Mortificação, via de conformação a Cristo



“Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice; contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua!”[1]. Essas palavras de Jesus, da humanidade, da vontade humana de Jesus que, naturalmente, não desejava a morte, mas a vida[2], como todo ser humano. Mas graças ao pecado original e a desordem interior que ele causou, podemos chegar ao apego idólatra da própria vida e ele pode levar à morte espiritual e, consequentemente, à eterna, como nos advertiu Jesus: “quem quiser salvar sua vida, este a perderá; mas quem perder sua vida por causa de mim, este a salvará”[3]. A cruz é condição para ser discípulo de Cristo.


“O meu pecado está sempre a minha frente”

Antes da mortificação e sua necessidade, entendamos o que o Magistério diz sobre o pecado. Os números 1846ss do Catecismo da Igreja Católica tratam somente sobre ele e daí retiramos as seguintes definições: “o pecado é uma falta contra a razão, a verdade, a consciência reta” […] “uma palavra, um ato ou desejo contrários a Lei Eterna”[4] e “o pecado é ofensa a Deus”[5], Deus que é Amor. O pecado é uma ofensa ao Amor, é um ir contra a causa final de nossas vidas, que é a união com Deus, Deus que É. Podemos mesmo dizer que o pecado é uma auto aniquilação ontológica cometida pelo homem. Pecando, o homem deixa de ser homem.


Antes ainda de falar da mortificação propriamente, esclareçamos o conceito de mérito e de penitência, que é quase um sinônimo de mortificação, mas tem algumas diferenças que valem o esclarecimento.


Mérito

Define-o assim o padre Garrigou-Lagrange, O.P.: “o mérito em geral é um direito a uma recompensa; ele não a produz, mas a obtém; o ato meritório confere direito. O mérito sobrenatural que pressupõe o estado de graça e a caridade é um direito a uma recompensa sobrenatural. Distingue-se da satisfação, que tem por objetivo reparar, pela expiação, a ofensa cometida pelo pecado à majestade infinita de Deus e torná-lo favorável a nós[6]”.


Penitência

Ela se manifesta, principalmente, em três formas: o jejum, a oração e a esmola, que exprimem a conversão com relação a si mesmo, a Deus e aos outros[7]. Consiste em satisfazer uma infração, uma pena (do latim: poena, donde vem poenitentia), contra a Lei Eterna neste caso, que pode ser a satisfação dos pecados perdoados pelo sacramento da Penitência por meio de uma oração, por exemplo. Ela é um hiperônimo para mortificação. Quer dizer que toda mortificação é penitência, mas nem toda penitência é mortificação.


Mortificação

Entendido isso, o que é então a mortificação? Num sentido mais estrito ela é a abstenção dos prazeres sensíveis e lícitos, pois se não o fossem, estaríamos falando de pecados que, por si só, deveriam ser evitados; além de suportar ou impor-se algo desagradável. “Ora, mas Jesus não sofreu e morreu por nós para satisfazer a justiça divina?” alguém poderia perguntar. É verdade, e os méritos de seu Sacrifício Redentor são suficientes e superabundantes (infinitos!), mas Deus que criou sozinho o homem, não quer salvá-lo sem sua ajuda, disse Santo Agostinho. São Paulo se referia à comunidade de Colossos afirmando: “completo o que na minha carne falta às tribulações de Cristo”[8], dizendo ainda que isto tudo é “em favor do seu Corpo, que é a Igreja” e ele sofre com alegria pelo totus Christus (Cristo todo), unindo-se, como membro, numa perfeição cada vez maior à Cabeça, que é o próprio Cristo. O Apóstolo diz mais à frente na mesma carta: “mortificai os vossos membros, isto é, o que em vós pertence à terra”[9].


O exemplo dos santos nos exorta ainda mais a nos empenharmos na mortificação. Entre eles estão três que convém relembrar: São Bento atirou-se aos espinhos, São Francisco revirou-se na neve e São Bernardo mergulhou num poço gelado, os três para manterem sua pureza ante a tentação[10]. “Mas isso já faz tantos séculos… Hoje não há mais essa necessidade, é um radicalismo que a Igreja já superou”, diria outro. Todavia, vemos exemplos nos santos modernos, como o Beato Pier Giorgio Frassati, que tomava banho gelado no frio inverno italiano, bem como São João Paulo II, que dormia no chão. Não existe essa de “ultrapassado” para mortificação. Ela é, inclusive, mais necessária do que nunca, vista a situação de impiedade que se encontra o mundo contemporâneo. A Igreja estabelece tempos favoráveis para se mortificar: a Quaresma, o Advento e todas as sextas-feiras do ano que não são solenidades, mas queremos aqui ressaltar sua necessidade constante, como uma virtude.


