O Espírito Santo e Maria na nova evangelização



A evangelização torna viva e pulsante a vida de Cristo através da Palavra e das obras. Ela é o anúncio arrojado e intrépido do Evangelho. Por isso, a Igreja a enxergou desde o início como uma forma de viver a dimensão missionária da fé, levando a todos os pagãos o conhecimento de Jesus e presenteando-os com as verdades últimas. Hoje em dia também se acrescenta ao conceito de missão a evangelização dos batizados, tendo em vista nossa constante necessidade de conversão e de reencontro com Deus.


Comunicar a doutrina de salvação contida na Sagrada Escritura a todas as gentes é uma consequência radical da nossa adesão aos ensinamentos do Senhor. O mandato não dá margem para dúvidas: “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo[1]. Recusar a ordem de batizar e fazer novos discípulos é o mesmo que negar a própria identidade católica, justapondo a natureza humana à divina, acreditando que o homem pode alcançar os mais altos cumes da existência unicamente pelas suas forças. Em virtude das ideologias modernas, que contribuem para o entorpecimento da consciência cristã, esquecemos que evangelizar é um ato de amor ao próximo que dá continuidade às ações trinitárias, e não, como muitos afirmam, a descaracterização da cultura. As virtudes evangélicas elevam os povos e adicionam às suas tradições originárias valores purificativos, inserindo a história da civilização no bojo dos acontecimentos eterno-salvíficos.


Mas os enviados de Cristo seriam capazes de dar continuidade à proclamação da boa nova se contassem unicamente com os próprios méritos? Não. Para os auxiliar nessa tarefa, Jesus promete o Santo Espírito, “rogarei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito, para que convosco permaneça para sempre[2]. É o Espírito de Deus quem anima a ação evangelizadora e desperta no coração dos batizados o ardente desejo de pregar o Evangelho. Esse Paráclito, experimentado pelos profetas no Antigo Testamento, agora é derramado com toda a abundância de dons e carismas aos que aceitam viver sob o senhorio de Jesus Cristo, e que possuem como regra de vida os seus mandamentos. Dessa forma, os carismas se tornam ferramentas úteis para o apostolado e a catequização.


São Paulo em I Coríntios 12, 7-11 nos fala de uma variedade de carismas e dons. Existem aqueles que recebem o dom de proferir palavras de sabedoria e de ciência. A outros o Espírito dá o dom das curas, de fazer milagres, de proclamar profecias, de falar ou interpretar as línguas. O critério para o recebimento de um dom, é tão somente a necessidade da Igreja e a vontade de Deus, já que são graças sobrenaturais concedidas gratuitamente aos homens. Essas graças infundidas na alma aperfeiçoam o modo de ser humano, fazendo-o operar em direção ao seu Criador. Por essa razão, afirma-se que o exercício de um carisma não apenas contribui para a concretização dos desígnios divinos, mas também para a santidade do fiel. Pensar o uso dos carismas e dons no contexto da nova evangelização, antes de qualquer coisa, é deixar-se mover por Deus, quebrando todos os paradigmas modernos da contra-evangelização, e agir com docilidade diante das moções do Espírito de Amor.


Gostaria de continuar esse texto falando de Maria, a estrela da evangelização. Nos Atos dos Apóstolos, encontramos o seguinte: “Todos estes, unânimes, perseveravam na oração com algumas mulheres, entre as quais Maria, a Mãe de Jesus[3]. Numa leitura continuada, deparamo-nos com o cumprimento da promessa feita pelo Senhor, de que enviaria o Espírito aos seus. Estamos a um passo do Pentecostes.


Existe uma tradição na Igreja com base nessa passagem, a qual afirma que Maria estaria no cenáculo com os demais apóstolos no momento da descida do Paráclito[4]. Mas, como o próprio texto nos adverte, ela não está como as demais mulheres. De maneira especial e singular, o trecho bíblico se refere a ela como a Mãe de Jesus. Isso significa que o Espírito derramado, será o Espírito de seu Filho! Vejam o lugar único que ocupa a Virgem Santíssima na efusão que o Espírito Santo concede aos apóstolos. Ela que já havia experimentado a unção de Deus, agora intercedia pelos discípulos para que também eles o experimentassem. O evento ocorrido no cenáculo é a grande manifestação pública da Igreja de Cristo, e marca o início da evangelização após a Ascensão. A partir daquele instante, os doze se dispersam pelo mundo para cumprir o mandato missional da Trindade beatíssima. A Bela Senhora, toda pura e cheia de graça, participa desse momento vigiando os amados de Jesus, e tornando-se modelo de perfeição e obediência à vontade do alto.


Mas em que sentido dizemos ser Maria a estrela da evangelização? O Papa Francisco no final da Evangelii gaudium, ensina como Nossa Senhora deixou-se conduzir pelo Espírito Santo por uma fé inabalável, num chamado que se realizou pelo serviço e o silêncio. Não houve, e nem haverá, um silêncio mais eloquente e evangelizador que aquele da Virgem de Nazaré aos pés da cruz. Um silêncio fecundo e impregnado de toda riqueza contida nas Escrituras. Ter Maria como modelo de evangelização é deixar-se influenciar pela sua atitude de entrega ao Divino Hóspede, superando toda a aridez espiritual e esmorecimento. É ter nela o exemplo mais eficiente do uso dos dons sobrenaturais, nunca colocados a serviço próprio, mas para o engrandecimento do seu Filho e da Igreja.


Iniciamos essa reflexão falando da necessidade de uma autêntica ação evangelizadora, deixando-nos guiar pelo Espírito Santo através dos dons e carismas, e de como Maria é nosso arquétipo na relação com a Terceira Pessoa. Concluiremos, agora, com algumas poucas linhas recobrando o modelo caritativo mariano.


De acordo com as críticas de pensadores contemporâneos, as obras de caridade, especialmente as esmolas, seriam na realidade, para os mais abastados, uma forma de se esquivarem da justiça, manter suas posições, e forçar os pobres a permanecerem pobres. De igual modo, é alvo dos adeptos desse pensamento, as congregações e ordens religiosas que, vivendo a missionariedade batismal de seus membros, desdobram-se em atitudes caritativas.


A justiça e a caridade não são duas realidades antagônicas, não só podem, mas devem existir em harmonia[5], e a Virgem com suas ações nos ensina como isso é possível. Ela é tomada de verdadeira caridade quando sai apressadamente para visitar Isabel[6], ou em Caná, quando roga a Jesus que transforme água em vinho, “Eles não têm mais vinho[7]. Os poucos versículos bíblicos onde Maria protagoniza algo são provas de como ela nutria no íntimo um profundo amor ao próximo, capaz de fazê-la sair de si e ir ao encontro daqueles que sofrem.


Ela também contribui para a justiça de Deus. No Novo Testamento, é inserida uma nova concepção de justiça divina quando Cristo morre na cruz pelos pecados do mundo. A ideia do Deus justiceiro passa a ser completada pela certeza da inabalável misericórdia divina. Jesus cumpre plenamente a justiça quando se entrega de maneira livre e espontânea. Portanto, a economia da salvação e toda justiça se realizam pelo sim de uma jovenzinha e pela encarnação do Verbo. Aprendemos com a Mãe do Senhor, que toda atitude justa precisa ser guiada pela fé e pelo amor.

[1] Mt 28, 19 [2] Jo 14, 16 [3] At 1, 14 [4] GARCIA, J.C.R. Mariologia. BAC: Madrid, 5ªed., 1995, p.351 [5] Deus caristas est, n.26 [6] Lc 1, 39 [7] Jo 2, 3


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Pastores Dabo Vobis
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