O que a vaidade nos impede de perceber?

Em breves palavras se faz necessário alguns apontamentos sobre a vaidade. O que é a vaidade? Qual o tamanho do vazio que queremos preencher? O que verdadeiramente importa nesta vida? Existe lugar para a vaidade na vida cristã?


Sobre estes questionamentos é sempre bom colocar de forma enfática que a pior doença que pode nos sobrevir não é a doença que afeta nosso físico. A pior doença é de fato o pecado que se expõe nas diferentes enfermidades da alma. Dentre os sete pecados capitais, a vaidade se encontra ligada a soberba. A vaidade é uma destas doenças que nos impedem de crescer no caminho de perfeição, o qual cada homem e mulher devem buscar. Ambos podem ser assolados com as seguintes exclamações: Que todos vejam minha bondade! Como eu sou maravilhoso! Como eu sou capaz de me destacar em minhas qualidades! Que vejam meu desempenho como líder! Que bela roupa e corpo escultural tenho para exibir! Que todos vejam a caridade que eu faço!...



A vaidade está também muito ligada ao grande problema do nosso tempo: A indiferença. Existe hoje, uma frenética obsessão com os cuidados e os resultados consigo: seja no campo do conhecimento científico, das academias lotadas de nossos dias, da estética, ou de qualquer realidade que possamos querer acentuar sobre nós. Tudo isso, estando sob o veneno da vaidade torna impossível olhar nos olhos de quem clama por nós.


No campo do amor próprio: quantas pessoas vivem para AUMENTAR cada dia mais seu “amor próprio”! É tanto amor próprio que o “amor ao Outro e aos outros” padecem. Estamos em dias difíceis onde se insiste em transmitir uma cultura carregada de vaidade. Por tanto é bom entender que a nossa salvação não vem do fruto que se pode colher do narcisismo, mas do nosso olhar contemplativo para Deus. Dele recebemos todo bem, que em sua providencia, nada nos deixa faltar.


Para este tempo marcado pela vaidade, algumas perguntas devem ser feitas a respeito do que se pretende realizar, e nossas atitudes precisam sempre ser iluminadas pela mais profunda verdade sobre nós. Algo importante para ter em mente é se o que faço tem como finalidade o meu engrandecimento ou o de Deus. Trata-se de uma felicidade que se encerra em meu louvor ou para o louvor de Deus? Que realidade é essa que quer maquiar as imperfeições que ainda não assumi?


Tratando-se dos cuidados com o corpo, ressalto que não se justifica aqui um descuidar dele de modo a tê-lo como desprezível, afinal nosso corpo é “templo do Espírito Santo”. Nem tão pouco assumir uma vida sedentária; o que de fato quero chamar a atenção é justamente para um verdadeiro discernimento, para que prevaleça uma justa medida neste cuidado consigo.


Se não combatermos em função dos bens eternos do que valerá a nossa vida quando este nosso corpo for reduzido ao pó? Que existência pobre é essa que se propõe a viver apenas no plano horizontal os prazeres desta vida, esquecendo que tudo por aqui se esvai? É uma grande loucura se revestir da cabeça aos pés dos atrativos vaidosos. A própria morte poderá sepultar nossa vaidade e por meio dela a nossa vida junto de Deus. Se colocarmos nossa vida neste mundo diante da Verdade capaz de mostrar toda vaidade, esta mesma morte corporal será sinal de triunfo para a vida eterna. Deus mesmo é o principal interessado em nos ver livres das correntes que nos prendem neste mundo, ao mesmo tempo em que espera nossa colaboração, para que nossos sentidos se abram para buscar o que é do alto[1].


“Uma das obras mais significantes da op-art, a clássica ilustração do artista Charles Allen Gilbert chamada de “All is Vanity” onde um suposto reflexo olha para o espectador enquanto a pessoa refletida não sugere isso... ”

Do que vale todos os esforços desta vida se o discernimento sobre o que realmente importa fica sempre para depois? Tudo que você sempre buscou fazer para se afirmar nesta vida: ter reconhecimento, poder público, lugares de destaque, autoridade, nomes em lojas ou terras... No âmbito espiritual: querer viver de uma caricatura de fé católica, viver de aparência de cristão (esquecendo que muitas vezes honrar este nome resultou em sacrifício cruento), desconsiderando que até mesmo aquele que anuncia o Evangelho por vaidade deixa de colher os devidos frutos em sua vida... Do que vale tudo isso? Em ultima instância, terá apenas o nome bem escrito sobre seu túmulo! Estas e tantas outras podem ser situações irrefletidas que vão adentrando a existência humana. A vaidade sempre irá se apresentar em nós com diferentes roupagens.


