Eu prefiro o Paraíso!


Em seu artigo “A juventude da Igreja”[1] escrito em 1922, o jornalista inglês Gilbert Keith Chesterton descreveu bem a resiliência da Igreja Católica ao longo de toda a sua história, mesmo com as inúmeras investidas mundanas e as ilusórias reformas. Em sua opinião, nem mesmo a moderna necessidade do homem de buscar e inventar razões para não ser católico tem impedido a Igreja de realizar o seu primoroso dever de mestra e mãe da humanidade. A Igreja sempre se reestabeleceu, com ainda mais vitalidade, na linha de frente dos mais diversos combates. Em virtude disso, Chesterton a considera sempre jovem, “gloriosa, sem mancha nem ruga"[2], repleta do espírito vigoroso próprio da juventude. É, portanto, uma religião que se recusa estar entre as peças de um antiquário, pois “rejuvenesce subitamente, quando se espera que envelheça vagarosamente”.


Esse rejuvenescimento, porém, não é desordenado, assim como uma verdadeira reforma não se dá pela alteração dos alicerces e princípios, nem por considerar o antigo como algo obsoleto e descartável somente por parecer incompreensível ou não mais praticável. Não pode ser a verdade a se moldar à fraqueza e à debilidade humana, mas estas a se dobrarem humildemente diante do inexprimível. Portanto, se a mentalidade e a cultura de determinado momento não conseguem abarcar os valores católicos e o seguimento integral a Cristo, que se altere o peregrino, mas não o caminho[3]. Essa dinâmica do rejuvenescimento foi compreendida pelos santos ao longo da história: uma fé inabalável na promessa da solidez da Igreja[4], uma esperança certa na ressurreição[5], e uma caridade ardente que ama com o amor que brota do coração do próprio Cristo[6]. Assim, as verdadeiras reformas são aquelas realizadas pelos santos, haja vista ser a própria luz de Cristo – a qual brilha fulgurante em cada um deles – que continua servindo de referência e bússola para a Igreja.


Entendendo que precisavam lutar com unhas e dentes, ou melhor, ser triturados como trigo “pelos dentes das feras para se tornar o puro pão de Cristo”[7], o século XVI viu surgir santos da magnitude de Teresa d’Ávila, Pedro de Alcântara, João da Cruz, Camilo de Lélis, Inácio de Loyola, Francisco Xavier, Carlos Borromeu, Papa Pio V, Francisco de Sales e Filipe Neri[8]. Um século que estava consagrado ao orgulho, às honrarias humanas, à decadência moral e aos escândalos eclesiais necessitava de uma reação proporcional. Assim, em ocasião da memória hoje celebrada, convém refletir especialmente sobre aquele que – em meio a um enredo trágico e dramático – representou e testemunhou à humanidade o “sorriso de Deus”.


Nascido em 21 de julho de 1515[9] na cidade de Florença, fruto de uma piedosa família cristã, desde muito novo o “Pippo buono”[10] cativava todas as pessoas que se deparavam com sua marcante personalidade: afável, de temperamento vivo e inclinado às brincadeiras. Mesmo com a perda da mãe com ainda 5 anos de idade, e a repentina mudança de cidade – de uma conturbada Florença em conflitos políticos a uma calma San Germano, em que era aprendiz de seu tio no comércio –, Filipe jamais perdeu o gosto pela vida contemplativa. E foi justamente a frequente meditação do Evangelho e as horas de oração que o fortaleceram no desejo de querer oferecer tudo a Deus. Renunciou à carreira que construiria, e se dirigiu à Cidade Eterna, onde seria reconhecido como o “Apóstolo de Roma” e uma das figuras mais importantes da reação ao protestantismo.


Ao se deparar com uma Roma paganizada e uma situação de intensa pobreza devido às invasões e saques do Imperador Carlos V, logo Filipe entendeu que necessitava exteriorizar a sua vida interior. E assim o fez na assistência aos doentes e órfãos, em pregações nas ruas – no mais belo formato de conversas aparentemente despretensiosas, mas que acertavam com docilidade cada coração –, e em devoções públicas, as quais seriam aderidas por muitos participantes, como as “visitas às Sete Igrejas”[11]. Essa fase de sua vida ilumina a moderna confusão acerca da “santidade universal” – por vezes interpretada como uma tíbia e descompromissada adesão a Cristo –, haja vista ainda em um ardente desejo pela vida laical, Filipe Neri estabeleceu a si essa violenta rotina de trabalho, estudo e oração.


