Homens, olhai para São José...e mulheres também!



Neste ano jubilar dedicado a São José, a figura do glorioso Patriarca será constantemente colocada em evidência à luz dos inúmeros ensinamentos espirituais que podem ser colhidos a partir da vida e virtudes do pai virginal de Jesus. Pai na fé e obediente servidor da vontade divina; modelo para o simples trabalhador; mestre da vida interior, do silêncio e da humildade, entre tantos outros aspectos poderiam ser destacados. Porém, com este texto, deseja-se evidenciar a figura paterna e viril do Santo Patriarca, apresentando-o como modelo de homem para todos os homens[1], cristãos ou não.


Por que um modelo? Não seria um insulto à liberdade do ser humano e à autonomia em suas decisões morais? Em meio a inúmeras crises vivenciadas pela humanidade – como na política, na economia e na educação –, não se pode mais ignorar a eminente crise na masculinidade. Não se trata de abordagens quanto a preferências e orientações sexuais do ser humano, mas sobretudo quanto à dimensão do masculino, àquilo que é próprio do homem – mesmo que não exclusivo –, quando se ouve, por exemplo, a seguinte exortação: “está na hora de agir como homem!”. Perspectiva essa que tem se demonstrado amplamente confusa, em que para o simples questionamento “o que é ser homem?”, diversas e contraditórias são as respostas, inclusive com públicas manifestações de mea culpa, simplesmente, por ser...homem.


Os homens do século XXI parecem esmagados por dois extremos doentios. Ora por aquela estúpida reação ao feminismo, na qual torna-se necessário afirmar a superioridade sexual, diminuir os direitos e capacidades das mulheres, assumir posturas agressivas e fazer das mulheres serviçais e escravas sexuais. Por outro lado, em virtude de uma rejeição a esse machismo desenfreado e pela necessidade de serem mais simpáticos e próximos às injustiças levantadas pelos movimentos feministas, os homens têm assumido posturas efeminadas e delicadas – confundindo educação e gentileza com fragilidade –, demonstram ser incapazes de assumir responsabilidades e a firmeza própria para defender a família ou a si mesmo, além de extremamente sensíveis emocionalmente, aceitando a nociva ideia de que os homens são ameaças para a ordem social.


Dessa forma, os homens têm caminhado sem direção e profusamente influenciados pelos interesses dos movimentos de massa e de ações políticas e midiáticas. O alvo principal? A paternidade. Mesmo que em um contexto espiritual – como na opção pela vida celibatária –, o homem não quer e não sabe mais ser pai, o que faz de sua masculinidade algo incompleto, imaturo e infértil, como acentuou o Papa Francisco: “Quando um homem não tem esse desejo, algo está faltando neste homem, algo aconteceu. Todos nós, para sermos plenos, para sermos maduros, precisamos sentir a alegria da paternidade: até mesmo nós, celibatários. A paternidade é dar vida aos demais, dar a vida”[2].


Assim, citando apenas as complicações ocasionadas pelo ‘universo masculino’, torna-se patente o entendimento acerca de alguns aspectos que provocam desmedidas crises familiares, como a expressiva quantidade de mães solteiras, a educação dos filhos abandonada nas mãos das mulheres, meninos que crescem carentes de um bom exemplo masculino e, quando crescem, não amadurecem e continuam o ciclo da eterna vontade de ser adolescente. Portanto, para o homem moderno, é preciso fazer gritar a imagem do silencioso José; assim como para as mulheres, a fim de terem uma referência de homem virtuoso na busca do namorado e do esposo. Ingressemos, portanto, na escola de José!


A paternidade de José[3] é remédio para os ideais adolescentes egoístas, em que os projetos de vida não incluem ninguém mais do que a si mesmos. Servidor fiel de Jesus e de Maria, o Glorioso Patriarca fez da própria vida uma alegre doação, em sua participação no mistério da Encarnação: o pai virginal do Verbo Encarnado! O único homem que pôde ser chamado de ‘pai’ pelo próprio Deus: “como é admirável a grandeza da tarefa confiada a José!: dar um lar Àquele que criou o Universo, alimentar a Providência que proporciona alimento a todos os seres, exercer o cargo e os deveres da paternidade em relação Àquele a quem todos os homens chamam ‘Pai nosso que estais nos céus’”[4]. Uma missão singular e especialíssima, confiada a um homem que soube corresponder à graça recebida, o qual deve ser a referência para tantos rapazes que não descobriram ainda o que fazer com a própria vida. Não serão outros José de Nazaré, mas podem se aproximar desse modelo de virtudes. Inicialmente, é preciso, portanto, que no processo de amadurecimento, sejam preparados para uma missão paterna e esponsal, seja na vida matrimonial ou celibatária. E, a partir do cultivo pelo desejo natural da paternidade, é possível abrir-se às demais virtudes de uma masculinidade autêntica.


