O Hobbit: uma jornada vocacional

O Hobbit de J.R.R. Tolkien é um livro de literário fantástico que relata a história de uma criatura chamada para uma grande jornada. A história dessa aventura tem início quando um Hobbit – “criaturas pequenas com pés peludos que vivem em uma toca” –, chamado Bilbo Bolseiro, que em uma manhã, aparentemente tranquila, recebe a visita inesperada de um mago cinzento chamado Gandalf e, além dele, uma companhia de anões, os quais buscam retornar para a terra natal, invadida por um dragão chamado Smaug[1]. Bilbo, sendo um Bolseiro, sempre ansiou por uma vida serena e sossegada, nunca viveu ou quis viver uma grande aventura ou algo inesperado que não seja uma caminhada no final da tarde, sempre preferiu permanecer no conforto do condado. No entanto, apesar desses desejos, conheceu Gandalf, que o escolheu para viver uma aventura inesperada[2].



As histórias de Tolkien não são uma mera distração, não são apenas histórias para crianças, um mero sentimentalismo ou um lazer ocioso e sem proveito. A literatura Tolkieana, como a maioria das literaturas, é uma obra em que se pode refletir valores e virtudes necessárias para a vida, além de ensinar a olhar a realidade com espanto e admiração. Assim, ao se olhar a jornada de Bilbo, facilmente percebe-se uma faceta vocacional. A sua decisão de sair do condado, onde ele vivia uma vida extremamente confortável, e se lançar numa aventura desconhecida cheias de desafios não parece familiar? A vocação específica de um cristão exige uma decisão de adentrar um caminho longo e desconhecido, iluminado somente pela fé, tendo a dúvida como coadjuvante.


Bilbo inicia sua jornada com as mesmas inquietações de um jovem vocacionado: medo, insegurança e incertezas; porém, o que diferencia esse personagem de um humano são os pés peludos e grandes. Tolkien dá um enfoque especial aos pés, porque os simbolizam a busca da Verdade: na vida de um vocacionado, o ato de caminhar rumo à verdade da vocação deve ser o centro. “Tanto na tradição filosófica ocidental quanto na oriental, o ato de caminhar ocupa uma posição central. A busca pela verdade começa com os pés. ‘Nada como procurar quando se quer achar alguma coisa’, explica Thorin a seus companheiros anões. ‘Quando se procura, geralmente se encontra alguma coisa sem dúvida, mas nem sempre o que estávamos procurando’”[3]. Seus pés lhes proporcionam tal agilidade e também possuem um significado especial que é a busca pela Verdade. Essa procura inicia com os pés, se pensarmos naturalmente constataremos que é através de uma longa caminhada que se pode alcançar a verdade de nós mesmos, dos outros e do mundo. E Bilbo inicia sua caminhada com os anões e juntos vivem uma aventura de autoconhecimento. A vocação é uma aventura de incertezas e autoconhecimento.


O percurso de um vocacionado é semelhante ao de Bilbo, que é chamado para uma aventura incerta, a qual aparentemente não tem chance de prêmio humano. A decisão por seguir uma vocação tem sempre essas características, um chamado e depois uma decisão de caminhar rumo a uma Verdade que molda toda a vocação. O Bolseiro decide caminhar e, aos poucos, ele cresce como Hobbit, a sua humanidade ou “hobbitumanidade” é melhor formada. Bilbo do Condado não é mais apenas o Bilbo do Condado, a aceitação de sua vocação e a decisão de segui-la o torna mais hobbit, há um robustecimento de sua “humanidade” que faz com que seus medos e dúvidas sejam superados dando lugar a uma certeza.


Tanto na obra do Tolkien como na vida vocacional de um jovem, Deus não é um personagem passivo, mas participa da história, muitas vezes de modo silencioso e discreto, mas sempre com uma participação ativa, como um narrador que aparece no final da história. O que guia Bilbo Bolseiro é a certeza de que está sendo guiado e iluminado pela verdade. A exemplo desse Hobbit, o jovem vocacionado deve ter a certeza de que Deus está guiando e conduzindo-o à realização plena.


Como dito acima, o percurso à Verdade tem como resultados uma vida virtuosa. Algumas virtudes se destacam na história do pequeno Hobbit como instrumento para viver a plenitude da vocação. Elas podem ser um modelo a ser imitado por um jovem vocacionado. Mencionaremos aqui quatro virtudes.


A primeira delas é Magnanimidade, grandeza de alma. Apesar de ser uma criatura frágil e insignificante, o Hobbit cresce nessa virtude, e sua alma se torna cada vez mais nobre. Não tem medo de enfrentar as dificuldades que virão, porque sabe que existe algo que o alimenta e que dá mais coragem para enfrentar toda as dificuldades.


A prudência é a mãe das virtudes, regula todas as outras, buscando o meio termo. Bilbo se mostra prudente diante dos temperamentos impulsivos dos anões. Ao longo do livro, existem situações que o desespero entra na companhia, mas o Hobbit sempre se coloca numa posição de prudência e reflexão antes da realização de qualquer ação.


O livro está impregnado de fé. A virtude da ajuda o personagem a dar o primeiro passo e a entender que a busca pela Verdade é o que importa. Essa virtude teologal é o motor que ajuda o homem a continuar seguindo rumo ao desconhecido. A caminhada de fé nunca acontece de forma solitária, mas sim com companheiros de viagem.

