O apostolado cristão e a vida sacramental



Muito se tem debatido nos últimos anos sobre a crise atual que vivemos em diferentes níveis na Igreja (litúrgico, pastoral, doutrinário, etc.). Determinadas análises tendem a gerar vastas opiniões diferentes e divergências extremamente relevantes para a vida eclesial. Assim, nos momentos em que as crises se tornam mais perceptíveis, é improtelável ter a capacidade de, com serenidade, olhar para trás na história – onde não faltam exemplos de tribulações nem de grandes triunfos em momentos difíceis – e identificar onde os homens de Deus sempre lançaram a sua âncora para auxiliar os seus próximos no caminho da fidelidade a Cristo e da comunhão eclesial.


Com a intenção de tratar com cuidado e maior precisão possível cada um dos temas – vida sacramental e prática pastoral – gostaria de deixar como premissa que este é um texto de apologia da relação benéfica existente entre esses dois pilares. Portanto, é falsa a ideia – infelizmente crescente – de que uma ação positiva a nível sacramental é capaz de gerar males para o apostolado da Igreja e vice-versa. Não podemos crer que dois elementos da vida eclesial e, certamente, desejados por Cristo sejam contraditórios e se prejudiquem, e se isso acontece, é porque há algo fora do lugar.


Boa parte desse atual debate cresceu sobre o plano de fundo de uma falsa perspectiva de contradição entre a vida sacramental dos fiéis, que é de fato o meio ordinário de santificação[1], e a prática pastoral, que pode ser aqui resumida como o modo com que a Igreja se estrutura na práxis, em cada período de sua história, para uma evangelização mais eficaz e frutuosa, a fim de cumprir do modo mais pleno possível o mandato do Senhor, que nos envia a todos com a missão de espalhar a Boa Nova de seu Evangelho[2]. Se pudéssemos aqui fazer uma breve analogia para explicar o quanto essa teoria de contradição é falsa, seria como se disséssemos que fé e razão também fossem contraditórias. Ora, como pode ser que as duas vias que o próprio Deus concedeu ao homem para o conhecimento da verdade sejam capazes de se contradizer? Ao contrário, diz São João Paulo II que “não há motivo para existir concorrência entre a razão e a fé: uma implica a outra, e cada qual tem o seu espaço próprio de realização”[3]. Da mesma forma que Deus quis que o homem fosse racional e ao mesmo tempo capaz também de alcançar verdades mais elevadas através da fé, é verídico que Deus concedeu na Nova Aliança a vida sacramental como meio ordinário de salvação e o mandato da vida apostólica como parte de seu ensinamento para o cristão batizado, e essas vontades divinas não podem se chocar, mas devem caminhar juntas na busca da perfeição cristã.


O Concílio de Trento – que tratou do tema dos sacramentos largamente e com admirável precisão – desenvolve a definição clássica de Santo Agostinho, reafirmando que os sacramentos são sinais sensíveis, que contêm em si a graça divina que significam[4]. Ou seja, os sete sacramentos que conhecemos – todos instituídos diretamente por Nosso Senhor Jesus Cristo – são a forma com que Deus quis que, mesmo após a sua ascensão aos céus, a sua graça pudesse chegar até nós[5]. Sobre isto, não deixa de ser belo contemplar o modo como Deus quis comunicar sua graça na economia atual. Deus – sendo onipotente – poderia fazer chegar até nós sua graça de qualquer maneira, como bem o entendesse, e mesmo existindo os sacramentos, Ele pode – por vias extraordinárias, ou seja, incomuns – manifestar sua salvação. Entretanto, o caminho normal que Ele escolheu para essa comunicação – da qual dependemos para a salvação de nossa alma – foi justamente aquele que encerra em si um sinal sensível, pois conhecendo a nossa condição humana, sabia que tais sinais seriam o melhor modo possível para recorrermos à graça divina.


Outra grande verdade dos sacramentos é que eles comunicam a graça que significam independentemente da fé ou da condição moral dos fiéis que recebem esse dom. Ao contrário do que acreditavam os reformistas protestantes, não é a fé que determina a existência da graça no sacramento, mas é Deus quem a comunica ex opere operato, ou seja, pela força do próprio sacramento[6]. No entanto, essa verdade não minimiza a importância das disposições que devem buscar possuir os fiéis ao entrarem em contato com os sacramentos. Isso porque, ainda que a graça seja operada somente por Deus, os frutos da mesma serão maiores ou menores na alma de quem recebe de modo proporcional às disposições que se encontram nessa alma[7]. Isso explica, por exemplo, o porquê a Igreja sempre se preocupou com a liturgia em que os sacramentos estão envolvidos: pelo poder de sua beleza e da transmissão das verdades de fé ali presentes, além de oferecer um culto mais perfeito a Deus, uma liturgia ordenada é capaz de auxiliar o fiel em suas disposições interiores.


