O papel da Igreja na expansão do Reino de Deus

O Papa Pio XI instituiu a Festa de Cristo Rei do Universo no encerramento ano santo de 1925, pela encíclica Quas Primas, a fim de relembrar a todos os povos que somente a soberania de Cristo é capaz de estabelecer a paz.



Desde a época da monarquia, Israel já reconhecia Deus como seu único rei, sendo o rei de Israel seu representante. "Quoniam Deus magnus Dominus et rex magnus super omnes deos"1 Assim o Verbo Eterno, consubstancial ao Pai, sendo verdadeiro homem e verdadeiro Deus, participa desta realeza universal e superior a toda outra, por direito e natureza, mas não somente por isso. “Cristo é nosso Rei não só por direito de natureza, mas também a título de Redentor.”2 De fato, ele nos arrancou do reino das trevas, ao preço de seu sangue, e nos introduziu num novo reino. "Eripuit nos de potestate tenebrarum et transtulit in regnum Filii dilectionis suæ."3


Os milagres e sinais de Cristo atestam ser ele o rei-messias anunciado pelos profetas e esperado por Israel, mas ao contrário do que os próprios discípulos poderiam esperar, Cristo afirma categoricamente "regnum meum non est de mundo"4, ou seja, o reinado de Cristo não é puramente um reinado político ou social, mas transcende toda a realidade humana sem deixar contudo de abarcá-la. “É claro que Jesus não tem nenhuma ambição política [...] mas deseja cumprir a vontade do Pai até ao fim e estabelecer o seu reino, não com as armas e a violência, mas com a aparente fragilidade do amor que dá a vida. O Reino de Deus é um reino completamente diferente dos reinos terrenos.”5


Cristo estabelece, de fato, seu Reino acima dos reinos desta terra, investindo-se de uma autoridade que está acima de todo poder humano. “Ele veio à terra para exercer este poder, que é o amor, dando testemunho da verdade [...] e deseja estabelecer no mundo o seu reino de amor, justiça e paz. Este é o reino do qual Jesus é o rei e que se estende até ao fim dos tempos.”6 A história atesta que os reinos fundados no poder das armas acabam derrocando mais cedo ou mais tarde. “O Reino de Deus é fundado no seu amor e enraizado nos corações — o Reino de Deus enraiza-se nos corações — conferindo a quem o acolhe paz, liberdade e plenitude de vida.”7 É por isso que o “seu reino não terá fim.”8


“Cristo, a fim de cumprir a vontade do Pai, deu começo na terra ao Reino dos Céus e revelou-nos o seu mistério, realizando, com a própria obediência, a redenção.”9 E compete a nós, que somos a Igreja, germe deste reino na terra, fazê-lo crescer por toda parte. Assim, toda a ação da Igreja tem em vista o reino que virá, mas que também já está aqui, presente no nosso meio. O concílio constantinopolitano (381) usou o particípio presente “ἐρχόμενον” do verbo vir, para referir-se ao reino que “está vindo”, mas que ainda não chegou. Por isso continuamos a pedir como nos ensinou Jesus: "adveniat regnum tuum"10 O Reino de Deus é a meta para qual converge toda a história da humanidade. Somente “no fim dos tempos, o Reino de Deus chegará à sua plenitude”11, quando o tempo for levado “à sua plenitude” e “Cristo recapitular todas as coisas”12


O Reino de Deus tão pouco se restringe somente a Israel, mas se estende a toda a humanidade, e à humanidade toda, não se resumindo somente ao aspecto religioso, mas abrangendo tudo aquilo que é genuinamente humano. “O Reino diz respeito a todos: às pessoas, à sociedade, ao mundo inteiro. Trabalhar pelo Reino significa reconhecer e favorecer o dinamismo divino, que está presente na história humana e a transforma. Construir o Reino quer dizer trabalhar para a libertação do mal, sob todas as suas formas. Em resumo, o Reino de Deus é a manifestação e a atuação do Seu desígnio de salvação, em toda a sua plenitude.”13


