Nossa Senhora Aparecida, Rainha do Brasil e nossa


Na ocasião da celebração da Solenidade de Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira principal do Brasil, conforme proclamação do Santo Padre Pio XI, em 1930, pareceu oportuno oferecer aos nossos leitores algumas considerações sobre a história da devoção à Virgem Aparecida e sobre o título de Rainha do Brasil e nossa. Apraza a Deus que essas linhas sejam dignas de Maria e cooperem para o aumento da devoção indispensável a esta tão boa Mãe, especialmente invocada pelos brasileiros sob o título de Aparecida.

A história da Rainha do Brasil

Era o ano de 1717. Estavam os pescadores Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso em seus barcos, no Rio Paraíba do Sul, pescando para que a população da cidade de Guaratinguetá pudesse oferecer ao governante da capitania de São Paulo e Minas de Ouro um banquete por ocasião da sua visita. Pediram a ajuda de Deus e se confiaram à Nossa Senhora, pois não era temporada de pesca. Lançaram as redes e nada conseguiram. Repetiram o mesmo procedimento várias e várias vezes: nada pescaram.


Há um paralelo interessante entre essa história e a do chamado dos quatro primeiros Apóstolos, conforme narrado por São Lucas em seu Evangelho[1]: os Apóstolos também haviam trabalhado longas horas sem nada conseguir. Nos dois episódios – a pesca em Aparecida e a pesca dos Apóstolos –, os personagens foram surpreendidos pela maravilhosa intervenção Divina.


Ali, nos arredores de Guaratinguetá, a ação de Deus manifestou-se visivelmente em que, tendo necessidade de peixes, apanharam naquele dia, em duas incursões, subsequentemente, um corpinho simples de argila e, num lugar afastado dali, a honrada cabeça que compunham a imagem da Imaculada Conceição que, pelo modo como foi encontrada, foi chamada “Aparecida”. Aqueles homens, que antes da pesca haviam dirigido à Mãe de Deus uma prece, foram ouvidos: após o aparecimento da imagem, a pesca foi tão frutuosa que a quantidade de peixes ameaçava afundar as embarcações.


No entanto, seria um erro presumir que a intervenção Divina fosse restrita apenas ao atendimento de uma necessidade material. A abundância material daquela pesca em resposta à petição confiante, na verdade, era sinal visível da graça invisível concedida àqueles simples pescadores e, por meio deles, a todo o povo brasileiro. A história do desenvolvimento da devoção em torno àquela imagem da Virgem Aparecida mostra isso.


Durante alguns anos, Aquela que tinha sido acolhida pelo Apóstolo João em sua casa[2] foi mantida também na casa de um dos pescadores que a encontraram. Entretanto, como adquirisse fama pela quantidade de relatos de curas e outras graças alcançadas pela oração confiante diante da imagem, lhe foi concedido um pequeno altar na capela da vila, à qual acorria a gente simples e piedosa.


Em poucos anos, a devoção se espalhou de forma tão admirável que já não era possível receber os devotos e peregrinos que afluíam até àquelas cercanias. Por isso, em 1745, a imagem da Virgem Aparecida ganhou uma capela maior e própria.


A Virgem “Aparecida” tinha o poder milagroso de fazer brotar do interior do coração dos seus devotos o manancial da graça, o rio da Vida: Nosso Senhor não havia prometido que rios de água viva jorrariam do interior de quem tivesse fé Nele?[3]. Como em Caná, em Aparecida era a Mãe que intervinha junto a Seu Divino Filho e intercedia pelas necessidades de seus filhos[4].


