Irmã Dulce e o Caminho da Santidade

Não podemos falar de Irmã Dulce sem antes alinharmos o nosso olhar com o dela e tomarmos consciência do ambiente em que ela viveu e da triste situação das pessoas que a ela recorriam. Era um cenário de guerra! Não a perniciosa Guerra Mundial, que se desenrolava mundo a fora matando centenas de milhares de pessoas, mas uma guerra silenciosa, mas não menos cruel: a guerra contra a miséria e a degradação da pessoa humana. Era uma guerra por dignidade, e muitos sucumbiram lutando... Faltava-lhes auxílios externos, faltavam-lhes as armas para lutar e, assim, nos olhos de quase ninguém se via mais o brilho oriundo da Esperança de uma vida melhor.



No meio desse verdadeiro cenário de guerra, Deus faz surgir uma pequena faísca, que com o sopro do Espírito Santo, cresce e se espalha, aquecendo os corações congelados pela dor e pelo desespero. Esta faísca era um “Anjo”. Era o “Anjo bom da Bahia”. Era o símbolo da virtude da caridade para aquelas pessoas.Era o apoio necessário à fé daqueles infelizes. Era a esperança de um mundo melhor. Era a certeza de que Deus os amava e não se esquecia deles... Era IRMÃ DULCE!


Irmã Dulce vem para mostrar àquelas pessoas que esse grande problema da dor e do sofrimento, que os afligiam e afligem toda a humanidade, é, no entanto, para nós cristãos, um problema resolvido. Nós olhamos os méritos que o sofrimento nos consegue. Nós consideramos todas as contingências da vida sob a luz de princípios sobrenaturais.Nós contemplamos a Deus, Nosso Senhor, como um sábio Cirurgião, permitindo o sofrimento para realizar maiores bens. Felizes os que têm Fé! Tudo neste mundo tem sua razão de ser. Há sofrimentos; como bons racionais devemos saber o porquê existem. Sem esse conhecimento, sempre nossa maior cruz será o temor das cruzes. Esse era no fundo a raiz do ensinamento e da missão de Irmã Dulce.


Mesmo não tendo a intenção, e a pretensão, de escrever um texto biográfico, é necessário olharmos um pouco para a história de vida dessa mulher, frágil e pobre, mas que ao mesmo tempo era o apoio de tantas pessoas e a estes transmitia uma grande riqueza que jamais poderiam perder: a fé em um Deus que é Pai de Amor.


Nascida em Salvador, no dia 26 de maio de 1914, desde muito pequena sentia forte no seu coração o chamado, que é universal, ou seja, para todos nós, que Deus fazia a ela: levar uma vida de santidade junto d’Ele. E para ela, o caminho para atingir esse fim era o da consagração total a Deus. Ingressou então, no ano de 1933, na Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição, recebendo meses depois o hábito religioso, branco e azul, do qual nunca se separou em toda a sua vida.


Mas a pequena freirinha baiana sentia no seu coração que o chamado de Deus, a sua vocação, ia além de uma consagração total a Deus dentro do claustro do convento. Sua vocação era uma consagração total a Deus, mas na pessoa do pobre, na pessoa do doente, na pessoa do marginalizado da sociedade, enxergando, de modo extraordinário, o Cristo Sofredor em cada uma dessas pessoas.


E dessa forma cumpriu sua missão, realizando o projeto de santidade que Deus havia traçado para ela desde toda a eternidade. Passou por este mundo fazendo o bem. Passou por este mundo, mas sem nunca se prender a ele.Passou por este mundo levando a fé aos descrentes e esperança aos desesperados. Passou por este mundo desejando, e levando os outros a desejarem, um mundo futuro, onde não haveria mais a dor nem o sofrimento.


Podemos, com certeza, falar da humildade de Ir. Dulce, exaltando nela esta virtude, sem ferir o significado mais genuíno dessa palavra. “O céu escolheu o humilde”. E ser humilde é ser verdadeiro! Humildade é a virtude sobrenatural que, pelo conhecimento que nos dá de nós mesmos, nos inclina a nos estimarmos em nosso justo valor. Reconhecer as qualidades que realmente se tem, atribuí-las ao Bom Deus de quem em tudo dependemos, e, zelar tanto mais por elas quanto são em nossas mãos um tesouro que devemos fazer frutificar.


A humildade de Ir. Dulce fez com que ela fosse capaz de usar dos seus dotes para servir a todos, com bondade e discrição. Sua humildade fez com que não se cegasse ante os aplausos e inúmeros elogios que recebia, chegando a ser indicada ao Prêmio Nobel da Paz. Sua humildade fez com que não se esmorecesse perante os ataques, a indiferença, a incompreensão, a malícia de muitos que a cercavam.


E era a sua humildade que levou ao exercício heroico da caridade, do amor ao próximo. É coisa muito importante para todos nós cristãos esse mandamento do amor ao próximo, mas devemos amá-lo de um modo prático, positivo, evitando tudo aquilo que possa prejudicá-lo, fazendo tudo aquilo que lhe possa ser util. E isso foi o que Irmã Dulce fez! A bondade é um conjunto de pedacinhos! Não bastam as palavras. São necessárias palavras e ações bondosas.Nisto se resume todo o Cristianismo: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos por amor a Deus.


Foi reconhecendo a vivência heroica dessas virtudes, que a Santa Igreja Beatificou Ir. Dulce, reconhecendo nela um modelo, de amor a Jesus e de vivência cristã, a ser imitado por todo povo brasileiro. Agora, mais ainda, reconhecendo a sua intercessão em favor dos que a ela recorrem, o Papa Francisco assinou o decreto autorizando a sua canonização. Assim, em breve, a freirinha baiana, conhecida como “Anjo Bom”, será conhecida por todos como Santa Irmã Dulce, a mãe dos pobres e doentes.


Já no fim da sua vida, Irmã Dulce deixa transbordar os desejos que trazia em seu coração, de forma simples, como um apelo a humanidade: “Eu gostaria que cada um sentisse no seu coração essa necessidade de doar-se a Deus na pessoa do pobre. Eu gostaria que outras irmãs, outras pessoas, deixassem germinar no seu coração esta semente do amor a Deus na pessoa do pobre. Eu gostaria que quando eu fechasse os olhos, alguém fosse tomar conta, tomar frente desse trabalho com desprendimento, com amor total aos pobres que tanto sofrem e tanto precisam de amparo. Se tivermos fé cega na Providência Divina, o trabalho continuará...”1


Beata Irmã Dulce dos Pobres, rogai por nós!



[1] Maria Rita Lopes Pontes, Irmã Dulce dos Pobres, Rio de Jeneiro, 7ª Ed. 1985, págs. 80 – 81.


Autor:


Pastores Dabo Vobis
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