Dilatai o vosso coração: a virtude da magnanimidade


O homem é um ser repleto de dons; suas aspirações e propósitos remetem a uma transcendência que não se encontra em nenhuma outra criatura visível. As ações do homem expressam um apelo à percepção de que o fim último da existência humana está para além de todas as realidades deste mundo. Existe, por isso, um sentimento de insatisfação diante do contexto em que vivemos: o homem nunca está plenamente satisfeito. Diante deste fato, em nossas orações, podemos sempre dizer a Deus com Santo Agostinho: “Fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti”[1].


Partindo deste fato tão evidente, podemos falar sobre os bons hábitos que colaboram para que o homem se aproxime de sua vocação mais excelente: a Santidade, a semelhança com Deus. Dentre eles está a Magnanimidade. Buscaremos desmitificar a aparente oposição existente entre a virtude da humildade e as características de uma pessoa magnânima.


Santo Tomás de Aquino definiu a Magnanimidade como “a aplicação da alma a buscar grandes coisas. [...] Simples e absolutamente falando, ato grandioso é o que consiste no uso ótimo do que é máximo”[2]. Em outras palavras, a “grandeza de alma” supõe uma dedicação constante e resiliente do homem em viver do modo mais excelente cada uma das realidades que se lhe apresentam como verdadeiramente boas e dignas de sua condição.


A necessidade de cultivar um caráter essencialmente nobre e voltado às coisas grandes se pode deduzir, analogicamente, da experiência cotidiana: todas as coisas se distinguem e se ordenam obedecendo uma hierarquia de perfeição e de elevação do ser. Convém afirmar, portanto, que o ser é tanto mais perfeito e bom na medida em que concretiza na sua existência individual os aspectos que tendem ao fim para o qual se destina. Quando se fala do homem: sua bondade se identifica com grau de intimidade e “aparência” que estabelece com seu Criador.


Basta um pequeno esforço da memória para pensar nos muitos momentos difíceis, perseguições e sofrimentos que a Igreja suportou ao longo de sua existência. Um esforço um pouco maior, nos fará entender a importância de algumas pessoas – podemos citar São Paulo Apóstolo, São Francisco de Assis, Santa Tereza de Jesus, São João Paulo II –, que trouxeram consigo um ímpeto de transformação que buscava “colocar as coisas em seu devido lugar”. Eis a magnanimidade! Eis a atenção à grandeza que Deus colocou no íntimo de cada um de nós!


Neste contexto, a conclusão é de que, quanto maior a dificuldade em que uma pessoa se encontra, maior é a possibilidade de crescer na virtude da Magnanimidade; maior é a chance de desenvolver ao máximo suas potencialidades, como afirma o Doutor Angélico: “A perfeição de uma potência não se realiza por qualquer operação, mas, pela que implica certa grandeza ou dificuldade.”[3]É certo que todos os grandes feitos remetem a grandes esforços. A graça de Deus auxilia aqueles que se dispõem a viver conforme a Sua Vontade, mas é imprescindível a disposição da natureza.


Antes de prosseguir com as características desta nobre virtude, cabe uma reflexão sobre o seu oposto, a Pusilanimidade. Se o magnânimo é destemido e não hesita em dedicar-se inteiramente à busca de grandes coisas, o pusilânime é o seu inverso: por temer excessivamente o fracasso, prefere permanecer inerte diante das decisões a se tomar, diante de uma excelsa e grandiosa vocação a se viver. O equívoco é evidente! O resguardo medíocre diante das exigências da vida resultará, sem dúvida, em uma falta de sentido e em uma “confusão interior”.


Olhemos um pouco à nossa volta e também para dentro de nós mesmos. Como não notar o massivo crescimento de uma sociedade conformada à mediocridade? O que um medíocre pode oferecer à comunidade em que vive? Como não se inquietar com o futuro da Igreja e da humanidade? A razão de tais questionamentos está no fato de que a mediocridade é precisamente a origem do retrocesso e da ignomínia. Sim, é do não cumprir as próprias responsabilidades com esmero e dedicação que surgem a infâmia e a desonra de um homem.