Já sacerdote, correspondeu bem à configuração ao Cristo Bom Pastor, não só pelo sagrado zelo para com os fiéis. Desejava intensamente formar as pessoas que se aproximavam, dando a elas um seguro direcionamento espiritual. Assim, o Padre Filipe Neri reunia-se informalmente com seus penitentes e amigos, no que seria reconhecido canonicamente em 1575 como a Congregação do Oratório[12]. Essas reuniões consistiam em momentos de espiritualidade com as Sagradas Escrituras, partilhas, apresentações musicais, visitas ao Santíssimo Sacramento e atendimento aos enfermos e irmãos de rua. O apostolado cresceu e começou a atrair intelectuais, personalidades da época – como Giovanni Animuccia e Palestrina –, além de Padres e Bispos. Ademais, não só a alta hierarquia do clero participava, mas jovens que futuramente seriam criados Cardeais e eleitos Papas, como Gregório XIII e Clemente VIII.


Em tempos de confusões entre materialistas e puritanos – não só reservadas ao momento atual da história –, iluminada pelo testemunho dos santos, a Igreja responde à aparente contradição entre o humano e o divino. São Filipe Neri é um típico exemplo de alguém que bem compreendeu essa tensão: ao mundo testemunha a compatibilidade entre o paradoxo humano vivido pelos cristãos no Tríduo Pascal – experimentar a mais austera tristeza, sabendo que gozará da gloriosa alegria; aos cristãos, faz o clamor, em forma de denúncia, de que o equilíbrio da santidade se baseia na radicalização das duas extremidades. Olhar para a vida deste santo é contemplar uma humanidade intensamente humana e uma espiritualidade extraordinariamente tomada pela graça de Deus.


Filipe Neri foi, de fato, um incansável homem de ação com uma primorosa base contemplativa[13], a qual o fazia entender que era cidadão do céu[14]. Alguém que soube ser somente peregrino nesta terra[15], não como os que sequer são notados – tamanha falta de sabor –, mas que impregnava a cidade de Roma com o bom odor de Cristo[16] e com as suas sutis denúncias: “Então, caro amigo, quando é que começaremos a amar a Deus?”[17]. Era uma seta que animava doentes, moribundos e monótonos e desesperançosos cristãos, apontando constantemente para o “paraíso, paraíso”. Um homem desprendido da própria vontade em favor do ardente amor a Cristo e à Igreja. Não cabe neste simples texto de blog relatar todas as notáveis virtudes deste santo, mas faz-se menção àquelas duas que mais foram o remédio de Deus para o século e que parecem ser novamente indispensáveis nas confusões modernas.


Filipe Neri não cultivava nenhuma estima sobre si mesmo, e buscava combater o orgulho na extremidade mais radical: zombando de si mesmo. Severo consigo nas penitências corporais e adorável com seus filhos espirituais, ele ensinava na prática que a grande via da santidade se baseava na aceitação sorridente das humilhações que a ele faziam. Além de recusar as ofertas de altos cargos eclesiais, dispensava qualquer tratamento solene e formal. Sem sombra de dúvida era a humilde estima de si que lhe fazia silenciar e não se envaidecer diante da mística e dos fatos sobrenaturais que o cercava, como antecipações de confissão, curas, milagres, profecias e intensas palpitações e aquecimento do coração quando celebrava os Sacramentos. A humildade não o permitia se esquecer do homem velho que adormecia em si, fazendo com que constantemente pedisse “Senhor, hoje toma conta de mim. Tenho medo de trair-te”[18], “ponha a mão em minha cabeça, pois Filipe é capaz de cada coisa”.


Com suas palhaçadas e brincadeiras, o santo da alegria contagiava as pessoas, além de retirar os olhares que se direcionavam a contemplar seus dons e virtudes. O bom humor e o riso fácil sobre si e sobre as coisas simples da vida faziam com que atraísse à sua companhia pessoas de todos os tipos e classes sociais. Conservou durante toda a vida aquela pureza no olhar próprio das crianças, que conferiam a si uma bondade e uma amabilidade extraordinárias. Resplandecia a plena alegria[19], que brota da intimidade com Cristo, e que antecipava o céu para si e para toda a cidade de Roma. Fazia questão de ser notado como um homem comum, mesmo por aqueles que conheciam a extraordinária ação da graça nele. Para confrontar o louvor às honrarias humanas que brotava dos Palácios e da alta hierarquia do clero, escolheu ser o bobo da corte, brincalhão, alguém que não se levava a sério, pois estava preenchido pela certeza de que de Deus viria a plena recompensa, o paraíso. “Paradiso, Paradiso, preferisco il paradiso”, repetia insistentemente.


