Itinerário espiritual para a Semana Santa



Na pedagogia catequética da Igreja, tem-se no aprendizado sobre o Ano Litúrgico uma das primeiras etapas; a segunda, entediar-se com ele. O ensino unicamente informativo sobre as datas das festividades litúrgicas tende a ocultar o real acontecimento proporcionado pela ação litúrgica da Igreja: a celebração da Obra salvífica de Cristo, com sua consequente atuação no tempo e na história[1]. Em vez de consistir em uma sucessão de oportunidades de santificação, de encontro e da perfeita glorificação a Deus, o tempo litúrgico se transforma em momento de procrastinação espiritual, visto que no próximo ano o calendário proporcionará as mesmas comemorações. Porém, caro leitor, o ano litúrgico não é uma simples repetição de datas ou uma sucessão cronológica da vida de Jesus, mas uma verdadeira presença de Cristo na Igreja[2], proporcionando-nos oportunidades de salvação diárias, em que ocorre o mais belo encontro do tempo cotidiano (“chronos”) com o tempo da graça de Deus (“kairós”).


E, dentre os tempos litúrgicos, não há momento mais oportuno para ordenar a vida espiritual do que bem viver a Semana Santa, também chamada pela tradição litúrgica de “grande semana” ou “semana maior”, justamente por ser ela a fonte e o centro da peregrinação cristã: “o mistério pascal, que encontra na Semana Santa a sua mais alta e comovida celebração, não é simplesmente um momento do ano litúrgico; ele é a fonte de todas as outras celebrações do próprio ano litúrgico, porque todas se referem ao mistério de nossa redenção, isto é, ao mistério pascal”[3]. Assim, esperançosos por unir nossas vidas ao mistério do amor de Deus – que atingiu o ápice nesses últimos momentos da vida terrena de Jesus –, entremos com Cristo em Jerusalém:


Na celebração do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, a Igreja inicia o tempo da Semana Santa, fazendo memória da entrada de Nosso Senhor em Jerusalém para celebrar a sua Páscoa. São proclamados dois Evangelhos – exclusividade desta Missa –, em que se anuncia a aclamada entrada em Jerusalém e a memória de sua Paixão. Jesus é recebido com festividades, uma convicção de que nele Deus visitara o povo de Israel; é, portanto, aclamado como Messias, mas que realizaria uma obra diferente da restauração esperada do reino de Davi: a libertação do pecado e da morte[4], a partir da Paixão e morte de Cruz, “escândalo para os judeus e loucura para os gentios”[5]. Assim, a celebração do Domingo de Ramos nos coloca diante de um duplo entendimento acerca da pessoa de Jesus: que tipo de Messias cremos que ele é, e o que esperamos dele?

“Para nós, quem é Jesus de Nazaré? Que ideia temos do Messias, que ideia temos de Deus? Esta é uma questão crucial, que não podemos evitar, até porque, precisamente nesta semana, somos chamados a seguir o nosso Rei que escolhe a cruz como trono; somos chamados a seguir um Messias que não nos garante uma felicidade terrena fácil, mas a felicidade do céu, a bem-aventurança de Deus. Por isso devemos perguntar-nos: Quais são as nossas reais expectativas? Quais são os desejos mais profundos que nos animaram a vir aqui, hoje, celebrar o Domingo de Ramos e iniciar a Semana Santa?”[6].

Ademais, é importante ao longo desta Semana visitar a nossa consciência e o nosso coração e nos perguntar se estamos dispostos a deixar que Ele realize em nós a obra que veio desempenhar, ou se ainda apresentamos muitas reivindicações e um desejo de sabedoria – sobre nós e sobre o mundo – maior que a própria Sabedoria Encarnada. Entrar em Jerusalém com Nosso Senhor é fazer o caminho que ele fez: em vez de uma entrada triunfal, um simples jumentinho o carregava; abdicou da realeza pela humilde condição do servo sofredor[7]; a coroa da glória eram espinhos, e o trono real, a Cruz. Entremos, portanto, resolutos no seguimento de Cristo, dispostos a imitá-lo e, em vez de mantos e ramos sem vida, prostremo-nos aos pés de Jesus e ofereçamos a nossa própria vida a Ele[8].


