O martírio: ápice do testemunho cristão



Nossos ouvidos estão viciados em fazer uma rápida associação da palavra “martírio” com “morte”. O termo "μάρτυρός”, do grego, significa testemunha. É exatamente este o termo que aparece em At 22, 20 referindo-se a Estêvão, testemunha do Senhor. Para além das antigas perseguições já bem conhecidas por todos, hoje é fundamental para a compreensão do testemunho cristão atual saber que estamos em guerra e não podemos ser covardes. Em tempos de terrorismo, espera-se do cristão o martírio.


O Cristianismo, em meio a uma hegemonia de pensamento que relativiza a ponto de excluir a verdade, é o bastião de defesa da Verdade. A Verdade possui em si um caráter atrativo; aquele que se dispõe honradamente a buscar a Verdade é por ela atraído[1] e também por ela libertado[2]. Verdade e Amor talvez sejam a mesma coisa. O fato é que, pelo menos, são inseparáveis; o amor pela Verdade, que leva à sua busca, é um caso de amor que suplanta os limites de uma teoria ou uma mera especulação.


São João em sua primeira carta diz que "a vida se manifestou, e nós a temos visto; damos testemunho e vos anunciamos a vida eterna, que estava no Pai e que se nos manifestou"[3]. Estamos em guerra, não podemos ser covardes. A figura do mártir aparece em total oposição à figura pusilânime do homem moderno. Este – o covarde –, sempre olha para trás e não é digno do Reino dos Céus[4], dando-nos a única lição de como não devemos agir; enquanto aquele segue intrépido o esto vir.


É importante destacar no mártir, isto é, na testemunha de Cristo, a virtude da fortaleza que “é um dom que nos incute energia e coragem para observar fielmente a santa Lei de Deus e da Igreja, vencendo todos os obstáculos, e os assaltos dos nossos inimigos”[5]. O cristão é chamado a dar a vida pelo irmão[6] e, de fato, é preciso coragem para amar; é preciso ainda mais coragem para amar o Amor até as últimas consequências e, se necessário, dar a própria vida. O martírio é o desejo do começo, a covardia é o desejo e a consumação egoísta de um fim. Entretanto, assumindo a coragem enquanto virtude e como meio pelo qual se almeja a conservação da vida, um homem corajoso assume ipso facto a disposição de morrer. Portanto, para ganhar a vida, o cristão caminha intrépido mesmo que seja rumo à morte, pois quem quiser ganhar a vida deve perdê-la[7].


O ápice do testemunho cristão é o martírio, mas, atualmente – sem excluir os abundantes casos de martírios cruentos –, o cristão deve estar preparado para, como disse o Papa Emérito Bento XVI, “ser indicado como irrelevante, ridicularizado ou ser motivo de paródia”[8]. É traidor aquele que, conhecendo as verdades da fé católica, não está disposto a sofrer por essa fé, sabendo que esse sofrimento é por Cristo; é covarde aquele que se esconde diante dessa perseguição moral. Longe de querer conclamar uma guerra santa, mas é preciso afirmar peremptoriamente que o martírio, ou seja, o testemunho é a arma de combate dos cristãos. O mártir “põe o coração para fora de si: morre para que alguma coisa possa viver”[9], o testemunho do cristão é dado para que a fé de muitos possa florescer com firmeza tal que também sejam capazes de dar esse mesmo testemunho.


Nosso Senhor Jesus Cristo, a Testemunha fiel[10], quer de nós uma vida doada sem medidas. É o que clama São Paulo: “Eu vos exorto a vos oferecerdes em sacrifício vivo”[11]. Esse sacrifício vivo é o sacrifício da vida entregue a Deus, da vida bem vivida, vivida santamente. São Josemaría disse em uma homilia: “Meus filhos: aí onde estão nossos irmãos os homens, aí onde estão as nossas aspirações, nosso trabalho, nossos amores — aí está o lugar do nosso encontro cotidiano com Cristo. Em meio das coisas mais materiais da terra é que nós devemos santificar-nos, servindo a Deus e a todos os homens”[12]. É impossível que aquele que se encontra verdadeiramente com Cristo não esteja disposto a ser sua testemunha.


Só uma geração de testemunhas fiéis será capaz de superar uma geração de covardes, porque os santos brilham com a Luz de Cristo e iluminam as trevas propagadas pelos covardes. O ápice do testemunho cristão é o martírio de ser santo numa sociedade degenerada. “Que a tua vida não seja uma vida estéril. - Sê útil. - Deixa rasto. - Ilumina com o resplendor da tua fé e do teu amor. Apaga, com a tua vida de apóstolo, o rasto viscoso e sujo que deixaram os semeadores impuros do ódio. - E incendeia todos os caminhos da terra com o fogo de Cristo que levas no coração”[13].


Se Deus nos conceder um dia a graça do martírio, que sejamos corajosos como São José Sánchez del Río ao ponto de dizer: “Mamãe, nunca foi tão fácil ganhar o céu como agora e não quero perder a oportunidade”.


Viva Cristo Rei!

[1] Cf. Jo 12, 32 [2] Cf. Jo 8, 32 [3] I Jo 1, 2 [4] Cf. Lc 9, 62 [5] Catecismo Maior de São Pio X, n. 918. [6] Cf. I Jo 3, 16 [7] Cf. Jo 12, 25 [8] http://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/speeches/2010/september/documents/hf_ben-xvi_spe_20100918_veglia-card-newman.html [9] CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. Campinas: Ecclesiae, 2013. p. 114 [10] Cf. Ap 1, 5 [11] Rm 12, 1 [12] São Josemaría Escrivá, homilia Amar o mundo apaixonadamente, 8-X-1967

[13] Caminho 1.


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Pastores Dabo Vobis
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