O olhar de um seminarista sobre a Semana Santa

Aproveitamos esse período de proximidade da Semana Santa para entrevistar um dos seminaristas da Arquidiocese de Brasília com ordenação diaconal prevista para esse ano de 2020. Nessa entrevista, o Lucas relata um pouco de suas experiências pastorais nos anos em que pôde viver a Semana Santa como seminarista, e nos traz uma exortação para que possamos bem viver mais uma vez esse período ímpar da nossa fé católica, mesmo com as adversidades presentes. Agradecemos a disponibilidade de nosso irmão Lucas Tadeu e desejamos a todos vocês uma abençoada e frutuosa Semana Santa:



1 - Todo católico é chamado a viver de forma muito especial a Semana Santa. Certamente, cada um dos fiéis a vive com alguma particularidade especial. Qual particularidade você diria que existe na vida de um seminarista na Semana Santa?


O seminarista, como um vocacionado ao sacerdócio, certamente deve viver com bastante intensidade e amor a Semana Santa, que é uma excelente oportunidade para que ele possa preparar com muito zelo cada momento celebrativo. No caso aqui de Brasília, a Semana Santa torna-se também um momento para conhecer melhor a realidade onde ele está inserido na vida pastoral, já que ficamos toda a Semana Santa nas paróquias colaborando com o pároco e com as equipes responsáveis por preparar as celebrações. Contudo, de um modo particular destaca-se a memória daquilo que estamos celebrando, ou seja, o Mistério de Nosso Senhor Jesus Cristo, Morto e Ressuscitado.

2 - O tempo do Seminário é um tempo de formação para o sacerdócio ministerial. Como a Semana Santa ajuda nesse processo de formativo?


O presbítero, como homem do altar, deve sempre recordar-se de que o Mistério Pascal é o centro da nossa fé católica, e aquilo que ele celebra na Santa Missa é justamente aquilo que vivenciamos em cada Semana Santa. Deste modo, o seminarista, ao viver com amor e devoção a Semana Santa, já antecipa o amor e a devoção por aquilo que será a cotidianidade de sua vida presbiteral. Além disso, o seminarista pode aproveitar a Semana Santa para aproximar-se dos livros litúrgicos, a fim de organizar e celebrar bem cada momento litúrgico.

3 - Seria possível fazer algum tipo de ligação entre os Mistérios celebrados na Semana Santa e o discernimento vocacional?


Certamente a Semana Santa é um privilegiado período para aprofundar o chamado de Deus, a segui-lo de todo o coração em cada celebração litúrgica


O Domingo de Ramos, que também é o Domingo da Paixão do Senhor, é um convite a proclamarmos sempre Cristo como o Messias, bem como renovar a nossa adesão ao seu chamado de amor. Os ramos, de fato, são também símbolo da nossa identidade cristã, e não é possível ouvir o chamado de Deus sem antes proclamá-lo como Senhor de nossas vidas e de nossa história.


A Quinta-Feira Santa é, por excelência, um dia favorável para se pensar no sacerdócio. Neste dia a Igreja faz memória do dia em que Cristo instituiu o próprio sacerdócio, bem como a Eucaristia, razão de ser do padre, e do mandamento do amor. O gesto de lavar os pés ressalta o despojamento necessário que o sacerdote deve possuir em sua vida, a fim de cada vez mais ter consciência da dimensão serviçal que possui o sacerdócio de Cristo.


A Sexta-Feira Santa é um convite a contemplarmos o Senhor que deu a vida por nós, sendo entregue como um cordeiro levado ao matadouro.1 O padre, como Cristo, deve dar a vida por Deus, pelo Reino, pela Igreja e pelo Povo de Deus, não somente oferecendo o Santo Sacrifício, mas também oferecendo-se como Vítima Agradável a Deus. O gesto de beijar a Cruz de Cristo, torna-se, assim, a decisão de abraçá-la, seguindo a Cristo, Servo Sofredor, que sempre diz: “quem quiser me seguir, venha após mim, e onde eu estiver, ali estará o meu servo”.2


Por fim, a Páscoa do Senhor é a certeza da vitória gloriosa de Cristo sobre o pecado e a morte. Recordo-me, que neste dia, na Vigília Pascal, eu recebi a túnica, no ano propedêutico. De fato, a túnica é um paramento sagrado que significa, por sua brancura, a vida nova em Cristo. O padre, com efeito, deve proclamar Cristo Ressuscitado e Vencedor, e buscar a santidade e a vida nova no cotidiano de sua vida.


