Ecclesia de Eucharistia

O título dessa partilha não poderia ser outro. Por isso, faço eco às palavras com as quais São João Paulo II, em 2003, iniciou a sua encíclica sobre a relação da Eucaristia com a Igreja, sintetizando: “A Igreja vive da Eucaristia” (cf. n. 1).


Eu me chamo Luiz Octávio, sou seminarista do 3º ano de Teologia da Arquidiocese de Brasília. Juntamente com os outros seminaristas do Seminário Nossa Senhora de Fátima, estou recolhido na casa de meus pais desde meados de Março, quando o Seminário, devido às implicações da pandemia do Covid-19, decidiu suspender temporariamente as atividades. Nesse tempo, tenho tido a graça de participar diariamente da Santa Missa, de forma presencial, pois meu pároco me solicitou auxiliar, pelo apoio musical, as transmissões diárias.

Gostaria que essas linhas fossem o lugar do transbordamento da minha meditação desses dias e semanas de Missas privadas e das comunhões que tenho feito; que, saídas da intimidade de um coração em preparação para a configuração sacramental a Cristo sacerdote, traduzissem aquilo que vai carregado aqui no íntimo, e bradassem que a Igreja vive da Eucaristia, da presença real, viva e ressuscitada de Nosso Senhor à qual todas as almas podem acorrer para serem nutridas, para descansar; que os católicos, nesse tempo, não estão sozinhos, à deriva dos acontecimentos históricos, mas contam com a oração e o zelo de seus pastores, os Bispos e padres, e, ainda antes deles e como sua causa, com o amor eterno de Nosso Senhor, o Bom Pastor. Nossa Senhora, Mãe de Jesus Cristo e da Igreja, a quem consagro essas palavras, interceda por mim e pelos leitores, e tudo dirija para a glória de Seu Filho.

O “Deus escondido” e o “sinal levantado da terra”


O Deus escondido: a presença consoladora de Nosso Senhor na Eucaristia

Em primeiro lugar, um comentário sobre o “Deus escondido”: o adjetivo “escondido” foi utilizado por muitos Santos para se referirem à presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia: Ele é o “Deus escondido” sob os acidentes do pão e do vinho transubstanciados em Seu Corpo e Sangue.

São Paulo, escrevendo ao Colossenses, diz que a nossa vida está “escondida”, com Cristo, em Deus (cf. Cl 3, 3), sinalizando que as coisas que os cristãos devem amar e buscar são aquelas do alto, e não as da terra.

“Deus escondido” e “vida escondida”: haveria relação entre eles? Não é verdade que aquilo que é sentido por muitos fieis como “escondimento” de Deus durante esse tempo de pandemia, é em alguma medida causa de seu sofrimento e sentimento de desolo? Como, então, amar e buscar o “Deus escondido” e nossa “vida escondida” com Ele?

Antes, convém recordar que foi no escondimento que os mistérios mais sublimes da nossa redenção foram realizados, e que esse é um modo especial da ação Divina para suscitar a fé nos simples de coração, naqueles que estão humildemente prostrados diante da autoridade da Sua Palavra e a ela se confiam: foi no escondimento da vila de Nazaré que o Arcanjo Gabriel anunciou à Virgem Santíssima e ouviu dela o “faça-se” por meio do qual o Amor entrou no mundo; foi no escondimento da gruta de Belém que Deus escolheu nascer; foi no escondimento do exílio no Egito que viveu seus primeiros anos nessa terra; foi no escondimento da vida humilde e devotada ao trabalho, em Nazaré, que viveu até o início de sua vida pública; foi no escondimento de uma província longínqua do Império Romano que o Deus e Homem verdadeiro imolou o seu corpo como hóstia agradável ao Pai, na Cruz; foi no escondimento de uma sala fechada que o Cristo ressuscitado apareceu pela primeira vez aos onze reunidos, na tarde da Ressurreição; é do escondimento eucarístico, encerrado nos sacrários do mundo inteiro, que Nosso Senhor, vivo e ressuscitado, cumpre a Sua promessa de permanecer junto de nós até a consumação dos séculos.

O “mistério do escondimento”: Deus se oculta aos nossos sentidos para fazer-se acessível à nossa fé.

Dia após dia, durante esse tempo de pandemia, a Missa parece “escondida” porque oferecida de modo privado, sem a participação da assembleia; muitos, à luz desse escondimento, podem pensar, desolados, na ocultação de Deus. No entanto, Jesus, na Eucaristia, continua a repetir-nos, desde o altar do sacrifício e desde os tabernáculos, “insensatos e lentos de coração para crer” (cf. Lc 24, 25), “por que duvidastes?” (cf. Mt 14, 31). “Tendes fé em mim” (cf. Jo 14, 1). “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim, nunca mais terá fome, e o que crê em mim nunca mais terá sede [...] aquele que de mim se alimenta viverá por mim” (cf. Jo 6, 35.57).

