Dom Vital: si vis pacem, para bellum (parte I)


"si vis pacem, para bellum"[1]



Nos santos pastores, encontramos a Fortaleza de Cristo. Ela é como o ouro que precisa ser minerado para ser encontrado e, por vezes, num lugar de onde jamais se espera sair algo bom. Ouso comparar e dizer: será que de Pedras de Fogo, povoado que em 1844 pertencia à Província de Pernambuco, pode vir algo de bom[2]? O tempo, ou melhor, Deus mostrou que sim. Um bispo, esposo da Igreja. Dom Vital fez de Olinda a sua Jerusalém; foi dela esposo e cruzado, a amou e defendeu a sua amada com a espada da oração e da Palavra contra as hostes inimigas que lhe assediavam. A nós, embora fracos, a Igreja pede a Deus que nos faça atingir a fortaleza do Pastor[3].


Antônio Gonçalves, nascido num sítio distante da capital, de pais católicos e de mãe especialmente zelosa. De sua mãe, escreveu o jornalista Antônio Manoel dos Reis: "Ela viu nele o que Abraão viu em Isaac, Jacó em José, Elcana em Samuel: um dom de Deus; e a exemplo desses santos personagens do Antigo Testamento, ela reconheceu-lhe o preço e o guardou para Deus"[4]. Antônio, reflexo de Cristo desde a mais tenra idade, crescia em sabedoria e em graça diante de Deus e dos homens[5]. Indo estudar no Recife, logo se destaca pela sabedoria; mas não era uma sabedoria vaidosa e vazia. Antônio sabia que Deus lhe pedia mais, não queria dele um sábio, mas um santo de fibra. Deus queria para Antônio o epíteto de Leão do Norte.


Fazendo jus às palavras que sua mãe usava para lhe referir, de fato ele era um "Homem de espanto"[6], e em 1860, Dom José Perdigão, bispo de Olinda, confere-lhe a tonsura. Em 1861 inicia os estudos no Seminário de Olinda, conhecido como "Escola de heróis". Certamente ninguém imaginaria que o jovem de pouca aparência seria um dos maiores, senão o maior herói que em séculos de história passou por aquela casa. Mas Deus lhe chama por outro caminho, e Antônio apresenta-se aos frades do Convento da Penha, os quais, embora italianos, recomendam-lhe Paris. Admitido na Ordem, toma por nome Vital Maria, assumindo o nome de um dos primeiros seguidores de São Francisco.


O tempo em França foi uma especial provação, pois “O santo não nasce, forja-se”[7]. Foi na forja da obediência e da humildade que seu caráter recebeu as carícias de Cristo, de quem aprendeu a mansidão. Frei Vital fora obediente mesmo às ordens humilhantes de seus superiores, como ter que afastar-se da fogueira num tremendo frio e ir limpar uma parede, na qual não havia sujeira, e ouvir do superior: “Vejo que não me é possível fazer você se encolerizar”[8]. A forja de Paris reservou-lhe também males físicos; talvez tenha sido à época o seu maior inimigo. Posteriormente, seu maior inimigo seria o coração gélido dos sequazes das seitas secretas. Ordenado sacerdote na igreja da Imaculada Conceição de Matabiau, em Toulouse, e depois foi enviado para ser professor de filosofia no seminário em São Paulo. Ainda muito jovem foi eleito bispo de Olinda. Pensou recusar e recorreu ao Papa, mas em 21 de Dezembro 1871 Pio IX o confirmou como bispo de Olinda; começava o seu martírio, as colinas de Olinda lhe aproximariam ainda mais de Deus. Seu lema “Iter para tutum”[9] era um grito de sua alma à Mãe Santíssima.


A situação do Brasil à época era conturbada. Dom Vital assume muito jovem uma diocese importante e extensa. Foi recebido efusivamente no Recife; jamais se ouvira que um povo recebesse seu bispo com tal entusiasmo. Na tomada de posse estava Dom Antônio de Macedo Costa, bispo do Pará. Começava ali uma grande amizade, em que os dois combateriam juntos por Deus e pela Igreja; o único objetivo era a vitória da Santa Igreja e a consequente salvação das almas. O povo do braço de mar recebia o braço de Deus que com firmeza fez saber: “Poderíamos permanecer mudos, de braços cruzados, diante de semelhantes tentativas das quais nosso rebanho arrisca ser vítima? Não seria isso prova de covardia? Não trairíamos assim a causa de Deus? Enquanto correr uma gota de sangue em nossas veias, nos empenharemos em vos defender; pouco nos importa, a alegria ou a adversidade, a paz ou a guerra, a vida ou a morte, nós queremos a salvação de vossas almas”[10].


Nos curtos anos de episcopado, Dom Vital deparou-se com uma infiltração da seita maçônica dentro das confrarias, e até mesmo no clero. O jovem bispo procedeu pacientemente, suportou ataques pessoais com humildade, mas não pôde manter-se em silêncio diante do vilipêndio religioso promovido aos montes pela mídia administrada pelas seitas e notoriamente anticatólica. Um homem que enfrentou seu tio para defender uma escrava[11] e que recusou escravos no palácio episcopal[12] jamais poderia calar ao ver filhos seus sendo escravizados pelo demônio.