A magnanimidade se opõe diametralmente à ambição. O ambicioso está sempre preocupado consigo mesmo, é egoísta e soberbo, afirmando-se sempre por suas próprias capacidades. O magnânimo, pelo contrário, está sempre pensando no bem do próximo: “O desinteresse é o caráter distintivo da magnanimidade, que procura sempre servir aos outros”[4]. Assim se percebe uma outra dimensão essencial da grandeza de coração: o espírito de doação ao serviço dos irmãos, pensando sempre em sua santificação.


Existe uma outra virtude que quase pode ser dita equivalente à Magnanimidade: trata-se da Generosidade. Quem é este que possui grandeza de alma senão aquele que é generoso em tudo quanto lhe pede o seu Senhor? O Santo Cura d’Ars dizia que se conhecem os amigos de Deus porque fazem aquilo que não são obrigados a fazer. É isto! A generosidade se mostra na liberdade em praticar o bem sem o peso de uma obrigação. O magnânimo é, antes de tudo, um amigo de Deus; alguém que decidiu compartilhar “tudo o que de graça recebeu”, inclusive a própria vida.


Todo ser humano deve possuir motivações profundas, bem fundamentadas, perenes! Em outras palavras, nós precisamos de grandes ideais, não simplesmente de grandes ideias! E mais, “o nosso ideal, além de grande, tem de ser verdadeiro[5]. Em meio a um contexto cada vez mais carregado de ideologias degradantes e inumanas, os homens devem apoiar-se nas Verdades Eternas para superar todos erros modernos e cumprir o desejo de Jesus de que sejamos luzes para este mundo cheio de pecado: “Brilhe do mesmo modo a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, eles glorifiquem vosso Pai que está nos céus”[6].


A humildade é o alicerce onde se assentam todas as virtudes, e com a Magnanimidade não é diferente. Humilde é aquele que reconhece o seu lugar e age conforme as exigências legítimas de tal posição, com a nobreza com que agira Jesus Cristo. Não existe contradição entre a busca sincera e constante por grandes ideais e a vida humilde, antes, esta é condição para aquela. Sem humildade, não posso almejar grandes coisas sem cair no egoísmo; sem magnanimidade não posso alcançar a santidade, que é o fim último da humildade.


Pode surgir um questionamento sobre as muitas almas que alcançaram a santidade através de uma vida contemplativa e silenciosa, muitas vezes retirada em mosteiros e eremitérios. Não seriam elas medíocres ou omissas? Em hipótese alguma. E é justamente com esta tônica que quero encerrar este texto, recorrendo ao maior dos exemplos que poderia citar: Nosso Senhor Jesus Cristo.


O Verbo de Deus Encarnado é a fonte e o exemplo de todas as virtudes e, com toda a certeza, deu constante testemunho de Magnanimidade. É central compreender que em cada situação específica se manifesta um modo correto de agir com grandeza de alma. Nosso Senhor foi magnânimo tanto quando expulsou os vendedores do Templo[7], repleto de zelo pela Casa de Deus, como quando se calou diante de Pôncio Pilatos[8], mesmo sendo inocente das acusações feitas. Em todos os momentos Jesus se mostrou disposto a cumprir os desígnios do Pai.


É como se pudéssemos ouvir de Deus o apelo: “Dilatai o vosso coração”, somente assim poderemos abraçar os abundantes dons que nos concede. Magnânimos são homens da ação, sempre iluminados por uma espiritualidade viva e inspiradora; são homens descontentes com o simples cumprimento de obrigações. Não estamos diante de uma escolha, é algo inerente à vida cristã: ou somos homens de coração generoso ou teremos que deixar de lado o nome de cristãos. O amor pelas coisas grandes se alcança por meio de “pequenos atos grandiosos” que se realizam todos os dias, em uma resposta constante ao chamado de Deus à Santidade.


Autor:

[1] Confissões I, 1,1 [2] Summa theol., III, q. 129, a. 1. [3] Summa theol., III, q. 129, a. 2. [4] Adolphe Tanquerey, Compêndio de Teologia Ascética e Mística, L. II, C. II, a. III [5] Rafael Llano Cifuentes, Grandeza de Coração, p. 20. [6] Mt 5, 16. [7] Cf. Mc 11, 15-19. [8] Cf. Jo 19, 8-11.



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