O crescimento do Reino de Deus é sutil, como a semente de mostarda que apesar de pequena se desenvolve até o ponto de abrigar as aves do céu.14 Embora a iniciativa seja de Deus, ele tão pouco dispensa a nossa colaboração, mesmo trás duras exigências. “Este reino opõe-se ao reino de Satanás e ao poder das trevas; de seus adeptos exige o desprendimento não só das riquezas e dos bens terrestres, como ainda a mansidão, a fome e sede da justiça, a abnegação de si mesmo, para carregar com a cruz.”15 Jesus, por meio de suas parábolas não somente “convida ao festim do Reino, mas exige também uma opção radical: para adquirir o Reino é preciso dar tudo; as palavras não bastam, são necessários atos.”16


O mundo laicizado de hoje, excluindo cada vez mais Deus das realidades políticas, sociais e econômicas, se constrói em total oposição ao reino de Cristo, tendo como nefastas consequências “os germes de ódio esparsos por toda parte, as invejas e rivalidades entre nações, que alimentam as discórdias internacionais e dificultam ainda agora a restauração da paz; [...] as ambições desenfreadas, que muitas vezes se encobrem com a máscara do interesse público e do amor da pátria, e suas tristes consequências”, por fim “a perturbação da paz doméstica, pelo esquecimento e desleixo das obrigações familiares, o enfraquecimento da união e estabilidade no seio das famílias, e por fim o abalo na sociedade toda, que ameaça ruir.”17


Deste modo, a propagação do reinado de Cristo passa a depender cada vez mais da ação dos fieis leigos que devem assumir como vocação própria a “edificação da ordem temporal e agir nela de modo direto e definido, guiados pela luz do Evangelho e a mente da Igreja e movidos pela caridade cristã.”18 Assim, cada um é convidado a colaborar com a construção do reino de acordo com suas competências e talentos. “A ordem temporal deve ser construída de tal modo que, respeitadas integralmente as suas leis próprias, se torne, para além disso, conforme aos princípios da vida cristã, de modo adaptado às diferentes condições de lugares, tempos e povos.”19


Enfim, somos todos convidados a deixarmos que Cristo reine em nossos corações e nossas mentes, afim de que ele nos ensine o caminho a seguir, “luz nova à nossa existência marcada pela dúvida, pelo medo e pelas provações de todos os dias.”20 Dizer sim a este rei, e ao reino que há de vir, implica resistir a todas as forças que se opõem ao Reino e a assumir as consequências do Reino.



[1] Porque o Senhor é o grande Deus e grande rei sobre todos os deuses (Sl 94, 3)

[2] Pio XI, Enc. Quas Primas,10

[3] Nos livrou do poder das trevas e transferiu-nos para o reino de seu filho bem amado. (Col 1,13)

[4] meu reino não é deste mundo (Jo 18, 36)

[5] Bento XVI, Homilia da missa do 25 de novembro de 2012 com os novos cardeais - https://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/homilies/2012/documents/hf_ben-xvi_hom_20121125_nuovi-cardinali.html

[6] Papa Francisco, Angelus do 25 de novembro de 2018 - https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/angelus/2018/documents/papa-francesco_angelus_20181125.html

[7] ibid.

[8] Credo Niceno-Constantinopolitano apud DS 150

[9] II Concílio do Vaticano, Const. dog. Lumen Gentium, 3

[10] venha o teu reino (Mt 6,10)

[11] Catecismo da Igreja Católica, 1042

[12] cf. Ef 1, 10

[13] João Paulo II, Enc. Redemptoris Missio, 15

[14] Cf. Mc 4, 31-32

[15] Pio XI, Enc. Quas Primas, 12

[16] Catecismo da Igreja Católica, 546

[17] cf. Pio XI, Enc. Quas Primas, 23

[18] Concílio Vaticano II, Decr. Apostolicam Actuositatem, 7

[19] ibid.

[20] Papa Francisco, Angelus do 25 de novembro de 2018 - https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/angelus/2018/documents/papa-francesco_angelus_20181125.html


Autor:


Osvaldo Mafra

(Diocese de Ssma. Conceição do Araguaia - PA)

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