Em uma adequada definição sobre vaidade, Tanquerey apresenta que “A vaidade é um amor desordenado que deseja a estima dos outros”.[2] Aqui se faz imprescindível lembrar não com uma visão pessimista do corpo, mas em uma perspectiva realista que: Toda beleza sustentada pela vaidade passará por entre os dedos - “O encanto é enganador e a beleza é passageira”[3].


E ainda, algo importe de ser recordado é que a doença poderá recair sobre seus esforços, seus músculos “definidos” pelo culto ao corpo definharão; tudo isso porque em meio a sua obstinação se esqueceram que o próprio Deus não “aprecia os músculos dos homens. Agradam o senhor os que o temem”[4]. Tomás de Kempis, na liberdade de seu espírito admirava e questionava: “Que descanso mais completo que o do homem que só pensa em vós? E quem mais livre que o que nada deseja na terra?”[5]


Com a vaidade ganhamos em reconhecimento, muitas vezes, de uma imagem do que não somos genuinamente, e assim enfraquecemos na compreensão mais profunda do nosso ser. Sobre essa imagem fazendo relação aos meios de comunicação, vale aconselhar que quando se expõe demais nas redes sociais, mesmo que sejam atos de caridade, é sempre bom deixar oculto aquela caridade suficiente como passaporte para um dia estarmos juntos de Deus. Cristo nos ensina que “quando deres esmola, não mande tocar a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, na sinagoga e nas ruas para serem elogiados pelos outros. Em verdade vos digo: já receberam sua recompensa[6]”.


Afinal, o que fazer então para vencer a vaidade? A resposta se embasa no reconhecimento do verdadeiro e profundo entendimento do homem em sua integralidade. E entendendo que tudo que se possui foi dado por Deus e que na brevidade desta vida o que legitimamente importa é buscar com profundo desejo e reconhecer o Criador de todas as coisas.


Em síntese, pode-se fazer a mesma pergunta do Evangelho: De fato, que adianta alguém ganhar o mundo inteiro, se perde a própria vida?[7] O que adianta viver a vida com toda vaidade esquecendo-se que ela aqui possui a sua finitude? Como nos fala Luigi Giussani ao citar os escritos de C. Rebora, “Na iminência de Deus a vida acaba com as reservas caducas, enquanto cada um se agarra a algum bem que lhe grita: adeus!”[8].


Toda vaidade, tudo isso se reduz a um nada, quando se compreende que na verdade nada nos pertence. Tudo que temos e somos vem de Deus. Santo Afonso já dizia: “Quem ama a Deus é verdadeiramente humilde. Não se orgulha vendo em si algumas boas qualidades. Sabe que tudo quanto possui é dom de Deus...”.[9] O mais acertado a ser feito em nossos dias é uma vivência humilde capaz de reconhecer os dons que recebemos de Deus. Também o próprio Cristo precisou advertir Pilatos sobre este aspecto quando este o interroga: “Não sabes que tenho poder para te soltar e poder para te crucificar? Jesus respondeu: ‘Tu não terias poder algum sobre mim se não fosse te dado do alto”[10].


Portanto, o lugar que lhe foi dado, as posses que possui, a sua beleza, seus atributos materiais e espirituais são uma grande dádiva de Deus. E em tudo isso Deus seja sempre louvado. Que os bens transitórios não nos impeçam de buscar os bens eternos! No final de tudo não importa a vaidade deste mundo, o que verdadeiramente se faz imprescindível é correr em busca dos bens eternos onde há a felicidade completa.

Non nobis, Domine, non nobis; sed nomini Tuo da Gloriam![11]


[1] cf. Cl 3, 1

[2] TANQUEREY, Adolphe. Compêndio de Teologia Ascética e Mística. Trad. Dalton César Zimmermann. 1ª Ed. Campinas, SP: Ecclesiae, 2018. p.349.

[3] Pr 31, 30

[4] Sl.147,10-11

[5] Tomás de Kempis. Imitação de Cristo. Livro III. Cap. XXXI. 26ª Ed. São Paulo, SP: Ave-Maria, 2011. p. 289.

[6] Mt 6, 2

[7] Mc 8, 36

[8] GIUSSANI, Luigi. O senso religioso. 2ª Ed. São Paulo, SP: Editora C.I, 1993. p. 88.

[9] LIGÓRIO, Santo Afonso Maria de. A prática de amor a Jesus Cristo. 7ª Ed. Aparecida, SP: Santuário, 1996. p. 116.

[10] Jo 19, 10-11

[11] “Não a nós, Senhor, não a nós; mas toda glória a Teu nome!”


Autor:


Suenis Oliveira

(Diocese de Uruaçu - GO)

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