O celibato sacerdotal: precioso tesouro da vida presbiteral

"Vivo autem iam non ego, vivit vero in me Christus"[1].


Afirma G. K. Chesterton em Ortodoxia que “quem se propuser a discutir alguma coisa deve sempre começar falando daquilo que não irá discutir”[2]; e, portanto, não é o objetivo desse texto fazer um tratado histórico ou cronológico do celibato sacerdotal e, tampouco, oferecer uma nova teologia ou tratado teológico.


É fato que há muito tempo há objeções ao celibato; embora não se pretenda fazer uma análise histórico-cronológica do tema, ponhamos como raiz da atual balbúrdia contra o celibato sacerdotal as revoluções, sejam elas culturais ou até as ditas “revoluções sexuais”. Na verdade, a humanidade passou por grandes revoluções ao longo da história, e este nome já traz em si o peso maligno de ser um infame ceifador. Seja a revolução de Lutero que se voltou contra o Sacerdócio, a Missa e a Igreja; seja a Revolução Francesa que quis abolir Jesus Cristo; seja a Revolução Russa, que quis abolir Deus do mundo; seja a nossa revolução cultural que aniquila a dignidade da pessoa humana transformando-a numa besta. Portanto, todo o problema começa na tentativa de transformar o homem numa besta sexual, isto é, num ser para o qual só importa o prazer insaciável pelo prazer insaciável... um ciclo vicioso bestial. E o celibato se apresenta justamente como o ponto mais oposto a este pensamento. Se por um lado nega-se a humanidade por paixão ao sexo, por outro lado o sexo é negado por amor ao Amor.


Todavia, a revolta contra o celibato não acontece unicamente num movimento de fora para dentro da Igreja, mas, e mais grave, se vocifera contra o celibato desde dentro da Igreja. As correntes teológicas progressistas que apresentam uma doutrina controversa e duvidosa, que apresentam um secularismo sem precedentes e uma verdadeira banalização dos costumes e da moral, são a testa de ferro deste movimento tenebroso que não quer outra coisa senão minar a Igreja desde o seu fundamento. O progressismo teológico começa por ignorar que o Antigo Testamento deve ser lido a partir de uma perspectiva cristológica e, por isso, se nega a acreditar no sacerdócio ministerial e no celibato. Para empreender tal firma, lançam o celibato como obstáculo contra uma adequada realização pastoral, como fonte de tristeza e de infidelidade dos sacerdotes; quando, na verdade, o celibato sacerdotal, se vivido fielmente, é um grande contributo para a verdadeira e boa pastoral e para a alegria do sacerdote.


Já em início do século IV, o cânon 33 do Sínodo de Elvira (ESP) afirma que: “Ficou plenamente decidido impor aos bispos, aos presbíteros e aos diáconos, como a todos os clérigos no exercício do ministério, a seguinte proibição: que se abstenham das suas esposas e não gerem filhos; quem, porém, o fizer deve ser afastado do estado clerical”.[3] E, não como uma ordem impositiva como a do Sínodo supracitado, o Papa São Sirício, em fins desse século, já se contrapõe às imoralidades de sacerdotes que geravam prole, seja com sua esposa ou a partir de união ilegítima, alegando que os ministros da Antiga Aliança assim agiam; o Papa se opõe a esta argumentação recordando que os ministros da Antiga Aliança, no ano do seu ministério, ficavam longe de suas esposas para que pudessem oferecer a Deus um dom puro e agradável e que, na Nova Aliança, desde o dia da ordenação, os sacerdotes estão ligados a uma lei indissolúvel a fim de que possa oferecer a Deus tanto o coração quanto o corpo para, com sobriedade e pureza, sejam agradáveis os sacrifícios oferecidos diariamente[4]. O I Concílio de Latrão proíbe veementemente aos clérigos a convivência com mulheres, exceto se, por extrema necessidade, necessite, seja-lhe permitido a convivência com “a mãe, a irmã, a tia paterna ou materna ou outras semelhantes, a respeito das quais honestamente não possa surgir alguma suspeita”[5]. Disposições mais recentes do Magistério encontram-se ao longo do texto.


O celibato, por sua vez, não é um fardo que a Igreja joga nas costas dos seus sacerdotes, antes, é um tesouro precioso que desde há séculos ela guarda e preserva [6]. A abstinência sexual para os ministros sagrados era observada na Antiga Aliança e, uma vez que o sacerdote não dedicava-se permanentemente ao serviço sacerdotal, havia, então, possibilidade de casar-se; entretanto, enquanto estivesse exercendo o serviço sacerdotal, deveria abster-se das relações sexuais, ou seja, enquanto fosse responsável pelo culto, assumia, por assim dizer, uma espécie de celibato funcional.