A figura do Santo Patriarca remete, imediatamente, ao cumprimento de uma missão especialíssima, na qual consiste o ápice da dignidade de José: ser pai do Filho de Deus e esposo da Virgem Maria. Homem justo[5], homem de Deus, rico em virtudes – para com o Senhor e para com o próximo –, cumpridor obediente dos deveres recebidos, agindo com firmeza e prontidão em todas as designações divinas recebidas por meio do Anjo do Senhor[6]. Não hesita, não coloca os próprios projetos como condições; não é calculista quando o assunto é cumprir a missão confiada, nem se detém nas possíveis consequências, visto que deseja se doar integralmente. É no cumprimento diário de seus deveres que também se santifica, em ser um exímio carpinteiro e um bom esposo e pai de família.


Um contraste perfeito com muitos dos homens do século XXI – tementes a Deus ou não –, os quais fogem das responsabilidades, não assumem mais os protagonismos humanos da vida, não possuem ideais, e sequer cultivam o magnânimo desejo de deixar a casa dos pais e andar dignamente com as próprias pernas, mas tropeçam no próprio caminhar trôpego em busca de soluções fáceis e confortáveis, assemelhando-se sempre à experiência das crianças. Cultivam uma exagerada paixão por si mesmos; falta-lhes coragem e determinação para enfrentar situações concretas e singulares; não se aventuram mais nos desafios e riscos impostos à própria vida em busca de ideais justos – como os príncipes dos contos de fadas, que tudo fazem pela mulher amada –, mas se encolhem de forma apática e sonhadora diante da vida, como as donzelas à espera do herói nesses mesmos contos.


São José é o guardião e o protetor da Sagrada Família, o homem escolhido para custodiar os tesouros mais preciosos de Deus. Imagina-se, portanto, não um vulnerável ancião, mas um jovem viril, homem forte[7], com mãos calejadas pelo árduo trabalho cotidiano, capaz de percorrer longas distâncias, como as constantes idas a Jerusalém[8]. O fato que certamente mais se destaca é a fuga para o Egito[9], a fim de proteger o menino Jesus da perseguição de Herodes: José decide com prontidão e firmeza, coloca-se à frente, é o líder, leva Maria e o Menino consigo para mais um distante percurso, e assume a proteção e a providência nessa estranha e nova vida que levariam por alguns anos no Egito.


A fortaleza de José – uma resiliência física e espiritual – o torna capaz de sacrificar-se pela realização da missão que lhe fora confiada; não pensa em si mesmo, pois o seu ser não é fragmentado, dividido entre os desejos pessoais e disposições sociais, religiosas e familiares. Ele está pronto para sofrer por Jesus e com Maria; suporta a dor e ampara a esposa, como na perda do Menino no Templo[10]. É homem, viril, está pronto para se doar integralmente. O que desponta em José, falta nos adolescentes e adultos de hoje: não são educados para sofrer e para o sacrifício de si, mas para “o que eu quero, e na hora que quero”, e por isso não amam. Não entendem mais que é preciso esgotar-se pela esposa e pelos filhos; e aos que não são esposos, não entendem que precisam se preparar para essa doação de si, agindo com caráter e entregando o melhor de si no trabalho, nos estudos, na família, nos relacionamentos e no serviço ao próximo.


A família, para José, não é uma competição com os próprios interesses, mas provê-la e custodiá-la é lugar de santificação. A relação esponsal é cultivada por um olhar puro e casto, o qual assumiu de forma única em São José a forma de um amor virginal pela Mãe de Deus. A paternidade é exercida, também, a partir de uma dimensão ativa na educação de Jesus, o qual era-lhe submisso, crescendo em sabedoria, estatura e graça[11]. Com a presença de José, mesmo que não precisasse – em virtude de ser o próprio Verbo Encarnado – aprendeu as virtudes humanas básicas, as orações e a leitura dos textos sagrados, o valor da obediência e do cumprimento da Lei e a dignidade presente no trabalho.