O momento ápice dessa Semana se dá na celebração de caráter unitário do Tríduo Pascal – a celebração da Páscoa em três dias[9] –, o qual se inicia na Missa vespertina in coena Domini, na quinta-feira santa, e se estende até as Vésperas do Domingo de Páscoa. Recordando os fiéis acerca da instituição do sacerdócio e da Eucaristia, coroada com o mandamento da caridade[10], essa Missa convida o cristão a contemplar a intensidade do amor de Deus pela humanidade. De forma a antecipar o sacrifício da Cruz, na Última Ceia, Jesus deu-se a si mesmo – plena e eternamente – no sacramento da Eucaristia e no sacerdócio, permitindo a nós enchermo-nos de alegria por já conseguirmos contemplar os meios de nossa salvação e santificação. Esses dois grandes mistérios são deixados por Nosso Senhor como dons sagrados: pelas mãos sacerdotais temos presente o mistério de nossa redenção, sobretudo pela vida sacramental, e pela Eucaristia podemos nos aproximar intimamente e cultivar uma vida interior através da comunhão e da adoração das espécies eucarísticas, nas quais Cristo está em uma presença real.


O hino Ubi caritas, entoado especialmente nessa Santa Missa, recorda-nos que a caridade é o mandamento maior[11], e é no amor onde Deus se encontra; por meio desse dom, fomos unidos em um só rebanho e podemos alcançar a Vida Eterna. Pela realização do lava-pés, somos convidados a entender que o seguimento de Cristo e a condição de servo estão intimamente unidos[12]; é preciso, portanto, esvaziar-se: “Jesus depõe as vestes da sua glória, cinge-se com o "manto" da humanidade e faz-se servo. Lava os pés sujos dos discípulos e torna-os assim capazes de aceder ao banquete divino para o qual Ele os convida. [...] torna-nos puros mediante a sua palavra e o seu amor, mediante o dom de si mesmo”[13]. Nisto consiste a santidade e o amor perfeito: aniquilar-se de tal maneira que seja apenas Cristo em nós[14]. Desta entrega antecipada de si, Cristo caminha em direção à total oferta de amor na Cruz.


A espiritualidade vivida na Sexta-Feira da Paixão é riquíssima no significado e na simbologia que traz consigo a partir das particularidades deste dia. É o dia em que vivenciamos a morte de Nosso Senhor, e podemos dizer que pouquíssimas coisas alcançam com tão grande intensidade o imaginário devocional católico como a morte de Jesus Cristo, que mesmo sendo Deus, “não usou de seu direito de ser tratado como um deus, mas se despojou, tomando a forma de escravo”[15]. Fato esse que é relatado inclusive historicamente[16], mas que para as almas devotas ultrapassa em muito o acontecimento meramente histórico e que deve suscitar grande desejo de conversão e união a Deus.


Neste dia não se celebra a Santa Missa. Uma vez que na liturgia não reproduzimos uma peça teatral sobre um acontecimento do passado, mas vivemos a presença real de um mistério, não faria sentido celebrar a Santa Missa, que nos atualiza não somente o acontecimento da Paixão e Morte, mas também da Ressurreição de Nosso Senhor[17]. Assim, a liturgia nos conforta nesse dia com a Celebração da Paixão do Senhor, momento em que de forma eficaz unimos todos os nossos sacrifícios à morte de Cristo, adorando sua Santa Cruz e buscando junto à Virgem Dolorosa vivenciar essa celebração. Além disso, muitas práticas devocionais tradicionais de nossa Igreja nos permitem um auxílio no mergulho da vivência deste mistério, especialmente a Via Sacra e a Coroa das Sete Dores de Nossa Senhora. Este é um dia de jejum e abstinência para nós católicos[18], que devemos não somente durante a celebração, mas durante todo o dia, buscar unir os nossos sentimentos, afetos e pensamentos a Deus, que morreu injustamente em vias da nossa salvação.


O Sábado Santo é também conhecido popularmente como Sábado do Silêncio, e a partir desse aspecto já se pode abstrair muito sobre a espiritualidade a ser vivida neste dia. Aquilo que vivemos na Sexta-feira da Paixão é de alguma forma aqui continuado, ainda que o sofrimento pela morte do Senhor, vá aos poucos dando lugar a um espírito reflexivo e a uma esperança apreensiva na medida em que as horas passam. Afinal, existe uma promessa a se cumprir: o Senhor nos deixou a certeza da sua ressurreição ao terceiro dia[19].


A espiritualidade deste dia é aquela que permite ao fiel se unir ao sepulcro do Senhor e ali, em silêncio, esperar com confiança e espírito de oração a opera magna de Deus. Uma vez que a Vigília Pascal é celebrada apenas na parte da noite, nós dizemos que neste dia, do ponto de vista litúrgico, a Santa Missa também não é celebrada. Recomenda-se fortemente aos fiéis neste dia, portanto, se recolherem em meditação, evitarem as agitações internas e externas e se prepararem espiritualmente para estar com o Senhor, que descendo à mansão dos mortos, deseja vencer a morte para nos dar a vida.