De qualquer forma, muito importa aqui afirmar e reafirmar o que a Igreja tem dito desde sempre de maneira muito clara sobre a doutrina dos sacramentos: são eles os meios ordinários de salvação para os homens, e por isso sempre devem encontrar atenção especial da hierarquia da Igreja, da vida cristã dos fieis e mesmo do apostolado cristão. A dimensão sacramental não pode ser marginalizada na vida eclesial e, por isso, também a prática pastoral deve, em última instância, visar que as pessoas evangelizadas possam ter a graça de uma vida sacramental agradável a Deus.


Em relação ao outro pilar desse texto, sabemos que o apostolado cristão e o trabalho missionário fazem parte da natureza constitutiva da Igreja, que por sua vez, seguindo às pegadas de Jesus Cristo, busca continuar a incansável missão de anunciar o Evangelho do Reino de Deus[8]. O modo como a Igreja se estruturou ao longo de sua história para realizar da forma mais competente possível o mandato de seu fundador certamente varia de tempos em tempos, e não é o objetivo desse artigo realizar um apanhado histórico dessas estruturas. De qualquer forma, o que nos é caro aqui absorver é que tal missão não pode ser abandonada ou desvalorizada, mas ao contrário, sempre reestruturada de acordo com as necessidades eclesiais de cada tempo, mas fundamentada sempre em princípios que não venham a ferir qualquer outro elemento da fé católica, do contrário seria uma prática desconexa com o verdadeiro apostolado cristão. Frequentemente encontrarmos debates sobre qual seria o modo de apostolado mais eficaz no tempo presente, independentemente da realidade eclesial. Assim, importa dizer que não compete a esse texto apresentar uma “diretriz pastoral”, mas talvez nos seja conveniente pontuar apenas alguns princípios caros do apostolado cristão.


Primeiramente, fique aqui claro que há uma primazia, uma excelência da vida espiritual em relação ao apostolado e, por isso mesmo, o segundo só colherá frutos de verdadeira conversão, na medida em que estiver enraizado em uma fecunda vida interior. Nosso Senhor nos afirma isso categoricamente na passagem da videira verdadeira: “Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dará muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma”[9].


Em segundo lugar, não nos esqueçamos que, da mesma forma que o Senhor foi extremamente paciente com o seu povo na história da salvação – revelando-se de modo progressivo até a vinda do Messias na plenitude dos tempos[10]–, também nós em nossa atividade pastoral devemos buscar entender que há um caminho a ser trilhado com qualquer pessoa que seja, assim como o Senhor caminha pacientemente conosco, suportando nossas infidelidades. Isso não deve servir de apoio para uma vida estagnada, mas sim de trampolim para levantar-se após as quedas e tribulações da vida presente.


Tendo dito isso, é necessário ressaltar ainda que há um pilar duplo no apostolado cristão que não deve incorrer em cisão, e este é a relação entre verdade e caridade. De um lado – sobretudo por um relativismo ditatorial em que vivemos – é comum nos depararmos com mensagens que desejam deixar de lado a verdade com o intuito de trazer uma pretensa felicidade às pessoas. Aqui, com um ceticismo enorme sobre as verdades objetivas, se faz crescer sempre mais uma vida desprendida da realidade, argumentando-se por uma falsa caridade. De outro lado, como um movimento de “ação-reação”, há aqueles que desejam gritar as verdades de fé se utilizando de instrumentos ou de modos completamente destoantes da caridade cristã. É compreensível que essa equação nem sempre seja fácil de alcançar; porém, uma vez que crescemos em consciência, é preciso que não abramos mão, nem da verdade, nem da caridade.


Com esses elementos desenvolvidos, podemos aqui voltar a afirmar aquilo que já foi prescrito como o objetivo das palavras deste texto: não pode haver uma contradição entre um verdadeiro, real e fecundo trabalho pastoral e a vida sacramental, ao mesmo tempo, não há vida sacramental frutuosa que não desperte o cristão para o apostolado.


Que o Senhor Jesus, a quem encontramos nos sacramentos e servimos no apostolado, ajude-nos, pela intercessão de Maria, Mãe da Igreja, a sermos homens e mulheres de profunda vida interior e de larga generosidade em nossas vidas.

[1] Cf. Constituição Dogmática Lumen Gentium – Concílio Vaticano II – n. 42 [2] Cf. Mt 28, 19 [3] Carta Encíclica Fides et Ratio – São João Paulo II [4] Cf. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral - Denzinger – Hunermannn. 1606 [5] Cf. Jesus Cristo, vida da alma – Dom Columba Marmion – p. 90 [6] Cf. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral - Denzinger – Hunermannn. 1608 [7] Catecismo da Igreja Católica – n. 1128 [8] Decreto sobre a atividade missionária da Igreja – Ad Gentes – n. 01 [9] Jo 15, 5 [10] Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina – Dei Verbum – n. 04

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Pastores Dabo Vobis
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