Batismo, fundamento da mortificação cristã

Pelo Batismo fomos sepultados e ressurgimos com Cristo. Pelo Batismo fomos elevados à dignidade do sacerdócio régio. A função do sacerdote é sacrificar, tornar algo sagrado e a mortificação é uma forma de sacralizar o corpo. “Eu vos exorto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a oferecer vossos corpos em sacrifício vivo”, diz São Paulo aos Romanos[11]. Depois de citar essa passagem em um sermão, São Pedro Crisólogo diz: “o ser humano não precisa ir buscar fora de si uma vítima que deve oferecer a Deus; traz consigo e em si o que irá sacrificar a Deus[12].”


Motivos para se mortificar

Primeiro: glorificar a Deus e reparar as ofensas cometidas contra Ele. Vimos que nisso consiste o pecado, isto é, uma ofensa a Deus, e sem Ele só pecamos. A mortificação é um dos meios para desagravar o Senhor. Basta lembrar a intenção de Jesus ao revelar para Santa Margarida Alacoque a devoção ao Sagrado Coração e de Nossa Senhora aos Pastorinhos de Fátima. Quando estamos com a confissão em dia e sem penas temporais a serem satisfeitas, nossas mortificações não só as “anulam”, mas abundam em santificação, Deus se torna favorável a nós.


Segundo: porque toda a Igreja lucra. Como já comentamos antes com a passagem de Colossenses, podemos oferecer a Deus os méritos de nossos atos por um terceiro, o que seria um mérito por conveniência[13]. Para ilustrar melhor, pense no seu corpo. Quando você ingere algum alimento, todos os nutrientes dele são distribuídos conforme a necessidade de cada membro. Assim também no Corpo de Cristo, a Igreja, alimentada pela divina graça, conquistada por esses méritos.


Terceiro: recuperação da harmonia universal[14]. Quando satisfazemos todas as penas temporais (o que ordinariamente só se faria por uma indulgência plenária) e crescemos na comunhão com Cristo, conformando-nos a Ele, aumentamos toda a nossa harmonia com a Criação, perdida com o pecado original. Diz São Paulo aos Romanos[15]: “de fato toda a criação espera ansiosamente a revelação dos filhos de Deus; pois a criação foi sujeita à vaidade, não por seu querer, mas por dependência daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação seja libertada da escravidão da corrupção, em vista da liberdade da glória dos filhos de Deus”. Ao se mortificar, a harmonia é gradativamente recuperada consigo mesmo, com o próximo e com toda a Criação, no sentido mais amplo, pois o ser humano foi constituído senhor e sacerdote e por ela deve oferecer o sacrifício de louvor ao Bom Deus[16].


Quarto: foi crucificando a carne que Cristo revelou todo o amor de Deus pela humanidade. “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia sua cruz e siga-me”[17]. Dissemos no início que o madeiro é condição para ser cristão. A mortificação é uma lenta conformação a Jesus, uma constante tentativa de sepultar o homem velho, que se fortalece com o pecado e revestir-se do homem novo[18], que se fortalece pelas virtudes e essas só podem ser conquistadas “domando” o corpo, como ensina Santo Afonso, ou a alma subjuga o corpo, ou o corpo escraviza a alma.


Por fim, chegamos a um quinto motivo: conquistar, com a ajuda da mortificação, as virtudes. Em Cristo o sofrimento tem sentido e sua busca voluntária pode ser meritória. Vejamos o que São João Paulo II diz sobre essa dinâmica: “Aqueles que participam nos sofrimentos de Cristo têm diante dos olhos o mistério pascal da Cruz e da Ressurreição, no qual Cristo, numa primeira fase, desce até às últimas da debilidade e da impotência humana: efetivamente, morre pregado na Cruz. Mas dado que nesta fraqueza se realiza ao mesmo tempo a sua elevação, confirmada pela força da Ressurreição, isso significa que as fraquezas de todos os sofrimentos humanos podem ser penetradas pela mesma potência de Deus, manifestada na Cruz de Cristo. Nesta concepção, sofrer significa tornar-se particularmente receptivo, particularmente aberto à ação das forças salvíficas de Deus, oferecidas em Cristo à humanidade. Nele, Deus confirmou que quer operar de um modo especial por meio do sofrimento, que é a fraqueza e o despojamento do homem; e ainda, que é precisamente nesta fraqueza e neste despojamento que Ele quer manifestar o seu poder.[19]