Os embates começaram com a notícia de que haveria uma Missa celebrada para os maçons, ao que Dom Vital emitiu uma circular ao clero proibindo qualquer celebração nomeadamente maçônica na sua diocese. Os homens, habituados a ver todos curvando-se diante de si, pensavam que um jovem prelado não teria fortaleza suficiente para combater-lhes. Enganaram-se! Daí em diante os ataques foram cada vez mais baixos, chegando ao ponto de, ignorando a tão arraigada devoção do povo de Recife à Mãe de Deus, a mídia maçônica publicar uma série de artigos contra a Eucaristia e a Virgem Maria. Por isso disse ao clero: “Quem poderia prever que na católica cidade de Recife, cujas igrejas são, em sua maioria, dedicadas à Mãe de Deus e dos homens, de onde se elevam todos os dias concertos de louvores a Nossa Senhora, um jornal sem pudor viria a ultrajar aquela cujo culto se transmite de pai para filho no seio do nosso povo? A blasfêmia preenche suas colunas, afligem os fiéis e provocam a cólera de Deus”[13].


O passo seguinte foi a publicação dos nomes dos clérigos frequentadores da seita, e a isto o bispo percebeu que o tempus tacendi terminava e era chegado o tempus loquendi[14]. Dom Vital passou a pregar sobre a verdadeira “Liberdade! Palavra celestial descida do seio do Pai Eterno sobre nossa terra na Pessoa do Verbo feito homem [...] Por que somos livres? Porque o Cristo nos libertou da prisão de uma morte até então sem misericórdia”[15]. Como um pai, chama os seus filhos perdidos e oferece-lhes a misericórdia e o perdão. As confrarias estavam repletas de infiltrados, e detinham o poder temporal nas paróquias e faziam dos padres seus funcionários; o escândalo estava feito, “eis aí o mais estranho espetáculo que nos é dado a ver! Os adeptos de uma seita condenada pela Igreja agarrando-se a ela e se intitulando católicos”[16].


A queda de braço se estendia aos altos escalões do Império, e o valente bispo tornou-se assunto de reunião ministerial. Seu interdito à Irmandade do Santíssimo Sacramento estaria suspenso. O prelado se utiliza do non possumus apostólico[17]; e mais, depois de, pacientemente, exortar seu clero e seu rebanho, o bispo sobe o tom: “Que sua majestade, o Imperador, exija meus bens, o serviço de minha humilde pessoa, até mesmo minha vida, ele os terá, não lhes sou apegado. Mas recebi em minhas mãos um depósito sagrado, cujos senhores são Deus e a Igreja; não posso ceder, não devo ceder, nunca cederei”[18]. Pode-se até pensar em exagero, mas aplica-se perfeitamente aos casos ocorridos numa noite[19], o que a salmodia preconiza: "no santuário o inimigo destruiu todas as coisas; e, rugindo como feras, no local das grandes festas, lá puseram suas bandeiras vossos ímpios inimigos"[20].


Analisando a vida e a conduta de Dom Vital, podemos perceber que as suas sanções contra os inimigos da Igreja faziam eco às palavras do salmo: “Como ousas repetir os meus preceitos e trazer minha Aliança em tua boca? Tu que odiaste minhas leis e meus conselhos e deste as costas às palavras dos meus lábios!”[21], e nada tinham de imprudentes ou impiedosas, mas, antes, saíam de um coração daquele pai que, cheio de misericórdia: pune seu filho para que ele se emende.


(Continua)



Autor:

[1] Tradução: se queres paz, prepara a guerra [2] Cf. Jo 1, 46 [3] Oração Coleta do IV Domingo da Páscoa [4] Dom Vital (Antônio Gonçalves de Oliveira): Frade Menor Capuchinho, Bispo de Olinda / por Pe. Louis de Gonzague. – Rio de Janeiro: Ed. CDB, 2019. p. 45. [5] Cf. Lc 2, 52 [6] Ibidem. p. 46 [7] ESCRIVÁ, Josemaria. Amigos de Deus; tradução de Emérico da Gama – 3ª ed. – São Paulo : Quadrante, 2014. n. 7, p. 30 [8] Louis de Gonzague. Op. cit., p. 51 [9] Tradução: Preparando o caminho seguro - Retirado do hino Ave Maris Stella [10] Dom Vital (Antônio Gonçalves de Oliveira): Frade Menor Capuchinho, Bispo de Olinda / por Pe. Louis de Gonzague. – Rio de Janeiro: Ed. CDB, 2019. p. 114 [11] Ibidem. p. 44 [12] Ibidem. p. 49 [13] Ibidem. p. 93 [14] Tempus tacendi = “Tempo de calar”; Tempus loquendi = “Tempo de falar” (Cf. Ec 3,7) [15] Ibidem. p. 98-99 [16] Ibidem. p. 112 [17] Cf. At 4, 19-20 [18] Dom Vital (Antônio Gonçalves de Oliveira) : Frade Menor Capuchinho, Bispo de Olinda / por Pe. Louis de Gonzague. – Rio de Janeiro: Ed. CDB, 2019. p. p. 173 [19] Na noite de 14 de Maio de 1873 um grupo de franco-maçons profanou o altar da capela dos jesuítas, invadiu o colégio expulsando os alunos e espancando religiosos. (cf. Louis de Gonzague. Op. cit., p. 130 e Dom Vital, o Atanásio brasileiro. – São Paulo-SP: Castela Editorial, 2020. p. 69) [20] (Sl 73, 3-4) [21] (Sl 49, 16-17)