O Espírito Santo e a Igreja


Hoje, no dia da Solenidade de Pentecostes, pareceu conveniente oferecer algumas breves linhas em honra da Divina Pessoa do Espírito Santo, a fim de suscitar o zelo e a piedade dos leitores, meditando brevemente sobre as relações estabelecidas entre o Espírito Santo e a Igreja, e o Espírito Santo e as nossas almas. Que a Santíssima Virgem Maria, Esposa do Espírito Santo, como a invoca veneravelmente a Tradição da Igreja, coopere nesse intento.

A Igreja é Templo do Espírito Santo

“O que o nosso espírito, quer dizer, a nossa alma, é para os nossos membros, o Espírito Santo o é para os membros de Cristo, para o corpo de Cristo, que é a Igreja” (Santo Agostinho, Serm. 267,4)

A imagem da Igreja como “Templo do Espírito Santo” decorre da efusão do Espírito Santo sobre os fieis na manifestação da Igreja, em Pentecostes, quando, como Dom do Alto, consagra os fieis como pedras vivas do edifício espiritual que é a Igreja, sendo Ele mesmo a Vida desse templo: com essa efusão, inicia-se o Tempo da Igreja, no qual o Espírito, enviado pelo Pai e pelo Filho, conduz os fieis à perfeição da caridade e difunde sobre a Igreja os dons e carismas para que em todo tempo e lugar seja contemporânea do mistério salvífico de Jesus Cristo, atualizando-o e difundindo-o principalmente pelos Sacramentos, mas também pela pregação da palavra e pela oração; e governando o Corpo Místico de Cristo pela hierarquia.


Essa imagem é particularmente rica pois compreende os aspectos da visibilidade da Igreja e, ao mesmo tempo, o seu mistério inefável: visibilidade porque “templo”, “edificação”, isto é, sociedade visível, Corpo Místico de Cristo presente na história; mistério porque “do Espírito Santo”, que é a sua alma, o seu princípio unificador, vivificador e motor:


O Espírito unifica a Igreja: convém atribuir ao Espírito essa missão unitiva porque um de seus nomes próprios é “Amor” e alguns de seus nomes apropriados são “Vínculo” e “Elo”: é o Espírito o vínculo, o amor entre o Pai e o Filho no seio da eterna Trindade; é Ele o elo de amor que une as almas à Trindade Santíssima e entre si na sociedade fundada por Jesus Cristo para a salvação das almas, que é a Sua Igreja;


O Espírito vivifica a Igreja: porque sendo a Igreja o Corpo Místico de Cristo, é um corpo vivo e operante graças à atuação divina e vivificadora do Espírito Santo, o qual, pelo banho regenerador do Batismo, salva e eleva interiormente cada batizado, infundindo-lhe a vida divina que, a partir de então, permanece uma qualidade sua intrínseca, se não a perde pelo pecado mortal. Convém atribuir ao Espírito Santo essa missão vivificadora pois um de seus nomes apropriados é “Fonte viva”, como canta o “Veni Creator”; e porque o Símbolo Niceno-Constantinopolitano o chama “Dominum et vivificantem”, Senhor e vivificador.


O Espírito move a Igreja: porque tendo sido dado a cada batizado como princípio interno de ação sobrenatural, age na Igreja de forma diversa, de modo a governar os inferiores pelos superiores, e a todos conduzir para uma união mais perfeita em Cristo; move a Igreja ao longo da história, e move cada fiel à realização de sua vocação própria, de seu apostolado em benefício da própria salvação e santificação e da dos demais.


Outra imagem tradicional é a do Espírito Santo como coração da Igreja: imagem recolhida, por exemplo, da Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino[1] e da Encíclica “Divinum illud munus”, do Papa Leão XIII.

O Espírito Santo e a Tradição da Igreja

No Evangelho de São João, Nosso Senhor diz que o Espírito “ensinará tudo aos Apóstolos, que recordará tudo o que Ele disse”[2], que o Espírito “dará testemunho Dele”[3], que “receberá do que é Dele e anunciará aos Apóstolos, guiando-os à verdade plena”[4]: ensinar, recordar, dar testemunho e guiar à verdade plena são promessas de Nosso Senhor em relação à missão do Espírito Santo na Igreja, especialmente em relação à missão dos Apóstolos.


