Memento mori: lembre-se da morte

A comemoração dos fiéis defuntos é uma celebração de destaque no ciclo litúrgico da Igreja. É um momento singular de oração de ação de graças ou de súplica pelos falecidos. Não se trata somente de um dia reservado a visita aos cemitérios ou aos túmulos dos nossos parentes e amigos. Mas, é essencialmente o dia em que a Igreja reafirma que nem a morte e nem a vida podem nos separar de Deus, a morte não é o fim.


A reflexão sobre a morte e o juízo particular permeou a vida de muitos santos e santas, podemos encontrar nas hagiografias e nos escritos dos santos, meditações, por vezes diárias, acerca da morte, que pode chegar de forma repentina. A morte causa pavor em muitos e o conhecimento dela aponta para nossa fragilidade, sem o auxílio da fé podemos nos perder em um desespero desnecessário.



Muitas superstições giram em torno do tema da morte, por exemplo sobre o cemitério. Os filmes, séries e programas de televisão apresentam uma imagem do cemitério como uma morada de zumbis, fantasmas e monstros. Não raro, encontramos pessoas que tem medo de ir ao cemitério. Porém, te convido hoje a informar a um conhecido, amigo ou parente que tem medo do cemitério a seguinte frase: um dia você irá para lá.

Em vários momentos somos tentados a fugir desse tema voltando a nossa vida para uma grande armadilha do mundo: viver como se não fossemos morrer. Porém, a atitude adequada perante a morte, segundo o testemunho perene e a Tradição da Igreja, é a de descobrir a vida que se ganha com a morte.


A Santa Igreja de Cristo nos adverte e ensina que todo homem, logo após a morte, recebe de Deus um juízo particular, a sentença definitiva sobre o seu destino eterno: a glória do Céu ou a condenação eterna no inferno. A Sagrada Escritura afirma que: “Nela jamais entrará algo de imundo, e nem os que praticam abominação e mentira. Entrarão somente os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro”[1]. Portanto, no Céu só entram aqueles que são verdadeiramente santos, aqueles homens e mulheres que alcançaram um perfeito estado de amor a Deus, que serviram a Cristo com caridade sincera e reta. Os santos passaram na Terra por um processo de purificação e libertação dos vícios por obra do Espírito Santo e, por isso, merecem a coroa incorruptível.


Por outro lado, nem todos que se salvam ou conquistaram, por graça de Deus, a glória do Céu se encontram em estado de perfeita santidade: não foram grandes pecadores, mas também não foram completamente santos, suas vidas ainda estão marcadas por certos pecados que os impedem de entram em comunhão perfeita com Deus. Não estão devidamente preparados para gozar da Glória do Céu. Por essa razão, existe o chamado purgatório, um lugar de purgação ou purificação, no qual, os fiéis salvos têm a oportunidade de dar continuidade de um modo diferente ao processo de preparação para o Céu mediante o sofrimento das culpas e imperfeições que ainda lhes restam.


No evangelho de Lucas, encontramos uma instrução fundamental para o nosso caminho de santificação: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não conseguirão”[2]. Nesse sentido, a compreensão de que o caminho rumo ao Céu não é fácil, mas é possível deve estar diante dos nossos olhos. Em relação àqueles que se propõe a essa jornada, a Igreja nos ensina que a maioria esmagadora vai para o purgatório, e poucos são aqueles que entram de imediato na glória do Céu.


Muitos estão imersos em sofrimentos para se prepararem para o Céu. A estes, não resta mais nada se não esperar o momento adequado para entrar na glória eterna. A nós, nos é dada uma oportunidade de oferecer a eles um alívio através de nossas orações e sacrifícios. É dever de todo católico, ao menos no dia de finados, sufragar as almas do purgatório. São dois os destinos possíveis após a morte: a eterna condenação ou a eterna salvação. Em relação ao primeiro, nada podemos fazer para aqueles que estão condenados e ao segundo, que estão salvos, podemos oferecer auxílios no seu respectivo processo de purificação, enquanto essas almas nada podem fazer para aliviar os seus sofrimentos.


O entendimento dessa situação de caridade para com as almas do purgatório pode ser obtido mediante a ideia de um analgésico que oferecemos a uma pessoa que está repleta de dores em decorrência de uma doença terminal. Da mesma forma, podemos oferecer as almas do purgatório um alívio dos sofrimentos, que não as impedirá de sofrer, mas as ajudará a suportar e passar por eles. Não seria considerado crueldade da nossa parte a falta de compaixão por essas almas imersas em grandes sofrimentos quando nos é dada a possibilidade de auxiliá-las com simples orações e sacrifícios? A essa situação é que se aplicam também as famosas indulgências plenárias.


É preciso confiar plenamente Naquele que pela morte destruiu o império da morte: Jesus Cristo. Nosso Senhor reestabeleceu a comunhão entre Deus e a humanidade que foi rompida pelo pecado original. “Todo aquele que o Pai me der virá a mim”[3].


Por fim, relembramos a antiga expressão latina: memento mori que traduzida literalmente significa: lembre-se da morte. Esse era um antigo cumprimento monástico que tinha por intenção a lembrança cotidiana da morte em vista de uma mudança de vida. O contrário da tendência atual de muitos que querem viver como se Deus não existisse ou viver como se não fossem morrer se entregando de forma desordenada aos prazeres e riquezas do mundo. Além disso, é relevante invocar a jaculatória: “Ó meu Jesus, perdoai e livrai todas as almas do inferno, levai todas as almas para o Céu e socorrei principalmente aquelas que mais precisarem da Vossa Misericórdia”. E aquelas que mais necessitam da Misericórdia são as almas do purgatório. Que nós possamos neste dia com piedade e fé sufragar as almas do purgatório contribuindo para o seu estado, e assim também nós vamos dar passos significativos no caminho de santidade.



[1] At 21, 27

[2] Lc 13, 24

[3] Jo 6, 37


Autor:


Bruno Silas

(Diocese de Uruaçu - GO)

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