nos oferece todos os meios para podermos progredir nesse caminho, que deve começar no coração de cada cristão e assim, no coração de toda Igreja, onde sabemos que, como membros de Cristo, devemos cooperar uns com os outros.



Dentre os meios que Igreja nos oferece, podemos destacar três de forma especial: os Sacramentos, indispensáveis para nossa salvação, como expresso no número 744 do Catecismo da Igreja Católica – “o termo ‘sacrementum’ exprime mais o sinal visível da realidade escondida da salvação, indicada pelo termo ‘mysterium’”; as Sagradas Escrituras, que a Igreja, como fiel guardiã, não cessa de oferecer ao povo de Deus como alimento na Mesa da Palavra; o testemunho daqueles que amaram a Igreja com suas vidas e não mediram esforços para defendê-la e propagá-la a todo o mundo, os Santos.


Na vida da Igreja, os Santos auxiliam a todos aqueles que querem crescer na vida espiritual e na amizade com Nosso Senhor Jesus Cristo, presente de modo especial na Sagrada Eucaristia, que é corpo, sangue, alma e divindade de Cristo. Se fôssemos definir um santo, poderíamos dizer que é santo todo aquele que buscou uma amizade íntima e uma profunda comunhão com Jesus, desprezando a si e ao mundo, e por amor, deu testemunho d’Ele. E a Igreja, em sua autoridade dada por Nosso Senhor, reconhece essas virtudes heroicas, e os eleva aos altares.


Dentre tantos santos e santas que fazem parte da nossa Igreja, falaremos um pouco de dois, já mencionados no título deste texto: São Pedro e São Paulo, os apóstolos que marcam, de forma especial, o início da Santa Igreja de Cristo. Eles são comemorados no mesmo dia, 29 de junho[1], em uma só solenidade. Analisando o que nos diz a Tradição da Igreja em 2000anos, podemos destacar três pontos, a fim de compreender a motivação dessa única solene celebração para ambos.


Em primeiro lugar, nota-se que ambos foram escolhidos por Jesus Cristo para propagar seu evangelho ao mundo e fazer discípulos em todas as nações (Mt 28, 19), unindo todos os povos, raças e culturas em uma só fé. Pedro foi enviado aos Judeus – aqueles que por excelência deviam acolher o Cristo e sua palavra salvadora, mas que não o receberam – “Veio para o que era seu e os seus não o receberam” (Jo 1, 11). Porém, o Senhor não desiste e permanece entre eles por meio dos seus apóstolos, para poder lhe conceder a conversão e salvação; por meio de suas palavras e testemunho que transmitem o próprio Ressuscitado:


Pedro, então, de pé, junto com os Onze, levantou a voz e assim lhes falou: “Homens da Judeia e todos vós, habitantes de Jerusalém, tomai conhecimento disto e prestai ouvidos às minhas palavras. (Atos 2, 14).


Paulo, aos gentios, que de perseguidor passa a apóstolo e anunciador da Boa Nova, escolhido por Jesus, pedindo a Ananias que fosse ao seu encontro, como lemos nos Atos dos Apóstolos:


“Mas o Senhor insistiu: “Vai, porque este homem é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome diante das nações pagãs, dos reis, e dos israelitas.” (Atos 9,15).


E o próprio São Paulo também nos atesta como era antes de sua eleição de apóstolo, em sua carta aos Gálatas:


“O Evangelho por mim anunciado não é segundo o homem, pois eu não o recebi nem aprendi de algum homem, mas por revelação de Jesus Cristo. Ouviste certamente da minha conduta de outrora no judaísmo, de como perseguia sobremaneira e devastava a Igreja de Deus.” (Gal 1, 11-13).


O segundo motivo de sua celebração conjunta é o fato de terem tido sua partida desse mundo ao Reino dos Céus pela mesma via: o martírio. Como dito por Santo Agostinho na segunda leitura da oração do Ofício das Leituras[2]no dia próprio dos santos: “O Martírio dos santos apóstolos consagrou para nós este dia”.Dia este que fazemos memória das maravilhas que o Senhor realizou por meio deles aos homens e a sua Igreja. Adiante, continua Agostinho:


“Num só dia celebramos o martírio dos dois apóstolos. Na realidade os dois eram como um só. Embora tenham sido martirizados em dias diferentes, deram o mesmo testemunho. Pedro foi à frente; Paulo o seguiu. Celebremos o dia festivo consagrado para nós pelo sangue dos apóstolos.”