“O Espírito Santo será o Consolador dos Apóstolos e da Igreja, sempre presente no meio deles — ainda que invisível — como mestre da mesma Boa Nova que Cristo anunciou. Aquele «ensinará» ... e «recordará» significa não só que Ele, da maneira que lhe é própria, continuará a inspirar a divulgação do Evangelho da salvação, mas também que ajudará a compreender o significado exato do conteúdo da mensagem de Cristo; que Ele assegurará a continuidade e identidade de compreensão dessa mensagem, no meio das condições e circunstâncias mutáveis. Por conseguinte, o Espírito Santo fará com que perdure sempre na Igreja a mesma verdade que os Apóstolos ouviram do seu Mestre.”, disse o Papa João Paulo II na Encíclica “Dominum et vivificantem[5].


A presença de Cristo e a atuação do Espírito Santo na Igreja estão intimamente relacionadas com o dom do sacerdócio e do ministério dos Apóstolos e de seus sucessores, pois é por meio de seu testemunho e atuação, enquanto instrumentos da ação divina, que a fé é transmitida por meio da pregação, que os Sacramentos são celebrados, enfim, que é difundida entre os homens aquela Vida que o Verbo veio trazer ao mundo: “a Tradição é a presença permanente do Salvador que vem encontrar-se conosco, redimir-nos e santificar-nos no Espírito mediante o ministério da sua Igreja, para glória do Pai.”, disse o Papa Bento XVI em Audiência Geral do dia 26 de Abril de 2006.


“A Tradição é a continuidade orgânica da Igreja, Templo santo de Deus Pai, erigido sobre o fundamento dos Apóstolos e reunido pela pedra angular, Cristo, mediante a ação vivificante do Espírito”, disse ainda o Papa Bento XVI na mesma ocasião. Essa continuidade orgânica é realizada precisamente por meio dos verbos “ensinar”, “recordar” e “guiar”: não se pode ver neles, porventura, a alusão àquele tríplice múnus que Cristo conferiu aos Seus Apóstolos: ensinar, santificar e governar?


Por meio do ensinamento dos Apóstolos – e de seus sucessores - e da unidade na mesma fé guardada e transmitida por eles, é que os fieis de todos os tempos se souberam ancorados na verdade, e não levados ao sabor de qualquer vento de doutrina estranha ao Evangelho da salvação[6]; por meio da ação santificante dos Apóstolos e de seus sucessores, principalmente por meio da celebração dos Sacramentos – dentre eles, especialmente a Eucaristia – é que os fieis de todos os tempos se fizeram simultâneos, por assim dizer, ao Mistério Pascal de Cristo morto e ressuscitado; por meio do governo dos Apóstolos e de seus sucessores é que os fieis de todos os tempos se souberam visivelmente unidos aos legítimos pastores. Resumindo, nas palavras de Bento XVI: “A Tradição apostólica da Igreja consiste nesta transmissão dos bens da salvação, que faz da comunidade cristã a atualização permanente, na força do Espírito, da comunhão originária”.

Nós, membros de Cristo, somos templos do Espírito Santo

“Aquele que crê em mim, conforme a palavra da Escritura, de seu seio jorrarão rios de água viva.” Ele falava do Espírito que deviam receber aqueles que haviam crido nele.” (cf. Jo 7, 38-39).

O Credo Niceno-Constantinopolitano chama o Espírito Santo de “Senhor e vivificador”. O Pe. Royo Marín, em sua obra “O grande desconhecido: o Espírito Santo e seus dons”, diz que no adjetivo “vivificador” está resumida toda a teologia da graça. De fato, é apropriado ao Espírito Santo, como comentado anteriormente, a regeneração interior pela qual os homens se convertem de criaturas em filhos, de inimigos em amigos, de pecadores em justos, pelo banho do Batismo. Isso porque, no Batismo, Deus outorga a Sua graça à alma, de modo a que ela tenha uma participação verdadeira, física e formal, ainda que análoga e acidental, na natureza mesma de Deus: “participantes da natureza divina”[7]. Esse dom sobrenatural é chamado graça santificante, e corresponde, como ensina Santo Tomás, ao início da glória[8].


