De Nazaré ao Gólgota: Jesus, o Caminho das virtudes

A vida de cada pessoa deve ser forjada em vista da perfeição e da santidade. Ela deve ser “como a prata totalmente depurada, sete vezes depurada pelo fogo”[1], porque tudo (ainda mais o homem, dotado de alma) deve corresponder à bondade de seu ser; somente assim expressará seu valor. Assim, o que se exige de nós é um espírito firmemente habituado a agir bem. Logo, vontade e razão necessitam de virtudes, as quais nos dignificam e nos capacitam ao relacionamento com os homens e com Deus.

“Os bons hábitos que sanearão nossa natureza, decantarão nosso temperamento de todos os desvios com que a hereditariedade humana o havia sobrecarregado, comunicarão a todo o nosso ser um equilíbrio novo, criarão, enfim, em nosso comportamento de cada dia uma corrente de vida que, na medida de nossa fidelidade em receber seus impulsos, anulará a maleficência de nossas más inclinações”[2].


Por conseguinte, o homem é chamado a uma caminhada de formação nas virtudes. Definida justamente como “disposição habitual e firme de fazer o bem”, que “permite à pessoa não só praticar atos bons, mas dar o melhor de si”[3], a virtude faz com que a pessoa humana disponha de toda a sua sensibilidade e espiritualidade para a bondade, porque ela está inteiramente inclinada ao bem e o deseja na prática de vida. Quer seja por perfeições habituais essencialmente humanas, denominadas virtudes morais (concentradas nas quatro virtudes cardeais[4]), quer seja por aquelas dispostas na alma por graça divina, chamadas de virtudes teologais[5], diz São Gregório de Nissa que “o objetivo da vida virtuosa é tornar-se semelhante a Deus”.


“Que faça parte do destino do cristão parecer-se com Cristo Jesus, a quem deve aderir com todas as forças de seu ser, quem poderia negá-lo?”[6]. Para que haja essa conformidade à qual somos predestinados por Deus[7], é Cristo mesmo, autor e fonte de toda graça, que forma as virtudes nas almas mais mortificadas e unidas intimamente a Deus[8].


É de se crer que Cristo não deixou de viver qualquer virtude em um só instante de sua vida. Porém, em cada momento, podemos destacar algum dom em especial. Vamos contemplar alguns passos de nosso Mestre a partir do ventre de Maria até o alto da Cruz para provarmos o gozo salutar de seus virtuosos exemplos – “Aprendei de mim...”, diz Jesus.


Logo no início de sua vida no mundo, Jesus revela aquela virtude que é o fundamento de todas as outras: a humildade. Ela é “a mãe, a raiz, a seiva e o elo de todos os demais bens do espírito”, diz São João Crisóstomo[9]. A Encarnação no ventre de Maria em Nazaré trouxe à Terra o Verbo de Deus, que “não se apegou ciosamente a ser igual em natureza a Deus Pai. Porém esvaziou-se de sua glória e assumiu a condição de um escravo, fazendo-se aos homens semelhante”[10]. Cristo assumiu a nossa carne para armar a tenda do seu corpo entre nós: Verbum caro factum est, et habitavit in nobis.


Verdadeiramente Jesus se faz Filho do homem, para fazer de nós filhos de Deus. Mas, ao mesmo tempo, Cristo humilde se faz pequeno para nos mostrar que é preciso que diminuamos, porque – salienta um piedoso bispo emérito – é a humildade a porta tão baixa e estreita do Céu, pela qual os “altos” pela soberba e os “gordos” pelo orgulho não passam. São bem-aventurados os humildes, diz Jesus. A humildade se apoia na verdade, por isso sempre expõe a realidade da nossa miséria após cada queda[11]. Porém, se assumimos a nossa verdadeira condição diante de Deus, como Jesus feito homem assumiu nossa natureza diante do Pai, somos livres, felizes e glorificados.

“Cristo: - Anda em minha presença em verdade e procura-me, sempre, com simplicidade de coração. Quem anda diante de mim pelo caminho da verdade, será defendido contra os ataques dos inimigos e a verdade o livrará dos enganos e das murmurações dos maus. Se a verdade te libertar, serás inteiramente livre e não cogitarás das vãs palavras dos homens”[12].

Em Belém, o presépio mostra Jesus pobre. A santa pobreza é a virtude do Cristo despojado de tudo, sem assistência de bens materiais... O hábito de estar apegado a nada, mas dependente somente da Providência de Deus, que sempre preza pelas suas necessidades com misericórdia. Ora, se é na fraqueza que o homem é forte, pela força de Deus nele, o Cristo pobre expressou mais claramente o seu esplendor divino, tanto é que os pastores e os magos logo se prostraram diante da divina criança – não havia esplendor nenhum naquele lugar, somente Jesus mesmo.