Em nossos tempos, quantas crianças abandonadas pelo desinteresse paterno; quantas mulheres submetidas a olhares maliciosos e rejeitadas pelos desejos egoístas dessa falsa masculinidade, que confunde virilidade com prazer sexual, fortaleza e vigor com agressividade. É preciso que os homens assumam uma referência no ambiente familiar, a da estabilidade e da força. Não se alude ao desequilíbrio físico e emocional, que culmina na violência doméstica, mas a uma preparação integral para ser o defensor e o provedor material[12] e espiritual da família: “o papel de um pai como chefe espiritual da família nunca deve ser entendido ou tomado como um domínio, mas, sim, como uma liderança amorosa e orientação carinhosa daqueles sob seus cuidados. Sua paternidade, minha paternidade, à sua maneira escondida e humilde, reflete de maneira imperfeita, mas segura, a Paternidade de Deus Pai para aqueles que Deus nos deu para ser seus pais.”[13]


Existe, portanto, em São José, o cumprimento do que seria escrito por São Paulo acerca da submissão das mulheres aos homens, cabeças das famílias[14], e não a subserviência de um súdito a seu ditador. Importante notar que o Anjo se dirige sempre ao Glorioso Patriarca[15], pois ele é o responsável por chefiar e defender aquela família. A masculinidade autêntica não se fundamenta em um reinado egoísta do sexo masculino, mas em uma autoridade que nasce da honradez, a partir de uma disposição imediata para servir e se sacrificar pela proteção e sustento da própria família, um testemunho e uma dedicação que convidam qualquer esposa a ser sim submissa, ou seja, como participantes na ordem dessa missão masculina de se entregar totalmente na dinâmica do amor esponsal. Afinal, qual esposa não se colocaria livremente nessa perspectiva, tendo em vista um marido que a ama a exemplo do amor de Cristo pela Igreja, a fim de torná-la pura, santa, irrepreensível e sem defeito, mesmo que seja preciso ir ao extremo de entregar a própria vida por ela?


Entrega total de si, caráter firme que elimina qualquer tipo de covardia quando se envolve o bem – de si ou do próximo –, disposição vigorosa para assumir responsabilidades e para sacrificar-se pelas mulheres, pelas crianças, pela família, cumprimento de deveres, entender-se como o provedor e participante na educação dos filhos, fidelidade no amor puro à esposa ou à namorada. Esse é o padrão para o qual os homens devem olhar: uma masculinidade autêntica, encontrando, em cada estado e circunstância de vida, uma total disposição para alcançá-lo. E, a partir desse modelo, estará preparado para coisas maiores: “Sê forte. Sê viril. Sê homem. E depois...sê anjo”[16].


Portanto, homens, olhai para a virilidade de São José; mulheres, encontrai nele o modelo de esposo; seminaristas e padres, descobri nele um mestre de paternidade célebe e de vida interior; cristãos em geral: ite ad joseph!


Autor:

[1] Neste texto, a palavra “homem” não será utilizada de forma genérica, mas especificamente quanto ao sexo masculino. [2] Papa Francisco, homilia, Missa de 27/06/2013 [3] Mt 1, 16. 18-21; Lc 2, 48 [4] GASNIER, Michel. José, o silencioso. Quadrante. 1995, p.40 [5] Mt 1, 19 [6] Cf. Mt 1, 24; 2, 14. 21 [7] Cf. São Josemaria Escrivá, É Cristo que passa. Quadrante, 2014, p.79 [8] Cf. Lc 2, 41 [9] Mt 2, 13 [10] Cf. Lc 2, 41-52 [11] Cf. Lc 2, 51-52 [12] Não se está defendendo a impossibilidade de as mulheres também trabalharem fora do lar, mas apresentar como o entendimento de ‘provedor da família’ é uma virtude que auxilia no processo de maturidade masculina. [13] Firmes na brecha – Exortação destinada especialmente aos homens católicos, escrita pelo Bispo da Diocese de Phoenix, Thomas J. Olmsted [14] Cf. Ef 5, 21-33 [15] Cf. Mt 1, 20; 2,13. 20 [16] São Josemaria Escrivá, Caminho, n.22