Você já ouviu falar em DMT?

A história do Cristianismo desde o seu surgimento até os dias atuais, e o diagnóstico dos cristãos de cada época, nos levam a perceber as nuances que houve em cada período da vida eclesial e, com o devido esforço de nossa parte, nos concedem também diversos aprendizados que certamente podem ajudar na maior adesão ao Evangelho de Cristo e no entendimento sobre de que modo o Senhor nos pede para cumprir o seu mandato de ir a todas as nações e anunciá-Lo no tempo em que vivemos.[1]



Ainda que um diagnóstico histórico que se pretenda mais acurado, em geral, só possa ser feito muitos anos ou décadas após o acontecimento dos eventos analisados - a fim de que se possam considerar os múltiplos fatores que concorrem para a construção das mentalidades e ações dos agentes históricos -, acredito, sem pretender ser leviano no juízo, ser possível perceber um declínio geral do Cristianismo ao redor do mundo nas últimas décadas, seja em termos da quantidade de fiéis que aderem à fé, seja na credibilidade ou influência que os valores cristãos, por séculos vividos de modo praticamente unânime no Ocidente, incidem sobre as leis civis e sobre o comportamento das pessoas em geral. É verdade que na produção teológica, especialmente eclesiológica, recente, muitas ponderações parecem expressar algum progresso sobre aspectos da vida eclesial – a depender da perspectiva que são observados -, no entanto, parece-me haver uma clara distinção entre o que seja o diagnóstico de uma situação tomada de forma universal, e o que seja a consideração de aspectos que, embora isoladamente apresentem evolução, não refletem, necessariamente, um avanço orgânico geral.


Foi percebendo essa realidade que dois sociólogos norte-americanos decidiram, no início do terceiro milênio, realizar uma pesquisa com o intuito de apresentar as estatísticas de quantas pessoas se diziam ou não cristãs, mas também descrever o grau de adesão à fé e a profundidade religiosa dos cristãos daquele país. A pesquisa – intitulada Soul Searching[2]-foi realizada com adolescentes norte-americanos, os chamados Millenials[3].Sem pretender descrever aqui todos os dados recolhidos, mas enfatizando o aspecto central que desejo abordar nessa reflexão, a pesquisa apresentou que a grande maioria dos jovens pratica ou compactua com uma pseudo-religião pouco fundamentada que foi chamada pelos pesquisadores de Deísmo Moralista Terapêutico, ou, de forma abreviada, DMT.


Segundo eles, o DMT está baseado em cinco dogmas:

1. Existe um Deus que criou o mundo e observa de longe a vida humana;

2. Esse Deus deseja que as pessoas sejam boas, simpáticas e honestas, como ensina a Bíblia e a maioria das religiões;

3. O principal objetivo da vida é ser feliz e sentir-se bem consigo mesmo;

4. Deus não precisa se envolver com a vida de alguém, a não ser que esse alguém precise dele para solucionar algum problema;

5. Os bons irão para o Céu.



Eu e você provavelmente não nos surpreendemos diante do resultado dessa pesquisa. O trabalho dos sociólogos foi sistematizar, com rigor científico, pautados na observação, análise e descrição de dados, o que, em maior ou menor grau, pode ser observado na prática, não só nos Estados Unidos, mas em todo o Ocidente atualmente. O estudo empreendido por eles possui particular relevância ao elencar os dogmas citados e tratar sobre a “espiritualidade” vivida por essas pessoas.


O tal Deísmo Moralista Terapêutico apregoa uma vivência espiritual “cada um ao seu modo”, subjetivista, através da idolatria do bem-estar pessoal e, ainda que não tenha adotado formalmente esse nome, se alastrou por todo o orbe cristão. A grande força que brota do Evangelho e que parece logo nos primeiros anos de cristianismo ter levado milhares de fiéis a converter-se ao Cristo, a deixar tudo e segui-Lo, parece ter perdido espaço – mesmo dentro de nossas paróquias – para uma espiritualidade líquida, sujeita a “qualquer vento de doutrina” [4]que seja conveniente ao momento atual e a uma moral relativista contra a qual lutou fortemente o Papa Bento VXI em seu pontificado.


O quadro apresentado pela pesquisa e a mentalidade do DMT verificada na prática nos ambientes cristãos, no entanto, antes de instigar em nós o pessimismo e o desânimo, devem evocar o desafio para a vivência de um cristianismo puro e total, sem reservas ou mediocridades, afinal queremos aqui nesse mundo ser verdadeiramente úteis, deixar rasto, ou nos satisfazemos com uma vida estéril?[5]


O próprio Papa Bento XVI nos fez saber que ao seu modo de ver, mais cedo ou mais tarde, o destino da Igreja de Cristo neste mundo antes da Parusia é unir-se à Paixão de Seu Senhor: assim, a Igreja caminharia, aos olhos humanos, não para o triunfalismo universalista, mas para uma grande provação, durante a qual a sua identificação pública se daria por um pequeno punhado de homens decididos a viver o Evangelho na sua radicalidade, dispostos a serem ridicularizados, a serem tratados como excluídos, realmente decididos a viver um verdadeiro martírio branco em suas funções sociais.


À medida que o tempo passa, tendemos infelizmente a aderir à tibieza, ao relaxamento da nossa vontade inicial de imitar ao Senhor que seguimos, a deixarmos de lado os bons propósitos, a desanimarmos na luta contra o pecado e a nos tornarmos mais coniventes e conciliadores diante daquilo que a nossa opção fundamental – o Cristo – não concordaria. É isso certamente que permite o crescimento do tal DMT. A desistência daquilo que é verdadeiramente bom e a adesão gradual à mornidão tão repreendida nas Escrituras é o que nos convence aos poucos de tentarmos conjugar uma vivência “cristã” com um subjetivismo que agora me permita viver não mais como o Evangelho me ensina na sua inteireza, mas sim conforme as minhas aptidões e vontades passageiras.


Coragem! “Reconhece, ó cristão, a tua dignidade. Uma vez constituído participante da natureza divina, não penses em voltar às antigas misérias com um comportamento indigno da tua geração” [6].


O Senhor mesmo nos encorajou a uma entrega total, a não olharmos para trás: “Porque aquele que quiser salvar sua vida perdê-la-á, e quem perder a sua vida por causa de mim, salvá-la-á. Pois que aproveita ao homem, se ganhar o mundo inteiro, e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma?” [7]. Assim, lembra-te todos os dias – e o digo a mim mesmo – do privilégio de ser chamado cristão, de poder seguir a ferro e fogo esse Deus que se fez homem para nos salvar e que mudou completamente as nossas vidas. Seguimos a um Senhor que se deixou ser hostilizado, maltratado, crucificado e que através do Sacrifício da Cruz nos deu Ressurreição, vida nova, alegria que este mundo não concede.


Convêm a nós o mesmo caminho, o sacrifício e a vida doada, para gozarmos da alegria sem fim destinada a nós por Ele. E quem sabe não seremos, – eu e tu –, não pelas nossas pouquíssimas forças, mas pelo desejo inflamado de adesão a graça de Deus que nos visita constantemente, esse tal punhado de homens a seguir a Cristo até o fim!



[1]Mc 16,15

[2]Soul Searching: The Spiritual and Religious Lives of American Teenagers – Christian Smith e Melinda Denton

[3]Jovens nascidos entre o início da década de 1980 e início da década de 1990

[4]Ef 4,14

[5]Caminho, 1 – São Josemaria Escrivá

[6]Sermo 1 in Nativitate Domine – Dos Sermões de São Leão Magno, Papa

[7]Mt 16, 25-26


Autor:


Pastores Dabo Vobis
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