Dom Vital: si vis pacem, para bellum (parte II)


si vis pacem, para bellum”[1]



“Quem nos separará do amor de Cristo?”[2]. Essa pergunta rege toda a vida de Dom Vital: sua coragem era tal, porque sabia que nada nem ninguém lhe separaria do amor de Cristo; sabia que essa tribulação era como a erva do campo que de manhã cresce e à tarde está seca[3]; sabia ainda que o espera no Céu aquilo que olho humano jamais viu[4]. Isso segue ao extremo, porque depois de negociações tendenciosas foi declarada a sentença de prisão ao bispo de Olinda. Mesmo não reconhecendo a interferência do estado em matéria estritamente eclesiástica, aceita a prisão. Apesar do sigilo pretendido pelo Império para a prisão do bispo, a população percebeu que algo lhe acontecera; diante dos oficiais e da população alvoroçada aparece altivo o bispo e não se entrega, mas volta à sua capela e se prostra diante do Senhor esperando pacientemente o desenrolar dos acontecimentos.


Novamente é procurado por oficiais; as portas do Palácio da Soledade se abrem e surge o bispo portando capa magna e mitra[5], rodeado dos seus vigários gerais e do clero, e pergunta: “Quem chamais?” ao que os oficiais respondem: “O bispo de Olinda”. Não imaginavam que estavam a repetir a cena do Monte das Oliveiras, porque Cristo, Bom Pastor, era no seu representante preso novamente. Acrescenta o bispo: “Vós viestes a mim com a força armada, eu cedo à violência, levai-me à prisão”[6], pois pretende seguir andando. Entretanto, temendo que a população impedisse a prisão do seu pastor, os oficiais não permitem que faça a pé o trajeto até o Arsenal da Marinha, onde ficaria preso até que fosse levado ao Rio de Janeiro.


Paramentos que pertenceram a Dom Vital


O ato de prisão pretendia passar ao povo a imagem de um bispo arrogante e precipitado, mas o efeito foi justamente o contrário: seu clero manteve-se fiel, o povo se aglomerava para visitar o bispo feito prisioneiro, fiéis de todas as classes, do aristocrata ao trabalhador rural, juraram-lhe obediência mesmo que lhes custasse a vida. Todo o apoio das ovelhas ao pastor não era surpresa, mas consolação. Tudo isso atestava que suas ações estavam repletas da bondade e misericórdia de Deus. O mais impressionante para o prelado foi receber algumas ovelhas desgarradas que haviam sido seduzidas pela seita secreta. Além de um padre, cerca de trinta franco-maçons visitaram o bispo e prestaram juramento de fidelidade à Fé Católica, Apostólica e Romana[7]. Faz-se necessário transcrever o dito por um deles ao lhe entregar o diploma da loja maçônica: “Eu vos peço, então, tomar este imundo papel e me receber como vosso filho fiel”[8]. Foi entre lágrimas que o bispo os recebeu de volta à fé; suas lágrimas e sua bênção como que lavaram as almas daqueles homens.


O presidente da província era um homem ágil com as palavras, mas suas ações lhe fizeram cair em descrédito perante a população. Sua covardia era manifesta; não bastasse separar o pastor do rebanho, ele iria além e, apesar de ter afirmado que não levaria o bispo dali, embarcou-o de madrugada no vapor de guerra Recife. Presentes estavam poucas pessoas, inclusive os pais do jovem bispo, que admiravam a Fortaleza do filho. O povo, ao perceber de manhã cedo, só pôde ver seu pastor acenar e dar sua bênção apostólica pela última vez.


Passando por Salvador, recebeu o carinho e apoio do Primaz do Brasil, Dom Manoel Joaquim de Silveira, e dos católicos, bem como o veemente protesto contrário à sua prisão. Chegando ao Rio, Dom Lacerda quis ser o primeiro a visitá-lo; deu-lhe sua cruz peitoral – que era uma preciosa lembrança de família – e disse ao jovem bispo: "Vossa Excelência, vós tendes toda jurisdição sobre esta terra; vejo em vós um cativo do Cristo; meu clero, meu capítulo e minha Catedral serão felizes em se colocar às vossas ordens; eu vos peço abençoar-nos; a bênção de um confessor da fé é um testemunho de salvação"[9]. Prontamente reservou um espaço no Arsenal para que fosse a sua capela. Estando no Arsenal marítimo, pôde receber as carícias de Deus através das diversas visitas que apaziguavam a alma de apóstolo e preparavam-na para a dura, mas já sabida, provação que viria. Homem forte, estava de fato preparado para enfrentar mais uma vez aqueles inimigos que tantas vezes o provocaram.