Com a Páscoa do Senhor, o Cordeiro Pascal, imolado na Sexta-Feira como verdadeira vítima, agora não sofre mais, mas vem como Rei da vida, após vencer o duelo com a morte[20]. Ele verdadeiramente ressuscitou, como havia dito[21]. Assim, abre as portas da eternidade para que o homem agora tenha a vida, e a tenha em abundância[22]. Entretanto, para alcançarmos os frutos da redenção, não devemos ter medo[23], mas precisamos morrer e ressuscitar com Ele, aspirando aos bens celestes, como nos ensina São Paulo[24]. Desta forma, no Cristo, nascemos de novo e alcançamos a nossa salvação.


O próprio Cristo Jesus, no dia da Páscoa, convida a humanidade a se alegrar[25]. Éramos infelizes, submetidos ao jugo do Inimigo, e Cristo vem para nos libertar dessas amarras. Por isso, devemos gozar de profunda alegria e exultar neste santo dia que foi feito para nós[26]. Jubilosos, é justo que exclamemos aquele canto que há tanto tempo está guardado: “Aleluia!” Louvor a Ti, Senhor! Não podemos viver esse dia como qualquer outro, porque não o é. O grande acontecimento da Páscoa, maior festa do Povo de Deus, deve se tornar a causa de toda a nossa alegria. Sem a salvação, trazida por Cristo, estaríamos longe de Deus, na tristeza eterna.


Ora, mas Nosso Senhor, depois que ascendeu aos céus, não nos deixou só. Ele mesmo havia prometido aos seus discípulos que estaria com o homem por todos os dias, até o fim dos tempos[27]. E verdadeiramente está conosco: presente em corpo, sangue, alma e divindade dentro de todo sacrário espalhado pelo mundo. Que imensa graça termos o Ressuscitado tão perto de nós. Nosso Senhor na Sagrada Hóstia possui ainda suas Santas Chagas: não quer esconder as marcas da sua Paixão e do seu amor Ágape por toda a humanidade. Ele ressurge com as marcas de sua Paixão e com o seu lado aberto[28], de onde procede a sua Misericórdia. Em cada Missa celebrada, oferece-se por toda a humanidade e é junto do Pai nosso eterno intercessor[29]. Jesus quer lembrar-nos para sempre de sua Paixão, Morte e Ressurreição. Com que amor devemos ir às nossas igrejas para adorar ao nosso Salvador e Redentor! Alegremo-nos, pois o Ressuscitado está conosco!


Autor:

[1] Cf. Sacrosanctum Concilium, n.2 [2] Cf. ibid., n.7 [3] Papa Paulo VI. “Sermão da quarta-feira” apud BERGAMINI, Augusto. Cristo, festa da Igreja: o ano litúrgico. Paulinas, 1994, p.291 [4] Cf. Jo 8, 34 [5] 1 Cor 1, 23 [6] Bento XVI. Homilia na celebração do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor – http://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/homilies/2012/documents/hf_ben-xvi_hom_20120401_palm-sunday.html [7] Cf. Is 52, 13; 53, 12 [8] Cf. Santo André de Creta. Sermão: “Bendito o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel”. [9] BERGAMINI, Augusto. Cristo, festa da Igreja: o ano litúrgico. Paulinas, 1994, p.315 [10] Jo 13, 31-35 [11] Cf. 1Cor 13, 1-13 [12] Jo 12, 26 [13] Bento XVI. Homilia Santa Missa “in coena domini” – http://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/homilies/2008/documents/hf_ben-xvi_hom_20080320_coena-domini.html [14] Cf. Gal 2, 20 [15] Fl 2,7 [16] Cf. Testimonium Flavianum: Antiguidades Judaicas, Livro 18, Parágrafos 63 e 64 [17] Cf. SILVA, Miguel. Entrarei no Altar de Deus, Vol. I, p. 32 [18] Cf. CIC, Cân. 1251 [19] Cf. Mt 16,21 [20] Cf. Sequência de Páscoa [21] Cf. Mt 28, 6 [22] Cf. Jo 10, 10 [23] Cf. Lc 24, 38 [24] Cf. Cl 3, 2 [25] Cf. Mt 28, 9 [26] Cf. Sl 117, 24 [27] Cf. Mt 28, 20 [28] Cf. Jo 20, 27 [29] Cf. Prefácio da Páscoa III