Filiação Divina: fonte da vida cristã

“Vede que grande amor nos mostrou o Pai, que sejamos filhos de Deus, e que o sejamos de verdade [...]. Caríssimos, já agora somos filhos de Deus”[1].


A realidade da filiação divina é uma das verdades de Fé que nos toca mais diretamente, mas da qual costumeiramente não nos damos conta, além de não a valorizarmos. Nós, ontologicamente, por meio do Santo Batismo, tornamo-nos filho de Deus. Este Sacramento não somente nos purifica de todos os pecados, mas nos transforma em uma “nova criatura”[2], um filho adotivo de Deus[3], tornando-nos “participantes da natureza divina”[4]. A notícia da filiação divina é o centro de todo o cristianismo, constitui-se como o cerne da Boa Nova que o Pai quis revelar-nos[5].


Como nos diz são João em sua primeira epístola, já agora somos filhos de Deus. Já hoje eu sou filho de Deus! Como não me dar conta de que Deus é meu Pai e que constantemente me vê e que me ouve? Que me espera todos os dias para que eu possa clamá-lo com um “Abbá, Pai!”[6]. Já hoje posso usufruir desta graça que o Pai me concedeu. Posso me ver como uma criança diante de seu pai, que ainda não sabe fazer escolhas, que erra muitas vezes ao dia e que vai correndo ao pai com lágrimas nos olhos pedindo ajuda. Mesmo que o Pai já saiba o que aconteceu, ouve-a como se não soubesse de nada e dá atenção a ela.


Que grande amor nos mostrou o Pai, que sejamos filhos de Deus, e que o sejamos de verdade. Não o somos por simples analogia ou comparação, mas sim ontologicamente: é uma realidade sólida que constitui o próprio fundamento de toda a vida do cristão[7]. Diz o Doutor Angélico que “por meio da graça, Deus torna o homem que adota idôneo para receber a herança celestial”[8]. Não o merecemos, mas por infinito amor, o Senhor nos chama de filho e nos quer por perto. O Senhor nunca se esquecerá de nós[9] e sempre há de nos proteger[10], porque somos seus filhos.


Isso tudo foi possível somente pela encarnação do Verbo Divino. Santo Irineu de Lyon afirma que a razão pela qual o Verbo se fez homem é para que o homem, estando em comunhão com Ele e recebendo assim a filiação divina, se tornasse filho do próprio Pai que está nos céus[11]. Ou seja, ao nos associarmos ao Corpo Místico de Cristo, por meio do Santo Sacramento do Batismo, que nos dá a fé em Jesus Cristo, tornamo-nos filhos de Deus[12]. Com isso, “somos admitidos na intimidade de uma nova Família, nada mais nada menos que a das Três Pessoas da Santíssima Trindade”[13]. Essa intimidade com o Pai de forma pessoal e próxima somente foi possível pelo novo nascimento que o Batismo nos concedeu.


No Santuário Basílica de Trindade (GO), a devoção ao Pai Eterno é patente. Nos vitrais da igreja, é possível ver como que a Primeira Pessoa da Santíssima Trindade se faz presente em nossas vidas. São-nos apresentadas diversas situações ordinárias da vida do romeiro em que o Pai é representado sempre atento e cuidadoso com os seus filhos: seja na peregrinação para o Santuário, seja em uma consulta no hospital, seja no trabalho em uma fazenda. É comovente ver naquela obra de arte como o Pai sempre esteve, está e estará conosco.


A filiação divina também nos dá instrumentos para um bom discernimento vocacional. Ao “encarnar” essa percepção em nossas vidas vida, a resposta ao chamado se torna muito mais fácil, porque o sim procede de uma decisão amorosa de responder a um Pai que nos chama para algo que fomos criados. Ele nos fez com uma finalidade e, ao cumpri-la, teremos maior chance de sermos felizes e, por consequência, santos. Além disso, o medo da decisão se dissipa facilmente ao enxergarmos a vocação dessa forma.


Um fruto imediato da consciência da filiação divina é o otimismo. O cristão, quando se dá conta da profundidade dessa realidade, não consegue mais viver apartado disso. Toda a sua existência estará permeada pela noção de ser filho de Deus. É necessário dizer isso para que percebamos que não basta saber que existe essa adoção por parte de Deus, mas é de suma importância reconhecer-se assim e agir como filho de Deus. Essa percepção é um grande passo para a salvação, já que ela traz serenidade e confiança na providência de Deus, as quais são sinais característicos na vida dos santos[14].


São Francisco de Sales afirma que “quem vive a filiação divina não se entristece nunca, a não ser por ter ofendido a Deus; mas a sua tristeza está alicerçada numa profunda, tranquila e serena humildade e submissão, após a qual se levanta pela bondade de Deus, por uma doce e perfeita confiança, sem vergonha nem despeito”[15]. Que grande confiança nos dá, mesmo em meio a dificuldades, sentirmo-nos filhos de um Pai que tudo sabe e que tudo pode[16]. A nossa relação com Deus se descomplica. O olhar arrependido para Ele se torna confiante e alegre, porque já possui a certeza do amor infinito que ele tem por cada um de seus filhos. “Sentir-se filho pequeno do Pai nos transmite uma fortaleza de ferro, uma segurança inabalável, uma imensa paz e alegria: é a grandeza de ser pequeno[17].


Com o mesmo olhar confiante, devemos buscar refúgio sob a proteção de nossa Mãe, que nos foi entregue pelo Filho de Deus durante a sua Paixão no Calvário[18]. Ela, nossa maior intercessora junto ao Filho, deseja nos ver santos. Nossa Senhora é a filha predileta de Deus Pai, por isso a devoção a Virgem Maria desperta em nossas almas o impulso sobrenatural de agirmos como membros da família de Deus[19]. Que possamos, assim como ela e por sua intercessão, estarmos abertos para a vontade do Pai em nossas vidas.

[1] 1 Jo 3, 1-2 [2] Cf. 2 Cor 5, 17 [3] Cf. Gl 2, 5-7 [4] Cf. Catecismo da Igreja Católica, n 1265 [5] Cf. Carlos Lema Garcia, Filiação Divina, São Paulo: Quadrante, 2002. [6] Cf. Rm 8, 5 [7] Cf. Ibidem [8] Summ. Theol., III, q.23, a.1, c [9] Cf. Is 49, 15 [10] Cf. Is 49, 8 [11] Cf. Santo Irineu de Lyon, Adversus haereses, 3, 19, 1 [12] Cf. Gl 3, 25 [13] Fernando Ocáriz, El Sentido de la filiación divina, Eunsa, Pamplona, 1982, pg. 178 [14] Cf. Carlos Lema Garcia, Filiação Divina, São Paulo: Quadrante, 2002. [15] São Francisco de Sales, Filoteia, XIX, 11 [16] Cf. São Josemaria, carta de 19 de janeiro de 1959 [17] Rafael Llano Cifuentes; Não temais, não vos preocupeis, Quadrante [18] Cf. Jo 19, 26 [19] Cf. São Josemaria; Forja, 587

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Pastores Dabo Vobis
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