Seu julgamento era de cartas marcadas, certamente seria condenado. Duas forças distintas combatiam: os filhos da luz e os filhos das trevas, estes são mais espertos que aqueles, entretanto, a recompensa dos filhos da luz é o Céu. Dando claras demonstrações de que a obra empreendida era de Deus, Dom Vital manteve-se sempre sereno durante o julgamento; suas palavras foram apenas: “Jesus autem tacebat”[10]. De fato, aquele circo armado em muito era semelhante ao circo armado em forma de tribunal para condenar Jesus. Dom Vital era julgado por agir no poder temporal, mas tinha deixado bem claro que o interdito à Irmandade do Santíssimo Sacramento era puramente eclesiástico. O tribunal do Império caía na própria armadilha, pois entrava no direito eclesiástico, que não era, obviamente, de sua competência. Todavia, a acusação era mero acidente. O objetivo era condenar, na pessoa de Dom Vital, a luta empreendida pela Igreja contra a maçonaria; foi, de fato, a peleja do diabo com o Dono do Céu.


Dom Vital foi, enfim, condenado a quatro anos de trabalhos forçados, e transferido para a Fortaleza de São João. Ao receber a sentença, não demonstrou qualquer sinal de reprovação, sabia que seu ato de fé levaria à fé muitos dos seus irmãos. Feito prisioneiro, os jornais maçônicos de Recife cantaram vitória pensando que o bispo abandonaria o seu rebanho; mas, como Bom Pastor, Dom Vital exortou o seu povo: “Estou na prisão: não é por isso que estou liberado da minha missão. Podem me deportar para uma ilha deserta, privar-me de todo meio de comunicação convosco, acorrentar-me no fundo de uma masmorra, serei sempre vosso bispo”[11]. E mais: consagrou a sua diocese ao Sagrado Coração de Jesus, para que seu povo jamais se esquecesse de que é do Coração de Jesus que brota a paz, e não da covardia de ceder aos inimigos da Igreja e das almas.


Dom Antônio Fernando Saburido, em sua posse como Arcebispo de Olinda e

Recife, com o Báculo que pertenceu a Dom Vital


Os abaixo-assinados eram abundantes, não cessavam as listas repletas de milhares de assinaturas. Brasileiros de todas as condições estavam com o bispo, estavam com Cristo. Espalhou-se o rumor de que o conde d’Eu e a Princesa Isabel interviriam junto ao Imperador[12]. Não se tem certeza disso, mas o que aconteceu foi que em 17 de setembro de 1875 os bispos de Olinda e do Pará[13] foram anistiados. A multidão jubilosa pôs-se à frente da Fortaleza de São João; mal o bispo de Olinda despontou às portas, a multidão irrompeu em aplausos e vivas. Apressou-se em falar ao seu rebanho: “Vos sofrestes o ódio dos maus; mas a perseguição vos enrijeceu. Ela permitiu distinguir o verdadeiro pastor que dá a vida por suas ovelhas do mercenário que só lhes tira o leite ou o tostão. Ela discerniu o verdadeiro cristão do falso irmão”[14]. Partiu para Roma a fim de relatar pessoalmente ao Vigário de Cristo toda a batalha empreendida no Brasil, a qual ainda não se findava. Em uma das muitas audiências com Pio IX, o Santo Padre assim disse ao prelado: “Eu aprovo tudo o que fizestes desde o início, com firmeza; vossa conduta foi a de um verdadeiro bispo; vós cumpristes vosso dever com coragem e prudência até o fim”[15].


Volta, enfim, à sua amada diocese. Volta ao lugar do qual foi arrancado pelos ímpios inimigos da Igreja de Cristo. Acolhido efusivamente pelo povo, no dia seguinte celebrou pontificalmente na igreja de São Pedro e dizia: “A violência pôde me arrancar do meio de meus filhos, ela não pôde chegar aos seus fins. Não! Jamais vossa lembrança me deixou; na solidão da minha prisão, eu pensava em vós dia e noite, eu me preocupava com a vossa salvação”[16]. O coração de pastor batia forte, mais forte que as hostes inimigas; pulsava e ansiava só por uma coisa: a salvação das suas ovelhas. Nem mesmo a morte o separaria da sua missão. Empreendeu, pois, a tão desejada visita às paróquias da sua vastíssima diocese; mesmo sentindo-se mal, não quis ficar preso no Recife vitimado por uma doença.


A Província de Pernambuco não lhe possibilitava meios para tratamento; decide, então, partir para a França a fim de se tratar. Pretendia renunciar à diocese, pois não tinha mais capacidades físicas para seguir. Desejava voltar à vida de frade, mas o Papa não aceitou a sua renúncia. Chegou ao convento de Paris tão debilitado que era perceptível que em breve morreria. Pairava a suspeita de envenenamento. O próprio bispo acreditava ter sido posto arsênico na parede e decoração de seu quarto na prisão. Isso não era um sentimento unicamente do bispo, mas do seu vigário geral e dos seus confrades, além disso, era sentimento do doutor Ozanam após a sua morte[17].


