O que mudou na minha vida desde a entrada no Seminário?

Hoje, parando para refletir sobre o que mudou em minha vida desde aquele dia, percebo que esta é uma das questões que, na maioria das vezes, tenho deixado escapar. A rotina carregada, as preocupações acadêmicas, a ociosidade – estando na maioria das vezes “muito ocupado em não fazer nada”[1]– e demais circunstâncias têm roubado de mim algo que merece importância: refletir como cheguei até este momento, o que encontrei pelo caminho e o que mudou em minha vida.



Enquanto escrevo, vêm em minha memória lembranças de acontecimentos que marcaram cada etapa de minha formação até este instante. Em um vislumbre, chego até a sentir novamente as emoções de alguns momentos vividos. E, nesse processo de autorreflexão, percebo que já não sou mais o mesmo.


Ainda que em pequenas medidas, cresci, ou melhor, amadureci um pouco mais. Ao mesmo tempo, o que em boa parte de minha existência não havia notado, percebo que, nessa altura da jornada, minhas fragilidades se tornam cada vez mais evidentes e, aparentemente, mais difíceis de se enfrentar.


Contudo, lembro-me do chamado dos primeiros discípulose percebo que, incrivelmente, parece repetir também comigo. É Cristo que passa, fita os primeiros nos olhos, ama-os e, em seguida, convida-os: “Vem e segue-me”. Sem resistir “eles, no mesmo instante, deixaram as redes e seguiram-no”.[2] É aqui que um ardor inexplicável queima dentro de cada um de nós, e que me fez querer deixar minhas redes para seguir a Cristo. É sobrenatural.


Porém, o que mais vejo de similar com os discípulos é, certamente, quando me esqueço do amor que Cristo tem por mim e desvio o meu olhar d’Ele; quando vem a vontade de fugir, de abandonar. “Quereis vós também ir embora?”.[3] Percebe-se que mesmo os discípulos, aqueles que sem nem pensar abandonaram tudo para seguir a Cristo, agora são confrontados pelo próprio Autor de suas vocações. E quantas vezes quis eu também ir embora!?


Acredito que essa pergunta do Senhor tocou Pedro no mais íntimo de seu ser, um grito que ecoou em toda a sua caminhada até aquele instante. Nesse momento, talvez ele tenha pensado no que havia mudado em sua vida desde o dia em que foi chamado, e assim supera as dúvidas. O seu ardor volta a se tornar patente em seu coração; “Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens as palavras da vida eterna”.[4]


“Senhor, estou pronto a ir contigo tanto para a prisão como para a morte”.[5]Renovados pelo desejo de continuar seguindo a Cristo, os discípulos se lançam novamente, e voltam a fraquejar na caminhada; “Todos os discípulos, abandonando-O, fugiram”.[6]Observo que até aqui a minha caminhada no seminário tem se dado de forma parecida. Nas minhas limitações, não sou capaz de continuar, mas o Senhor, com sua forma incrível de nos levar a refletir com suas perguntas penetrantes – “... tu me amas? ”[7]–, restaura o meu vigor e me ergue novamente, encorajando-me a querer tentar mais uma vez.


O que mudou em minha vida até aqui? Talvez eu não seja capaz de me expressar em palavras, mas de uma coisa não me resta dúvidas: nenhuma lembrança de acontecimentos anteriores é capaz de causar em mim a mesma alegria que sinto nos momentos em que vivi, e vivo, depois que a voz de Cristo ecoou em meu coração. O mundo não é mau, mas não é capaz de me preencher, de me fazer feliz da forma que o meu Amado é, e disso tenho plena convicção.


A caminhada continua, e ainda permaneço no desejo de mudar mais e mais, porque se faz necessário. Cresci, certamente. Porém, acredito que a transformação maior foi perceber que necessito d’Ele, olhando em meus olhos, para me reerguer novamente quando os meus limites me atrofiarem e me paralisarem durante a caminhada. “Vem e segue-Me” uma vez mais.


“Quero ofertar minha vida, gastar os meus dias, minha juventude por amor. ”[8]



[1]IITs 3,11

[2]Mc 1,18

[3]Jo 6, 67

[4]Jo 6,68

[5]Lc 22,33

[6]Mt 26,56

[7]Jo 21,17

[8]Música “Oferta” – Missionário Shalom


Autor:


Pastores Dabo Vobis
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