É por isso que Cristo nos ensina a santa pobreza, que se faz sobretudo na simplicidade de espírito, mas que também pede desapego das coisas deste mundo: nada deve resplandecer mais na nossa pessoa (bens, dinheiro, beleza estética, seja o que for) do que a imagem divina em nós. O hábito pobre ajuda a que os outros enxerguem com mais transparência a nossa alma e percebam no mesmo instante a nossa alta dignidade e a presença de Deus em nós. Isso dá sentido à pobreza exigida do sacerdote, para que seja verdadeiramente alter Christus (outro Cristo), bem como nos disponibiliza a qualquer outra vocação. Porque – diz aquele mesmo bispo piedoso – “Jesus escolhe do fundo da pobreza aqueles por quem ele quer fazer coisas extraordinárias”.


O Menino Jesus foi crescendo em sabedoria e em graça, mas se destacou exemplarmente por ser um filho obediente. Ele era submisso a Maria Santíssima e ao Castíssimo José[13], e sua vida consistia em sempre fazer a vontade do Pai[14]. Desde cedo Jesus revela a virtude da obediência, isto é, do saber ouvir com atenção (ob-audire, “a escutar”). Assim como Samuel, que ouvia a voz de Deus que lhe chamava, e José, “aquele que escuta e é capaz de discernimento”[15], Jesus também era dócil à voz do Pai e, assim, discernia qual a era a boa vontade a ser praticada. Aprendamos do Belo Infante a viver de modo mais fácil e seguro: quem obedece é dispensado de muitas responsabilidades e, ainda mais, não cai no erro e no pecado. Uma criança obediente não se preocupa com nada e, também, não toma castigo.


Mais tarde, a obediência, em comunhão com a penitência, rendeu a Cristo a vitória no deserto sobre o demônio. Jesus venceu as seduções diabólicas com a Palavra de Deus. “Embora fosse Filho de Deus, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu”[16]. Ele já havia desprezado a Si mesmo, de modo que estava completamente ordenado a Deus. Esse é o segredo da obediência no nosso combate espiritual: sobretudo na provação, se desconfiarmos de nós mesmos e nos submetermos a quem nos é superior, vencemos a sedução do Inimigo e da carne pela graça divina[17]. Portanto, contra a rebeldia da carne e a sedução do demônio, Jesus nos ensina a submissão da vontade e o abandono em Deus.

“Tendo cumprido perfeitamente a vontade do Pai, Cristo é já, mesmo como homem, a personificação mesma da vontade de Deus. Sua vida e sua palavra são a forma concreta que para nós assumiu a atual vontade de Deus”[18].

Agora nos dirigimos à casa de Marta e Maria, onde Jesus encontra suas amigas com práticas opostas: enquanto uma está ocupada com as muitas tarefas domésticas, ainda mais com a chegada de seu Amigo, Maria pausa o que fazia para se sentar aos pés de Cristo. Ora, cada uma delas estava parcialmente disposta a uma virtude muito importante para um amigo e discípulo do Senhor: o apostolado. Essa virtude conjuga a vida espiritual com a prática de vida, de modo que a vida interior seja exercida no trabalho zeloso e a vida ativa seja sustentada pelo espírito orante. Lembremos que Jesus costumava se retirar para rezar, especialmente em meio a importantes atividades do seu ministério[19]. A respeito disso, certa vez um pároco disse a um seminarista que falhava na rotina de oração em meios às ações cotidianas: “filho, faça suas atividades no intervalo das orações; isso me parece mais justo aos olhos de Deus”. É por isso que Jesus repreendeu Marta dizendo: “tu te inquietas e te agitas por muitas coisas... Maria, com efeito, escolheu a melhor parte”.


Vale ressaltar, porém, que “a preponderância da vida de oração sobre a vida ativa”[20] não justifica a ociosidade típica dos apóstolos no monte Tabor. A eles, que queriam permanecer na cômoda contemplação daquela teofania, Jesus ordena que descessem e continuassem o ofício apostólico. Isso é lição para todos os inseridos no seguimento de Jesus: “não podendo o amor de Deus separar-se do amor de próximo, daí resulta que essas duas formas de vida (a interior e a exterior) não podem, também, de maneira alguma, subsistir uma sem a outra”[21]. O apostolado é a virtude que nos permite a graça de sermos Igreja no dia-a-dia em meio ao mundo.