Túmulo de Dom Vital na belíssima Basílica da Penha, no Recife


Dom Vital demonstrou em todos os momentos qual deve ser a fidelidade de um homem de Deus: foi frade obediente, foi bispo valente e, em seu leito, muito doente, não poderia ser diferente: quis morrer na pobreza que é o que confere ao frade a nobreza. Não reclamava, pediu apenas os últimos sacramentos. Os tormentos aumentaram a tal ponto que o bispo disse ao Irmão Vicent que aquilo era envenenamento. O inimigo maior parecia lhe atormentar no leito de morte, pois o mesmo irmão relata que ali ele expulsava o demônio[18].


Ofereço minha vida a Deus por minha igreja de Olinda”. Em 4 de Julho de 1878, com trinta e três anos, entregou piedosamente sua alma a Deus. Morreu o bispo, nasceu o herói. Seu corpo, paramentado, foi exposto à visitação, Missas foram celebradas e o Mons. de Ségur pronunciou as últimas orações fúnebres. Algum tempo depois seus restos mortais foram transportados para o Recife, onde repousa até hoje na Basílica da Penha esperando o glorioso dia da ressurreição. Um bispo voando de Cajado e Mitra é Dom Vital, que morreu e vai para o Céu[19]. A Igreja de Olinda viu seu pastor lutar como um herói e morrer como santo; agora, viúva, órfã, suas copiosas lágrimas lavam as almas e clamam justiça à história, que mais cedo ou mais tarde não hesitará em proclamar: Dom Vital foi um herói!


Dom Vital não pensava em si, mas só em Deus e naqueles que Deus lhe confiou; não se importava com o veneno que lhe roubava a vida, pois a ela não era apegado; importava-se, porém, com o veneno que arrasava as fileiras católicas e roubava a vida eterna dos seus fiéis, condenando-os ao inferno. A esse veneno Dom Vital combateu veementemente com todas as suas forças, com as forças que Deus lhe deu. O santo bispo de Olinda morreu defendendo a Igreja. A Cruz não se verga ao esquadro e compasso, a Cruz vence, a Igreja vence, Cristo vence. Tempora bona veniat[20].



ORAÇÃO PELA BEATIFICAÇÃO DO SERVO DE DEUS

DOM VITAL MARIA GONÇALVES DE OLIVEIRA:


À Santíssima Trindade pela beatificação e canonização de Dom Vital:


Ó eterno, Divino Pai, pelos merecimentos do vosso Unigênito, peço-vos glorifiqueis nesta terra o vosso servo Dom Frei Vital Maria, concedendo-me a graça que vos imploro na minha presente necessidade (menciona-se a graça em silêncio).

Ó eterno, Divino Filho, pelos merecimentos da vossa paixão e morte, peço-vos glorifiqueis nesta terra o vosso servo Dom Frei Vital Maria, concedendo-me a graça que ardentemente desejo (menciona-se a graça em silêncio).

Ó eterno, Divino Espírito Santo, pela vossa infinita caridade, peço-vos glorifiqueis nesta terra o vosso servo Dom Frei Vital Maria, concedendo-me a graça de que tanto necessito (menciona-se a graça em silêncio).

(Reza-se por fim um Pai Nosso, Ave Maria e um Glória ao Pai)[21].



Autor:

[1] Tradução: se queres paz, prepara a guerra [2] Rm 8, 35 [3] (cf. Sl 89, 6) [4] (cf. I Cor 2, 9) [5] Dom Vital (Antônio Gonçalves de Oliveira) : Frade Menor Capuchinho, Bispo de Olinda / por Pe. Louis de Gonzague. – Rio de Janeiro: Ed. CDB, 2019. p. 202 [6] Ibdem. p. 203 [7] Dom Vital, o Atanásio brasileiro. – São Paulo-SP: Castela Editorial, 2020. p. 81 [8] Ibidem, p. 204 [9] Dom Vital (Antônio Gonçalves de Oliveira) : Frade Menor Capuchinho, Bispo de Olinda / por Pe. Louis de Gonzague. – Rio de Janeiro: Ed. CDB, 2019. p. 208 [10] Tradução: “Jesus, porém, ficou calado” (Mt 26, 63) [11] Ibidem. p. 249 [12] Ibidem. p. 281 [13] Dom Macedo Costa também havia sido condenado por causa da luta empreendida contra a franco-maçonaria na sua diocese. [14] Carta Pastoral de 24 de Setembro de 1875 [15] Dom Vital (Antônio Gonçalves de Oliveira) : Frade Menor Capuchinho, Bispo de Olinda / por Pe. Louis de Gonzague. – Rio de Janeiro: Ed. CDB, 2019. p. 291 [16] Ibidem. p.306 [17] Ibidem. p. 335 [18] Ibidem. p. 345 [19] Dom Vital, o Atanásio brasileiro. – São Paulo-SP: Castela Editorial, 2020. p. 141 [20] Tradução: Os bons tempos virão - Retirado do hino Christus Vincit [21] Com aprovação eclesiástica: Esta oração é para uso privado, em nada pretendendo antecipar à autoridade da Igreja, à qual, unicamente, compete pronunciar-se sobre a santidade de Dom Vital.