Férias: tempo de descansar em Deus

As férias são um tempo propício ao descanso. Um direito de todo trabalhador e estudante. Porém, esse período do ano não pode ser confundido com o ócio, que, além de não descansar o corpo, coloca a alma em situação próxima de pecado.


A figura do rei Davi nos ajuda a compreender isso. Pouco antes de cometer o grande pecado de sua vida – adultério com Betsabeia e o homicídio de Urias –, ele estava em uma situação de ócio. Era época de guerra, o seu exército estava lutando e ele, como rei, deveria estar no campo de batalha; no entanto, “Davi ficou em Jerusalém1.



As atitudes seguintes de Davi comprovam como o ócio representa um grande risco à alma: “Aconteceu que, numa tarde, Davi, levantando-se da cama, pôs-se a passear pelo terraço do palácio, e do terraço avistou uma mulher que tomava banho. E era muito bela a mulher...”2. Davi, então, deitar-se-á com ela (Betsabeia), que conceberá, e para ocultar o seu pecado, Davi assassinará Urias (marido de Betsabeia).


Por causa da grande quantidade de tempo livre durante as férias, elas correm o risco de se converterem em um enorme convite ao ócio; assim, o que deveria ser uma continuidade na vida espiritual, pode se tornar uma ruptura e um regresso. Por isso, o cristão precisa compreender que com as férias não cessam os deveres, e não se trata de um tempo no qual apenas se desfruta de direitos. Há a necessidade de cultivar a vida espiritual também durante o período de férias, e a virtude da ordem é uma grande aliada nesse processo.


O cristão deve planejar suas férias segundo uma escala de valores, em que no primeiro lugar permanecem os deveres para com Deus: devemos amar a Deus sobre todas as coisas. Diante disso, fazendo uma adaptação ao texto do Evangelho de São Marcos (8, 36), poderia ser feito o seguinte questionamento: “de que serve ao homem viajar e conhecer o mundo inteiro se vier a perder a sua alma?”. Depois, deve-se observar os deveres de estado, obrigações que nascem, por exemplo, de sua posição na família (pai, mãe, irmão, marido, mulher) e na sociedade. O tempo livre não pode ser usado de maneira egoísta, voltado apenas para os próprios interesses, deve também ser utilizado de maneira generosa em favor do próximo. Por último, deve-se observar outros deveres, como o cuidado com a saúde, o descanso, a cultura, o esporte, o relacionamento social e a solidariedade.


O ‘descanso’, no entanto, precisa ser compreendido de maneira correta. A palavra “descansar” significa livrar-se de fadiga ou de aflição. Todavia, para o cristão, ela possui um significado mais profundo, deve ser entendida sob uma ótica espiritual, na qual o fiel entende que não só o seu corpo necessita de repouso, mas também a sua alma, cujo descanso depende da confiança em Deus e do relacionamento com Ele.

O cansaço sempre acompanhará a vida terrena do homem, daí que sempre será muito atrativo sonhar com as férias e planejá-las. Nesse planejamento é essencial que se considere o homem na sua totalidade, corpo e alma, pois se a alma não descansar nas férias, o corpo voltará cansado.


O bom católico não planeja suas férias com vistas apenas ao descanso do corpo: viagens, praias, visitas a parentes ou assistir dezenas de seriados na Netflix. A sua principal preocupação em uma viagem, por exemplo, deve ser a de pesquisar onde poderá participar da Santa Missa, ao menos aos Domingos. As férias não podem ser usadas como desculpa para colocar Deus em segundo plano, pelo contrário, Ele deve ser sempre a nossa primeira escolha.


O descanso do corpo não pode resultar no cansaço da alma, isto é, no pecado. É lastimável o estado de muitas almas ao voltarem do período de férias, após entregarem-se a experiências pecaminosas sob o pretexto de uma necessidade de relaxamento. Muitos fieis retornam desse período com uma desordem interior ainda maior, fruto do pecado cometido, que agrava cada vez mais a concupiscência desordenada.


O cristão que vive de forma coerente a sua fé confia nas palavras de Jesus e busca n’Ele o seu descanso: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso3. De fato, o jugo de Cristo é suave e seu fardo é leve, e é Ele mesmo quem nos ajuda a carregar o pesado fardo que muitas vezes o mundo e o pecado colocam sobre os nossos ombros. Com essa confiança, o cristão, ao planejar as suas férias, coloca Deus em primeiro lugar e faz delas um verdadeiro tempo de reflexão, enxerga nelas uma oportunidade para se aproximar ainda mais de Deus. Talvez até perceba a necessidade de fazer nesse período um retiro pessoal. Dessa forma, percebe que não é apenas o seu corpo que precisa de descanso, mas também a sua alma.


Assim, o cristão precisa compreender que o período de férias não é uma ruptura na sua caminhada rumo à santidade, mas uma continuidade, ainda que de uma forma diferente. É nesse período que todo o crescimento espiritual aparente será provado e poderá, ou não, mostrar-se autêntico e maduro, ou mesmo amadurecer.


Aquele jovem que ao longo do ano desenvolveu o hábito de participar da Santa Missa diariamente, durante as suas férias será confrontado e descobrirá se seu amor eucarístico cresceu de fato ou se é facilmente trocado diante da primeira possibilidade de lazer. Nas férias, quando se tem a tentação de acreditar que “todo o tempo é meu e posso fazer dele o que eu quiser”, o católico descobre o quanto está disposto a se sacrificar por amor a Cristo, o quanto sua vida cristã é autêntica e quão profundo está o seu amor por Jesus, se de fato O ama sobre todas as coisas, dando a Ele toda a prioridade em sua vida.


Portanto, cabe a nós fazer deste período de férias um momento de continuidade e de crescimento na vida espiritual, pois, como dizia São Josemaria Escrivá, “a santidade, o verdadeiro afã por alcançá-la, não faz pausa nem tira férias” 4. Então, seja qual for o grau a que você chegou, saiba que o que importa é prosseguir decididamente5, contando sempre com o auxílio da Santíssima Virgem Maria.



1 2Sm 11, 1

2 2Sm 11, 2

3 Mt 11, 28

4 Sulco, 129

5 Fl 3, 16


Autor:

Fábio Muniz

(Arquidiocese de Brasília)

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