A graça santificante, quando a alma a possui, é precisamente o rio de água viva que jorra do interior do homem. Isso porque a sua presença opera uma mudança qualitativa habitual, como um verdadeiro organismo sobrenatural que traz consigo, conforme expressão do Catecismo Romano, o nobre cortejo das virtudes infusas e dos dons do Espírito Santo[9], que são as suas faculdades operativas, isto é, o meio pelo qual a graça santificante age e cresce, produzindo atos meritórios de valor sobrenatural, que sejam correspondentes ao nosso fim último sobrenatural, a contemplação eterna e bem aventurada da essência divina sob a luz da glória, pois “se somos filhos, somos também herdeiros”[10].

“Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá. Pois o templo de Deus é santo e esse templo sois vós.” (1 Cor 3, 16-17).

Ora, não só rios de água viva jorrarão do interior da alma em estado de justiça. O Apóstolo vai adiante e diz sermos templos de Deus: e essa é uma consequência da nossa participação na natureza divina. A graça santificante é um dom criado que traz consigo um dom incriado que é a inabitação da Santíssima Trindade na alma do justo: em si mesma, a graça santificante já é um dom sobrenatural de valor inestimável, cuja mais mínima possessão vale mais do que todos os bens criados e criáveis. Essa é a dignidade e o valor de um dom que, embora sublime, é criado; o que não se poderia dizer, então, da presença mesma de Deus habitando o mais íntimo da alma em justiça como pai e amigo? A inabitação trinitária é um dom incriado que, embora acompanhe, supera infinitamente o da graça santificante. Deus que se dá como pai e amigo à alma em justiça para deiformiza-la, isto é, transforma-la progressivamente Nele, por participação, tanto quanto seja possível a uma criatura, e para faze-la fruir, já nesta terra, da alegria indizível da qual fala o Apóstolo: “o que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram, e o coração do homem não percebeu, tudo o que Deus preparou para os que o ama. A nós, porém, Deus o revelou pelo Espírito”.[11]


Depois de tudo o que foi dito acima, emprestando as expressões utilizadas pelo Pe. Royo Marín na introdução da obra já citada, é preciso lamentar a frieza e a indiferença de muitos fieis à ação divina, especialmente a da Terceira Pessoa Divina, o Espírito Santo, chamado “santificador”; lamento profundo que tem por causa o desconhecimento culposo de muitos que, podendo, não se esforçam por conhecerem melhor os mistérios sublimes da própria fé e que, desconhecendo-os, não honram nem cultuam devidamente Aquele que é chamado “Senhor que dá Vida”. Por isso, por estarem alheios na inteligência e na vontade à essa torrente de graças que jorram do seu interior e para a felicidade prometida para os que amam a Deus, veem-se sempre às voltas com o pecado ou com uma vida cristã medíocre, incapazes de ascender àquelas alturas para as quais foram criados, contentando-se com a vida sensível e animal, em vez de saciarem-se nas fontes eternas, como homens espirituais.


Concluindo, resta invocar o “Senhor e vivificador” para que renove o nosso espírito e o faça dócil às suas divinas inspirações, a fim de que, de graça em graça, cooperemos com Deus na obra da nossa santificação. A Virgem Santíssima, Esposa fidelíssima do Espírito Santo, a Mãe da Divina Graça, alcance-nos, por sua intercessão e mediação universal, todas as graças de que necessitamos. Assim seja.

[1] S. Th. II, q. 8, a.1 [2] cf. Jo 14, 26 [3] cf. Jo 15, 26 [4] cf. Jo 16, 14.13 [5] Papa João Paulo II. Carta Encíclica Dominum et vivificantem, n. 4 [6] cf. Ef 4, 14 [7] cf. 2 Pe 1, 4 [8] cf. S. Th. II-II, q. 24, a. 3, ad. 2 [9] Catecismo Romano, II 2, 50 [10] cf. Rm 8, 17 [11] cf. 1 Cor 2, 9-10


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Pastores Dabo Vobis
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