Portanto, viver bem a Semana Santa, viver aquilo que nela se celebra é uma oportunidade de escutar mais uma vez o chamado de Deus em nossas vidas, pois trata-se de uma semana totalmente sacerdotal e sacrificial.

4 - Durante todo o seu tempo de formação, qual ou quais foram os momentos na Semana Santa que mais te marcaram?


Considerando que estou no último ano da formação, é, de fato, conveniente que eu faça uma espécie de reminiscência da minha vida e história vocacional. Lembrar de momentos bonitos vividos neste período de Seminário também me faz escutar mais o chamado de Deus.


Uma bonita experiência de Semana Santa eu pude viver no Ano Propedêutico, quando celebramos numa casa de reabilitação de dependentes químicos. Nas paróquias onde fiz experiências pastorais também houve momentos muitos belos na Semana Santa: destaco a longa Procissão de Ramos na Vila Planalto, sinal de manifestação pública da nossa fé nas ruas, bem como a Via-Sacra, também feita nas ruas, mostrando para as pessoas que Nosso Senhor deu a vida por todos nós, e quer que estejamos ao seu lado.


As duas Semanas Santas vividas no Santuário do Santíssimo Sacramento também foram marcantes: a interrupção da adoração perpétua como símbolo do esvaziamento vivido por Cristo na Cruz, e depois da Vigília Pascal as pessoas voltando a adorar o Ressuscitado.


Todavia, a experiência mais marcante eu pude viver ano passado, quando eu estava fazendo pastoral no Conselho Missionário Diocesano (COMIDI), e vivi a Semana Santa em Brazlândia*. Celebramos a Semana Santa em duas comunidades rurais, e éramos cinco seminaristas convivendo juntos na casa paroquial. Saíamos para rezar e celebrar nas comunidades e depois celebrávamos na Matriz. Foi uma ótima experiência, da qual sempre me recordarei.

5 - Neste ano viveremos uma Semana Santa diferente de todas as outras. Além das recomendações que a Igreja já deu, como podemos viver espiritualmente a Semana Santa neste ano?


Este ano estamos vivendo a experiência do Povo de Deus em seu exílio; longe do Templo e do culto, o Povo lamentava o fato de não poderem celebrar naquele que para eles era o lugar mais sagrado e mais importante. Contudo, aquele Povo pôde reafirmar a sua fé, e, uma vez retornados, celebraram com alegria e júbilo, e com certeza, com mais fervor, a grandeza de Deus.


Nós também devemos olhar para este momento difícil com esperança, embora seja lamentável. Portanto, não desanimemos em meio a isto, mas vivamos bem esta Semana Santa como se estivéssemos na Igreja, tendo a certeza que, embora não estejamos no Templo, não perdemos a nossa identidade de cristãos, pois somos a Igreja de Deus, Sacerdócio Régio e Nação Santa.


Desde a sua casa, faça sua oração, participe das celebrações que serão transmitidas, e contemple os mistérios que serão celebrados: aclame a Cristo como o Messias, Senhor da sua casa; adore a Jesus Eucarístico e reze pelos sacerdotes; contemple a Cristo Crucificado, e adore-o no madeiro da cruz, e, embora distante, alegre-se e rejubile com a vitória de Cristo Ressuscitado. Creio que será uma grande e emocionante alegria o dia em que voltaremos a celebrar juntos a Santa Eucaristia.

Se puder, deixe uma mensagem para motivar os leitores a viverem bem este tempo de preparação próxima para a Semana Santa

Por fim, como eu disse, não desanimemos! Vivamos com amor este grande momento da nossa fé e aproveitemos para rezar por todos os que sofrem por esta pandemia, e para que ela passe, pois como dizia Santa Tereza, “tudo passa, só Deus basta”.


1 Is 53,7 2 Jo 12,26 * Cidade satélite do Distrito Federal



Autor:


Lucas Tadeu

(Arquidiocese de Brasília)

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