Em 1888, foi inaugurada uma igreja maior, em Aparecida do Norte. Naquele mesmo ano, a imagem recebeu a visita da Princesa Isabel, a qual, em virtude de uma graça alcançada, ofertou à imagem a coroa de ouro cravejada de diamantes e o manto azul que adornam, atualmente, a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Em 1904, por concessão do Papa São Pio X, a imagem foi coroada em uma Solene celebração. Em 1908, a igreja de Aparecida do Norte na qual se encontrava a imagem foi elevada, pelo mesmo São Pio X, à categoria de Basílica. Em 1930, o Papa Pio XI proclamou Nossa Senhora Aparecida como Rainha e Padroeira principal do Brasil. Em 1950, um novo santuário começou a ser erguido: foi inaugurado por São João Paulo II, em 1980. Além dele, também o Santo Padre Bento XVI visitou o Santuário Nacional de Aparecida, em 2007, e o Santo Padre Francisco, em 2013. Os Pontífices São Paulo VI, Bento XVI e Francisco ofereceram, respectivamente em 1967, 2007 e 2017 Rosas de Ouro ao Santuário Nacional de Aparecida: o primeiro, em comemoração aos 250 anos da devoção à Virgem Aparecida; o segundo, por ocasião de sua visita ao Brasil, durante a qual acompanhou a V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, sediada em Aparecida do Norte; e o último, por ocasião da comemoração do tricentenário do aparecimento da imagem.


“O que no mundo é vil e desprezado, o que não é, Deus escolheu para reduzir a nada o que é”[5]: esse é o paradoxo da aparição da imagem da Virgem Maria no Rio Paraíba do Sul: frágil, pequena, quebrada, de argila, sem valor aos olhos de qualquer um que a encontrasse. No entanto, porque aqueles homens souberam acolher a pequenez daquela por quem o Altíssimo dispersa os orgulhosos, depõe os poderosos, exalta os humildes, sacia os famintos e despede os ricos de mãos vazias[6], puderam viver o efeito da palavra que diz: “todas as gerações hão de chamar-me bendita”[7]. Do interior de São Paulo, da pequena Guaratinguetá, os louvores à Mãe de Deus, aparecida nas águas do Rio Paraíba do Sul, passaram a ser entoados e conhecidos nos arredores, e sua devoção se espalhou por todo o território nacional, até podermos invocá-la, hoje, como Rainha do Brasil e nossa.

Rainha nossa

A doutrina sobre a realeza da Santíssima Virgem Maria pertence à Tradição católica: os florilégios dos Padres da Igreja, a ratificação e exposição dos Santos Padres, a Liturgia e a Arte da Igreja, o esclarecimento dos teólogos e os escritos dos Santos dão testemunho da antiguidade e universalidade desse título que, muito convenientemente, os cristãos atribuíram sempre à Mãe de Deus. Recentemente, o Papa Pio XII recolheu na Encíclica Ad caeli reginam, pela qual instituiu a festa litúrgica de Nossa Senhora Rainha, a doutrina sobre a realeza de Maria: para sua leitura remeto os queridos leitores desse texto.


Maria é Rainha. Sua coroação gloriosa pela Santíssima Trindade, no Céu, é contemplada no quinto mistério glorioso do Rosário. Sua realeza e coroação na glória são a consumação do cabedal de graças singulares que ela recebeu pela predestinação à Maternidade Divina: é justamente pela sua união singular com o mistério do Verbo encarnado, Jesus Cristo, que tornou-se Rei e Senhor do Universo pela Sua Encarnação e por sua vitória sobre o Demônio e o pecado, que Maria é também dita Rainha universal[8].


Com efeito, como não se chamaria Rainha àquela escolhida para ser Mãe do Criador e, por isso, Medianeira de todas as graças para os homens?[9] Além de Rainha por herança[10], Maria é Rainha por mérito de congruo proprie[11], isto é, por uma conveniência radicada na amizade singularíssima estabelecida entre ela e Deus, pela qual Deus, nosso Senhor, dispensa e aplica todas as graças às almas em atenção à agradabilidade de Maria a Seus olhos, porque ela nos mereceu[12] essas graças por ser Corredentora da humanidade[13]: assim, como não se chamaria Rainha àquela que esteve singularmente associada à obra de Redenção universal de Jesus Cristo[14], pela qual submeteu o Demônio e o pecado, estando unida espiritualmente às humilhações, dores e sofrimentos de Seu Filho[15]?