“A Igreja vive de Jesus eucarístico, por Ele é nutrida, por Ele é iluminada. A Eucaristia é mistério de fé e, ao mesmo tempo, «mistério de luz». Sempre que a Igreja a celebra, os fiéis podem de certo modo reviver a experiência dos dois discípulos de Emaús: «Abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-No» (Lc 24, 31). (cf. n 6)”

É na Eucaristia e na celebração da Santa Missa que se recapitula e atualiza a nossa salvação, é diante da presença real que se descerram nossos olhos e somos chamados a adorar, render graças, suplicar e pedir perdão pelas nossas transgressões. Quanto consolo há em meditar na promessa de Nosso Senhor de permanecer sempre junto de nós. Nenhum dia sem a Eucaristia! Nenhum dia sem a Santa Missa! Nenhum dia sem a presença consoladora de Jesus Cristo! “Eu creio, Senhor, mas ajuda a minha incredulidade” (cf. Mc 9, 24).

O “Deus escondido” permanece na Eucaristia como nosso alimento espiritual, como dom para nós, a fim de alimentar em nós a vida que Ele mesmo nos deu e que em nós foi iniciada no Batismo e há de se desenvolver até a união definitiva com Ele, no Céu, no Alto, onde São Paulo nos recordava que a nossa vida está escondida. Nosso Senhor Jesus Cristo permanece para nós na Eucaristia a fim de nutrir-nos para que estejamos também unidos a Ele. Nenhum dia sem a Eucaristia! Nenhum dia sem a Santa Missa! Nenhum dia sem a presença consoladora de Jesus Cristo!

“Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, os perigos, a espada?” (cf. Rm 8, 35) E talvez pudéssemos acrescentar nesses tempos: a pandemia? E oxalá prosseguíssemos: “Estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem os poderes, nem a altura, nem a profundeza, nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor” (cf. Rm 8, 38-39).

O Filho do Homem levantado da terra: o Calvário, a Missa e o sinal universal de salvação

“O mistério escondido desde os séculos e desde as gerações, agora foi manifestado aos santos” (cf. Cl 1, 26). Se, por um lado, meditávamos acima sobre o “mistério do escondimento”, ousemos agora voltar os olhos da fé para a manifestação de Deus.

Nosso Senhor disse que o Filho do Homem seria levantado da terra como um sinal a atrair todos para Si (cf. Jo 3, 14s; 12, 32). Aquele ato sublime de amor pelo qual consumou a oblação de Si mesmo no Calvário, e que havia antecipado sacramentalmente na Última Ceia pela instituição da Eucaristia, é o que Nosso Senhor estabelece como memorial e ordena que seja repetido pelos sacerdotes que acabara de ordenar: eis a Santa Missa, a atualização incruenta do único, suficiente e superabundante sacrifício da nossa redenção.

A Cruz sagrada portando o Filho do Homem foi erguida acima das nações, acima de todo o mundo e do tempo como sinal universal de salvação a fim de que nenhum homem, de nenhuma época e lugar se visse sem remédio para a própria indigência, mas, olhando para aquele que foi transpassado (cf. Zc 12, 10), tivesse confiança no amor eterno de Deus, pois, “quem não poupou seu próprio Filho e o entregou por todos nós, como não nos haverá de agraciar em tudo junto com ele?” (cf. Rm 8, 32).

“Mesmo quando tem lugar no pequeno altar duma igreja da aldeia, a Eucaristia é sempre celebrada, de certo modo, sobre o altar do mundo. Une o céu e a terra. Abraça e impregna toda a criação. O Filho de Deus fez-Se homem para, num supremo ato de louvor, devolver toda a criação Àquele que a fez surgir do nada.” (cf. n. 8).

A Missa no “altar do mundo” ou, poderíamos dizer durante esse tempo de pandemia, “no palco do mundo”: sim, quantas Santas Missas transmitidas nas redes sociais, nos meios de comunicação, no mundo inteiro; desde as catedrais vazias até às simples capelas das casas canônicas, quantos sacerdotes a oferecer o Sacrifício da Missa por si, pelo rebanho que lhe foi confiado, pela Igreja e pelo mundo inteiro. Não estão as redes sociais e os meios de comunicação, os areópagos do mundo pós-moderno, impregnados também da Palavra Divina e do sinal redentor de Cristo quando tantas Missas são aí transmitidas? Não continua a ser esse um modo pelo qual o Filho do Homem permanece erguido a nossos olhos?

É um grande consolo para as nossas almas saber que estamos inseridos na oração de Jesus, oração que envolve toda a criação, que une o céu e a terra, como nos recordava São João Paulo II no trecho da Encíclica citado acima.

Se, por um momento, foi permitido pela Divina Providência que estejamos afastados fisicamente da celebração da Missa, da recepção da Eucaristia, enfim, dos atos públicos do culto, tenhamos a certeza que esse é um afastamento apenas relativo e aparente, pois onde há uma alma católica recordada das verdades de fé, recordada do amor de Deus manifestado na Eucaristia e na Missa, combativa e ardente pelo testemunho de virtude em meio às tempestades a que estamos sujeitos enquanto exilados nessa terra, aí está a paz pelo cumprimento da vontade de Deus em todas as coisas, mesmo quando essa vai realizada em nós à custa de sofrimento.

Do íntimo do nosso “escondimento” interior, onde a presença mesma das Três Divinas Pessoas são a nossa “vida escondida” peçamos luzes e graças de fé, de esperança, de caridade, as demais virtudes, os dons do Espírito Santo, a fim de combatermos o bom combate da fé, dando bom exemplo, manifestando em nossa vida, configurada a Jesus Cristo e erguida como sinal, o mistério de amor que nos resgata, envolve, eleva e guarda aqui e para sempre. Amém.


Autor:


Pastores Dabo Vobis
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