A necessidade da oração

Neste tópico me valho do Papa Leão XIII, em sua magistral encíclica Octobris Mense, para mostrar como dar pleno sentido à mortificação: “Porquanto, se a oração conforta a alma, robustece-a e eleva-a às coisas celestes, a mortificação habitua-nos a dominar-nos a nós mesmos, e especialmente o corpo, que, por motivo de antiga culpa, é o mais perigoso inimigo da razão e da lei evangélica. Há entre estas virtudes - como é evidente um nexo indissolúvel. Elas se ajudam reciprocamente, e juntas tendem ao mesmo fim, que é o de desapegar o homem, nascido para o Céu, das coisas caducas deste mundo, para elevá-lo quase a uma celeste intimidade com Deus. Ao contrário, aquele que tem o ânimo aceso pelas paixões e amolecido pelos prazeres tem náusea das alegrias celestes, que nunca experimentou. A sua oração não passa de uma voz fria e lânguida, certamente indigna de ser escutada por Deus”[20].


Vimos a grande necessidade da mortificação para vida cristã, com o fim de unir mais perfeitamente o fiel a Cristo. Mas sem uma vida sacramental, que aumenta em nós a graça santificante, e a oração, que é por si o relacionamento com Deus, a mortificação não gera fruto. Busquemos a Confissão caso precise e tomemos a Comunhão sempre que possível, pois não há nada de mais valioso do que Jesus Sacramentado, por ele temos o antegozo do céu. Não hesitemos em pedir socorro a Virgem e pedir a Ela o auxílio de seus méritos para nossa conversão. Ela é a Mediadora de todas as graças de Deus. Foi por Ela que Cristo veio ao mundo e é por Ela que Ele deve reinar[21]. Se o temor de Deus ainda nos afasta dEle, recorramos a Dulcíssima Maria, a fim de, entregues totalmente a Ela, sermos inteiramente moldados em outros Cristos.


Ao fim deste texto convém deixar abaixo alguns testemunhos da Sagrada Escritura sobre a penitência de modo geral:

Salmos: 6; 31; 37; 50; 101; 129; 142.

Evangelho: Mt III, 2. IV, 17; Lc V, 32.

Cartas Paulinas: Rm XII, 1; I Cor I, 18-31; II Cor XII, 9; II Tm I, 6-14; Gl V, 24; Col III, 9-10.


Recomendações de como fazer penitência/mortificação:

https://www.escrivaworks.org.br/book/amigos_de_deus-ponto-138.htm (segue até o ponto 140).


Autor:

[1] Lc XXII, 42 [2] Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 612 [3] Lc IX, 24 [4] Catecismo da Igreja Católica, n. 1849 [5] Catecismo da Igreja Católica, n. 1850 [6] A Mãe do Salvador e nossa vida interior – Pe. Garrigou-Lagrange [7] Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1434 [8] Col I, 24 [9] Col III, 5 [10]A mortificação, escada para subir ao céu: https://padrepauloricardo.org/blog/a-mortificacao-escada-para-subir-ao-ceu [11] Rm XII, 1 [12] Ofício das Leituras – Segunda leitura da terça-feira da 4ª Semana da Páscoa [13] A Mãe do Salvador e nossa vida interior – Pe. Garrigou-Lagrange [14] Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 400 [15] Rm VIII, 19-21 [16] cf. Dn, III, 57-88 [17] Lc IX, 23 [18] cf. Ef IV, 22-24 [19] Carta Apostólica Salvici Doloris, sobre o sentido do sofrimento cristão – João Paulo II [20] Carta Encíclica Octobris Mense, sobre o Rosário de Nossa Senhora – Leão XIII [21] Tratado da verdadeira devoção â Santíssima Virgem, n.1 - São Luis Maria Grignion de Montfort