Filipe Neri não foi somente uma luz colocada sobre o candeeiro[20], foi um homem em chamas, sedento por consumir todos os cristãos sem vida que se colocassem em seu caminho, instrumento da eficácia sem limites do Espírito. De fato, a bola de fogo que lhe entrara pela boca em seu “Pentecostes pessoal” nas Catacumbas de São Sebastião em 1544 – além de romper algumas costelas para abrigar o novo e dilatado coração inteiramente de Cristo – lhe conferiu no corpo o intenso calor que já sentia na alma. Desde a sua primeira Missa – oferecida em 23 de maio de 1551 –, diariamente celebrava com devoção e piedade, gerando conversões a partir do maior tesouro católico. As incontáveis horas dedicadas ao Sacramento da Reconciliação o fizeram ser um exímio apóstolo da confissão. De um convicto católico desejoso pelo laicato a um primoroso testemunho sacerdotal; um Padre que se preocupava com o essencial ao sacerdócio. Seguramente, teria sido essa intensa vida dedicada a uma sincera espiritualidade que lhe concedeu a fé inabalável diante de diversas provações, e a fortaleza necessária para sofrer pacientemente todas as perseguições direcionadas a si e ao Oratório: calúnias, desconfianças e proibições eclesiais serviram apenas para purificar o coração e a intenção daquele que as aceitava serenamente com a habitual alegria e bom humor.


Para encerrar essa simples e talvez já cansativa homenagem a São Filipe Neri, convém retornar ao artigo com o qual esse texto foi iniciado, a fim de conferir novamente à Igreja a centralidade desse texto. Por que? Pois a vida dos santos só se torna de fato um testemunho quando suas luzes se apagam diante do farol luminoso para a humanidade que é a Igreja. Impulsionados pelo Espírito são capazes de morrer para si em busca de uma recompensa sobre-humana, mas que se inicia na humana submissão à Igreja. Eles entram em contradição com o mundo: à idolatria da vida terrena, o martírio; à decadência moral, a castidade; ao louvor às certezas científicas, as noites escuras da fé; ao desprezo pelo diferente, o beijo no leproso; à arrogância e ao desejo por poder, uma humilde e servil obediência. Deus suscita santos dispostos a confundir o mundo. Em uma Europa paganizada e devota dos prazeres e das formalidades e honrarias, o bom humor e o simples e humilde sorriso de Filipe Neri. E assim Deus continuará contrariando o espírito mundano e reestabelecendo a Igreja nos santos, pois “onde o catolicismo é expulso como uma coisa antiga, ele sempre volta como uma coisa nova”[21].


São Filipe Neri, rogai por nós![22]

[1] CHESTERTON, Gilbert Keith. Todos os caminhos levam a Roma. Editora Oratório, 2012, pp.17-35 [2] Ef 5, 27 [3] Cf. Jo 14, 6 [4] Cf. Mt 7, 24 [5] Cf. Jo 14, 2-3 [6] Cf. Jo 15, 9-13 [7] Cf. Homilia de Santo Inácio de Antioquia – “Sou trigo de Deus e serei moído pelos dentes das feras” [8] As fontes relatam que Filipe Neri teve contato direto com Inácio de Loyola, Carlos Borromeu, Camilo de Lélis e o Papa Pio V, o qual promoveu perseguições à obra fundada por Filipe. [9] No mesmo ano nascia Teresa d’Ávila na Espanha [10] Assim era chamado em família, devido à sua facilidade para conquistar os corações das pessoas [11] Estabeleceu para si o costume de visitar as chamadas “Sete Igrejas”, as grandes basílicas da cristandade: São Pedro, São Paulo Extramuros, São Sebastião, São João de Latrão, a igreja da Santa Cruz de Jerusalém, São Lourenço e Santa Maria Maior. De uma simples visita pessoal para adoração, tornou-se uma grande devoção aderida por inúmeras pessoas. [12] https://www.oratoriosanfilippo.org/congregazioni/ [13] Sulco, n.452: “Sem dúvida, deves seguir o teu caminho: homem de ação...com vocação contemplativa”. [14] Cf. Fil 3, 20 [15] Cf. 1Pd 2, 11 [16] Cf. 2Cor 2, 15 [17] Cf. XIMENES, Guilherme Sanches. Filipe Neri, o sorriso de Deus. cit. p.74 [18] Cf. XIMENES, Guilherme Sanches. Filipe Neri, o sorriso de Deus. cit. p.55 [19] Cf. Jo 15, 11 [20] Cf. Mt 5, 15 [21] CHESTERTON, Gilbert Keith. Todos os caminhos levam à Roma. cit. p.30 [22] Filipe Neri faleceu na madrugada de 26 de maio de 1595, após ter celebrado a Solenidade de Corpus Christi no dia anterior. Foi elevado aos altares no dia 12 de março de 1622 pelo Papa Gregório XV, junto com Santo Isidoro Lavrador, Santo Inácio de Loyola, Santa Teresa d’Ávila e São Francisco Xavier.


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Pastores Dabo Vobis
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