Por fim, destacamos o amor de ambos a Palavra de Deus, ao Verbo Encarnado, como nos diz o Papa Emérito Bento XVI, em sua homilia na solenidade de São Pedro e São Paulo no ano de 2012: “Desde sempre a tradição cristã tem considerado São Pedro e São Paulo inseparáveis: na verdade, juntos, representam todo o Evangelho de Cristo”.


Como já mencionado no início deste texto, a vida dos santos deve ser para nós Cristãos Católicos um exemplo e caminho a ser seguido, para nossa própria conversão e santificação, desejo esse de Deus mesmo para nós: “Porquanto, é está a vontade de Deus: a vossa santificação. ” (Tes 4,3). Observando a vida desses dois grandes santos, podemos refletir sobre o auxílio e o ensinamento que cada um deles pode trazer em nossa caminhada particular:


Comecemos por São Pedro, o primeiro papa da Igreja. Antes do início de sua missão apostólica, o Evangelho nos relata um simples pescador, teimoso e que parecia não ter nada a oferecer; porém, ao ver o seu coraçãoJesus o escolhe, sabendo que, com sua ousadia, coragem, amor e destreza, seria lapidado e confirmado pelo Espírito Santo como uma verdadeira pedra, assim como o próprio Cristo o chama depois de sua profissão de fé: “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja.” (Mt 16,18).


Nós, como bons católicos que somos, precisamos reconhecer, amar e respeitar esse Ministério Petrinode Pastor da Igreja Universal, que por mandado de Cristo e pela sucessão apostólica confia ao Santo Padre a missão de governar a Igreja e de defender a Fé Católica, como expresso na continuidade do Evangelho mencionado acima: “... e as portas do inferno nunca prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus e o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus.” (Mt 16,19).


Por meio do Vigário de Cristo na terra, atualmente o Papa Francisco, e do Espírito que o acompanha, Ele não cansa de falar a nós. Por isso precisamos rezar sempre pelo Papa e por sua missão.


São Paulo, de perseguidor a anunciador, passou a ser a “bocade Deus” aos pagãos. A conversão de Paulo nos mostra que, realmente, Jesus escolhe aqueles que Ele quer. Mesmo que em uma difícil situação de pecado, a qual costuma nos gerar desânimo, Jesus não desiste de nós. O que devemos fazer é ser atentos ao apelo de conversão que nos é comunicado todos os dias, por meio da Igreja, por meio dos irmãos e por meio até mesmo do mal que praticamos, como nos diz Santo Agostinho: “Até do mal, Deus tira um bem”. Do mal de São Paulo, que percorria os cristãos, Jesus o faz um grande anunciador do Evangelho.


Depois de sua conversão, São Paulo nos ensina que a vida do cristão deve ser um verdadeiro testemunho de Cristo, mesmo passando pelas piores provações; não devendo desanimar, mas perseverar, na consciência “de que estamos no mundo, porém não somos do mesmo”. (Jo 17,16). Para que ao término de nossas vidas possamos falar e ter a certeza que teve o próprio São Paulo: “Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé.”(2 Tim 4,7).


Que nesta Solenidade de São Pedro e São Paulo possamos, pela intercessão desses santos, progredir na missão de cristãos batizados, e seguindo os seus exemplos amar Jesus e sua Igreja com um coração fiel igual ao de Pedro, e anunciá-lo e defendê-la com uma boca firme e resoluta como fez Paulo. Que a Virgem Maria, mãe e Rainha dos Apóstolos, possa interceder juntamente com eles por nossa conversão, vocação e salvação.


Amém.



[1]No Brasil, por determinação da CNBB e autorização da Santa Sé, esta solenidade é celebrada no domingo entre 28 de junho e 4 de julho (cf. Missal Romano, p.607)

[2]O ofício das Leituras é uma das orações que compõem a Liturgia das Horas, oração da Igreja que “alarga aos diferentes momentos do dia o louvor e a ação de graças, a memória dos mistérios da salvação, as súplicas, o antegozo da glória celeste, contidos no mistério eucarístico, centro e vértice de toda a vida da comunidade cristã” (cf. Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas, n.12)


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Pastores Dabo Vobis
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