Maria não é chamada “Rainha” apenas em sentido metafórico ou impróprio, como se se quisesse apenas indicar de forma correta e piedosa as suas qualidades espirituais, sua plenitude de graça, glória e caridade que a tornam superior a todas as criaturas; mas é chamada “Rainha” também no sentido estrito, literal e próprio do termo, isto é, indicando que de fato recebeu poder sobre todas as criaturas para governá-las e conduzi-las a seu fim último, ainda que esse poder seja, evidentemente, limitado e tão somente participado[16].


Maria é nossa Rainha, portanto: recebeu um poder verdadeiro e real de Deus, ainda que limitado e participado, para exercê-lo sobre nossas almas no sentido de orientá-las para o nosso fim último sobrenatural, a eterna união com a Santíssima Trindade, no Céu. Como diz o Pe. Garrigou Lagrange: “Maria participa de sua realeza universal na medida em que, sobretudo de um modo interior e oculto, ela nos dispensa todas as graças que recebemos, e que ela mereceu-nos em união com seu Filho; participa também exteriormente, na medida em que outrora deu exemplo de todas as virtudes, contribuiu para iluminar por suas palavras os Apóstolos e continuar a nos iluminar.”[17]


“Maria é um lugar santo, o Santo dos santos, em que se formam e modelam os santos”[18]. Se queremos verdadeiramente viver unidos a Deus, por Ele e para Ele, recorramos à escola de Maria e, com certeza, não seremos desapontados, mas transformados em filhos agradáveis a Deus. Ela que é Rainha universal por herança e por direito, reine em nossas almas a fim de formar nelas a imagem de Seu Divino Filho; Ela que é Rainha do Brasil, interceda pelas necessidades espirituais e temporais da nossa nação e conceda que esta nossa pátria seja digna do nome “Terra de Santa Cruz”; Ela que é Rainha dos brasileiros, interceda pelos filhos desta nossa amada pátria, a fim de que correspondam à vocação cristã e, na unidade católica, sejam agradáveis a Jesus Cristo.


De Maria nunquam satis...

Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil e nossa, rogai por nós!


[1] cf. Lc 15, 1-11 [2] cf. Jo 19, 27 [3] cf. Jo 7, 38 [4] cf. Jo 2, 1-5 [5] I Cor 1, 28 [6] cf. Lc 1, 46-55 [7] Lc 1, 48 [8] Cf. Ad caeli reginam, nn.37-39 [9] Cf. Idem., nn.8-9 [10] Cf. Idem., n.33 [11] Cf. TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, I-II, q. 114, a.6 [12] Cf. LAGRANGE, Garrigou. A Mãe do Salvador e a nossa vida interior. 1.ed. Ecclesiae, 2017, pp.166-173 [13] Cf. Ad diem illum laetissimum; DH 3370-3371. [14] Cf. Ad caeli reginam, nn.34-36 [15] As sete dores de Maria: a profecia de Simeão (cf. Lc 2, 34-35); a fuga da Sagrada Família para o Egito (cf. Mt 2, 13-21); a perda do menino Jesus no Templo por três dias (cf. Lc 1, 41-51); o encontro com Jesus a caminho do Calvário (cf. Lc 23, 27-31); aos pés da Cruz de Seu Filho (cf. Jo 19, 25-27); o recebimento do corpo morto de Seu Divino Filho (cf. Mt 27, 55-61); a deposição do corpo de Jesus no sepulcro (cf. Lc 23, 55-56) [16] Cf. MARIN, Royo. La Virgen Maria: teología y espiritualidad marianas. 2.ed. BAC, 1997, pp.220-229 [17] LAGRANGE, Garrigou. A Mãe do Salvador e a nossa vida interior. op. cit., pp. 225-226. [18] SÃO LUIS GRIGNION DE MONFORT. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem Maria, n.218

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