Ainda sobre o Antigo Testamento, é sabido que a cada família cabia uma porção da terra; mas não à classe sacerdotal, porque o Senhor era a sua herança[7]. O Papa Bento XVI cita[8] o episódio de Naboth[9] significando que aquele seu terreno não era uma mera propriedade, mas a participação na Promessa de Deus feita a Israel. Mas e quanto ao sacerdote? Viver de Deus e para Deus, sem terras, sem herança terrena, pois para ele “foi preparada a melhor terra”, pois sua terra e sua herança é o Senhor. Meditemos a resposta de Nosso Senhor Jesus Cristo ao questionamento de São Pedro: indagou o Príncipe dos Apóstolos: “Ecce nos reliquimos omnia et secuti sumus te. Quid ergo erit nobis?” ao qual o Cristo asseverou: “E todo aquele que deixar casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos ou campos por causa do Meu nome, receberá cem por um e receberá em herança a vida eterna”[10].


O povo de Deus não almeja – e não merece - uma espécie de sacerdócio de segunda classe que em dado momento é do povo e noutro é da sua esposa e da sua família. Não! O imperativo de Cristo ainda se faz ouvir: “Não podeis servir a dois senhores!”[11]; o celibato sacerdotal representa, como diz o Concílio Vaticano II, “sinal e estímulo da caridade pastoral e fonte singular de fecundidade espiritual no mundo”[12].


A Cruz de Cristo é imagem de uma entrega total e o sacerdócio da Nova Aliança traz em si o mesmo significado. O sacerdote da Nova Aliança não se torna simplesmente um Alter Christus, mas Ipse Christus, quer dizer, não é apenas um outro Cristo, mas Cristo mesmo; o Cristo total, com sua majestade e com a sua Cruz.


Se no Antigo Testamento os sacerdotes se abstinham das relações sexuais nos períodos determinados de tempo, na Nova Aliança os sacerdotes dedicam-se inteira e totalmente ao culto. Tanto é que, para consagrarem-se inteiramente à oração e ao serviço da Palavra, os Apóstolos ordenaram os primeiros diáconos para que estes ficassem responsáveis pelo serviço caritativo. De fato, a natureza de entrega total que exige o sacerdócio da Nova Aliança reclama à alma sacerdotal do presbítero que ele viva o celibato.


O celibato sacerdotal não deve jamais ser observado sob a perspectiva de fardo, mas deve ser visto a partir da entrega total a Deus. O presbítero não é celibatário para negar-se a si mesmo, antes, ele o é porque entregou-se totalmente a Deus e sua função sacerdotal exige isto: colocar a sua vida inteira no altar do sacrifício. O sacerdote não é o “homem do culto” e fora do culto é outro, mas o homem que se oferece a si mesmo, todo, como Cristo se ofereceu totalmente ao Pai, por amor do mesmo Cristo.


Longe da realidade querer afirmar que o celibato é uma ideia que basta pensar e num piscar de olhos será cumprido; longe de mim querer afirmar que “A” cruz do sacerdócio é o celibato. O celibato só é bem vivido, em primeiro lugar, com a graça de Deus, e, ainda, com um desejo humilde e sincero de fidelidade[13]. Ademais, o celibato não pode ser “A” cruz do sacerdote porque ele não foi tirado do meio dos homens para sentar-se num trono, mas para, como Cristo, ser pregado na Cruz a fim de que possa exclamar: “Não sou eu que vivo, mas É Cristo que vive em mim”[14].


Jamais nos esqueçamos de que “o Senhor, Sacerdote Eterno, abençoa sempre com a Cruz”[15].

[1] Gl 2, 20 [2] CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. Campinas: Ecclesiae, 2013. p. 27 [3] DENZINGER, H. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. São Paulo: Paulinas/Loyola, 2006. p. 49 [4] Ibidem. p. 74 [5] Ibidem. p. 255 [6] Sacerdotalis Caelibatus, n. 1. [7] “Ó Senhor, sois minha herança e minha taça, meu destino está seguro em vossas mãos: foi preparada para mim a melhor terra, e eu exulto de alegria em minha herança”. (Sl 16, 5-6) [8] Do Profundo do nosso coração/ Cardeal Robert Sarah, com a colaboração de Bento XVI; [tradução Maurício Pagotto Marsola]. – 1. ed. – São Paulo: Edições Fons Sapientiae, 2020. p. 34 [9] Cf. I Rs 21, 1-29 [10] Cf. Mt 19, 27-29 [11] Mt 6, 24 [12] Presbyterorum ordinis, n. 16. [13]Para viver do Espírito e conformar-se com Ele (cf. Gl 5,25), a vida sacerdotal exige intensidade espiritual genuína e segura, ascética interior e exterior verdadeiramente viril. Pois, quem pertence a Cristo por um título especial, crucificou nele e por ele a própria carne com as paixões e concupiscências (Gl 5,24), não tendo receio de enfrentar, por isso, duras e contínuas provas (cf. 1Cor 9, 26-27). Assim, poderá o ministro de Cristo manifestar melhor ao mundo os frutos do Espírito, que são: "amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio" (Gl 5, 22-23)”. (Sacerdotalis Caelibatus, n. 78.)

[14] Gl 2, 20 [15] Sulco 257 – São Josemaria Escrivá


Autor:


Pastores Dabo Vobis
  • Instagram - White Circle
  • Facebook - Círculo Branco