Nas doze horas antecedentes à Paixão, Jesus agoniado, flagelado, coroado e vacilante com a pesada Cruz às costas nos revela a paciência, a cara virtude do saber sofrer, padecer (do latim patientia, em que pati significa “sofrer”). A paciência, porém, vem com a perseverança. Não consegue dar a vida quem não persevera no sofrimento. Antes de suportar o fardo dos mistérios dolorosos, Cristo já sofrera cotidianamente com as calúnias e os julgamentos dos mestres da lei e fariseus, sem contar o que os próprios discípulos lhe faziam sofrer com sua falta de fé e seus interesses egoístas. Jesus convivia com o padecimento moral e espiritual[22], e isso lhe feria muito mais o coração do que o que os flagelos, os espinhos e o madeiro puderam fazer no seu corpo.


O homem é o templo do Espírito Santo, e as virtudes são seus alicerces. Todas as virtudes são-nos ensinadas por Cristo em Seu caminho salvífico. Por sua vez, a virtude máxima da caridade é aprendida por nós de modo sublime na contemplação da Cruz, porque – novamente citando aquele velho bispo – “Jesus está lá, ensinando o povo o que é amar”. Na Cruz, Jesus testemunhou o amor do Pai por toda a humanidade, ao dar seu Filho Unigênito para que todos pudessem alcançar a vida eterna pela fé no Redentor[23]. Um só morreu para que todos tivéssemos a vida. A caridade é cruz: ela se faz na nossa plena oblação pelos outros. De nós, templos vivos, deve jorrar a Água da Vida de Cristo que sacia a sede do mundo que não O conhece.


Para se construir um digno templo, é preciso o labor carnal e espiritual. É um árduo trabalho, a ser exercido constantemente, que exige o sacrifício de nós mesmos – vencer todos os vícios, os quais nos prendem, nos instalam paraliticamente e nos mantém estagnados (e, por isso, regressamos à base da montanha, com tudo aquilo que levávamos ao topo para lá armarmos nossa tenda na presença de Deus). Ora, se recordarmo-nos dos ensinamentos “contraditórios”, “paradoxais” de Jesus, convencer-nos-emos com humildade de que, para sermos templos espirituais sólidos, fundados na rocha, precisamos antes ser virtuosamente dóceis e móveis. É necessário sairmos de nós mesmos e desinstalarmo-nos dos hábitos viciosos, os quais semeiam somente ervas daninhas.


É bem verdade que, enquanto habitados nas tendas de nossos corpos mortais, haverá ervas daninhas – o que nos mostra um coração ainda vicioso. Mas, se caminhamos em Cristo, nosso ser cultivará muito mais os bons frutos, neste Caminho que nos conduzirá ao Calvário, onde não somente gozaremos dos benefícios puríssimos do sacrifício redentor, mas nos conformaremos finalmente ao Templo e à Videira, jorrando vida e frutificando bens espirituais. Lá, no alto da montanha, após o generoso hábito da ascensão, o homem se torna fonte em Cristo, imolado como Ele.

“Jesus foi crucificado em teu favor, ele não tinha pecado. Tu, por tua vez, não te deixarás crucificar por aquele que em teu benefício foi pregado na cruz? Não estarás fazendo nenhum favor porque primeiro recebeste. Entretanto, mostras a tua gratidão pagando a dívida a quem por ti foi crucificado no Gólgota” (São Cirilo de Jerusalém).


[1] Sl 11,7

[2] L. ~J. Callens. O mistério da nossa conformidade a Cristo. Lorena: Cléofas, 2014, p. 94.

[3] Catecismo da Igreja Católica, n. 1803.

[4] Prudência, justiça, fortaleza e temperança (cf. idem, n. 1835-1838).

[5] Fé, esperança e caridade (cf. idem, n. 1841-1844).

[6] L. ~J. Callens, p. 15.

[7] Rm 8,29

[8] Cf. Imitação de Cristo, cap. XI, n. 2.

[9] Joseph Tissot. A arte de aproveitar as próprias faltas. São Paulo: Cultor de Livros, 2015, p. 53.

[10] Fl 2,6-7

[11] Joseph Tissot. A arte de aproveitar as próprias faltas. São Paulo: Cultor de Livros, 2015, p. 56.

[12] Imitação de Cristo, cap. IV, n. 1

[13] Lc 2, 51

[14] Jo 5,30

[15] Joseph Ratzinger. A infância de Jesus. São Paulo: Planeta, 2012, p. 95.

[16] Hb 5, 8-9

[17] Imitação de Cristo, cap. XIII, n. 1.

[18] Raniero Cantalamessa. A obediência. São Paulo: Loyola, 2002, p. 35.

[19] Lc 5, 16; 6, 12-13; 22, 39.41

[20] Jean-Baptiste Chautard. A alma de todo o apostolado. São Paulo: Artpress, 2012, p. 35.

[21] Idem, p. 43.

[22] Is 53,3

[23] Jo 3, 16


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Pastores Dabo Vobis
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