Não se pode fazer nada de grandioso sem amigos. Dizia São João Paulo II que o ser humano é um ser de comunhão, necessita do outro[4]. Olhemos para um bezerro ao nascer, imediatamente sai andando pelo pasto sozinho; o homem, pelo contrário, necessita de um outro para que o ensine a andar, comer, falar, etc. O homem não pode viver sozinho, daí a origem da necessidade da amizade, que é parte integrante do nosso caminho.


Os amigos serão aqueles que estarão conosco nos momentos difíceis e alegres, e ainda são o termômetro de nossas ações. Bilbo não segue sua jornada sozinho, ele aprende a viver em comunidade com aqueles anões, criaturas tão diferentes dele, suportando seus costumes incomuns, opiniões distintas e modos de agir diversos. A amizade que se desenrola entre eles se tornará base daquele percurso até a caverna do Dragão Smaug. Todas essas virtudes, Magnanimidade, Prudência, Fé e Amizade são importantes para um jovem vocacionado. Bilbo não é um santo, nem um modelo elevado pela Igreja a ser seguido em todos os aspectos da vida. Tolkien coloca algumas virtudes em seu personagem para que o leitor enriqueça seu imaginário e contemple uma realidade ordenada. A fantasia, colocada desse modo, faz com que o homem entenda melhor o mundo que vive.


Se olharmos para os primórdios da educação, veremos que o grego era educado a partir da leitura da Odisséia e a Ilíada. Em sua infância, tinha como destaque a leitura dessa literatura para que fosse formado nos jovens as virtudes apresentadas nos heróis. A literatura faz com que o homem desenvolva a imaginação, para que possa encontrar soluções para a vida cotidiana. A exemplo dos antigos gregos, que tiravam da literatura direcionamentos coerentes para a vida cotidiana, a virtude era o que dava o norte para a vida de todo o jovem, era algo almejado por todos.


Todo o livro do Hobbit é uma aventura cativante que leva o leitor a experimentar todas as possibilidades da vida e, para um jovem que busca sua vocação, Bilbo é o modelo de decisão e entrega que se lança a uma aventura diante de um convite. O chamado vocacional é decisão e nasce de um convite de Deus para segui-lo. O olhar do jovem tem que estar voltado para a Deus. No mundo contemporâneo, onde cada vez mais o jovem está mergulhado nas incertezas e nas dúvidas diante da existência, ouvir esse chamado e olhar para além pode ser o ponto primordial para que a decisão por Deus aconteça. Paralelo entre a obra o Hobbit e o chamado vocacional é a certeza de que o jovem não está nesse mundo para ter uma vida cômoda e tranquila, mas foi feito para se lançar rumo a algo maior.


O homem tem essa sede pelo Transcendente, porque está na sua constituição. Essa vontade de alcançar o infinito tem que ser o motivo para que o ser humano não perca o sentido da vida. As palavras de Gandalf inquietam Bilbo, que começa a perceber que uma vida cômoda e sem desafios não preenchia o interior do seu coração. São muitos os jovens que se encontram vazios, porque não têm a coragem de se lançar nessa grande aventura do chamado vocacional, e se permitem viver uma vida medíocre.


Tolkien traz para todos os leitores um personagem frágil, que aos olhos do mundo não acrescentaria nada, mas que aceita o convite para uma aventura: o chamado de Deus sempre contempla as fraquezas, o que muitas vezes para o mundo não faz tanto sentido, mas só o Criador sabe o que a criatura pode doar.


Que o jovem, a exemplo desse Hobbit, possa tomar uma decisão séria e convicta do chamado vocacional. E entenda que a vocação é uma aventura inesperada tendo Deus como companhia e pedagogo, que ao longo da caminhada mostrará quem realmente somos e para que nascemos. A literatura que ajudará a alçar võos rumo ao Transcendente.


Nesse sentido, é possível observar que o chamado vocacional é sempre o chamado de Deus e a resposta do homem. Olhando para o Bilbo, pode-se contemplar dúvidas e incertezas que se encontram na vida de um jovem. Também é notável perceber que o poder da decisão e a escolha fundamental por Deus pode mudar realmente uma realidade.


Que hoje possamos mudar a perspectiva, que possamos lançar um olhar ao Transcendente, seja aquele que está no percurso da vocação ou aquele que ainda não se decidiu, tenha coragem de se aventurar nesse caminho que muitas vezes parece uma floresta negra, mas, que no final, teremos a certeza de que não somos os mesmos. Assim como disse Gandalf ao Bilbo: “Meu querido Bilbo! – Não é mais o Hobbit que era”[5]. Na caminhada vocacional, o autoconhecimento sempre está presente e nunca seremos o mesmo que iniciou essa aventura. Ao fim da Jornada teremos conquistado virtudes e uma intimidade maior com o criador. E, como Bilbo, devemos ter a certeza que seremos chamados para outras aventuras que exigirá renúncia e fé.

[1]TOLKIEN, 2009 [2] TOLKIEN, 2009 [3]IRWIN, William. O hobbit e a filosofia. Rio de Janeiro: Best Seller, 2012, p.30 [4]Comunhão e Serviço: A Pessoa humana criada à imagem de Deus n°25 [5]TOLKIEN, 1991, p.269


Autor:

Lucas Soares e Rodrigo Graciano

(Arquidiocese de Brasília)

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