Os efeitos da literatura na vida humana



Talvez pareça óbvio dizer que um santo é homem, porém parece que cada vez mais essa afirmação se torna necessária. Sendo assim, os santos tiveram, e têm, uma humanidade, a qual necessitou ser formada, preparada para que a graça divina encontrasse lugar para habitar. Podemos dizer, então, que os santos não são anjos, seres puramente espirituais, nem animais que não possuem uma alma imortal dotada de intelectualidade. São homens dotados de corporeidade, isto é, são compostos de matéria e forma, corpo e alma; como afirma Ramón Lucas Lucas, são espírito encarnado[1].


Tendo consciência disso, podemos afirmar que o homem necessita que essa humanidade seja formada e elevada, para que corresponda à potencialidade da sua natureza, com o propósito de alcançar o seu fim último, que é a união com Deus na eternidade.


Porém, assim como a virtude para ser alcançada precisa ser imitada de alguém, também a natureza humana necessita de modelos, arquétipos, com os quais possa perceber que pode alcançar a excelência devida. Ter consciência disso é elevar a natureza humana a seu maior grau de liberdade, que é a liberdade de eleição, autodeterminação, isto significa escolher algo quando se tem um pano de fundo com todas as possibilidades possíveis. Nessa perspectiva, liberdade é dar sentido à própria vida, completando-a a partir de metas magnânimas vividas no cotidiano[2]. Escolher, desse modo, é “completar a própria biografia”[3]; porém, assim como não se escreve um livro sem apoio de outros livros, não se completa a própria vida biográfica sem apoio de outras vidas humanas, as quais parecem verdadeiros mapas que apontam quais caminhos devo trilhar e evitar.


Assim sendo, a literatura pode ser uma fonte de possibilidades de biografias humanas: “O discurso poético versa sobre o possível ([...] dínatos), dirigindo-se sobretudo à imaginação”[4]. Em consonância com esse pensamento, Julian Marías afirma que a literatura é uma abreviatura da vida humana[5]. Isso significa que, por mais que a vida empírica, real, tenha uma preeminência sobre a vida literária, fictícia, deve-se levar em consideração que a vida humana é “longa”, no sentido de que se precisa esperar muito para conhecer a vida amplamente. Assim, os idosos são associados aos sábios, porque viveram muito e viram a vida humana passar com todos os seus percalços. A literatura será, então, uma forma de alcançar sabedoria antes do tempo passar: “La vida real, tomada en su integridad, con su figura completa, con sus edades y su argumento, con su trayectoria distendida desde el nacimiento hasta la muerte, es sólo excepcionalmente accesible, conocida sólo en forma fragmentaria o por referencias. La ficción, en cambio, abrevia y condensa esa trayectoria, y nos permite conocer en unas horas [...] una figura entera de vida humana[6].


Modelos de vida humana, bússolas com as quais o homem caminha com mais segurança e alegria, este é, em grande parte, o benefício da ficção para a vida humana. São Josemaria Escrivá parecia ter consciência disso. Em sua biografia, afirma-se que ele teve grande contato com os clássicos: “desde os escritores medievais até os do século de ouro espanhol”[7]. E é impressionante o modo como ele soube associar essas vidas conhecidas nos livros a suas empolgantes pregações e catequeses: “passados anos, os episódios literários e históricos, em prosa e em verso, surgirão vivos e espontâneos nos seus lábios, a par da doutrina cristã”[8].


O contato com a realidade fictícia parece despertar no santo, primeiro um amor pelo mundo concreto, e aqui faço memória do principal tema de suas meditações que era a santificação do homem no meio das coisas ordinárias, isto é, como ele próprio dizia, procurando ser santo no seu ambiente, na sua circunstância própria, “em meio das coisas mais materiais da terra”. E segundo, um amor pelo sobrenatural que fazia com que ele não enxergasse somente uma realidade material nas coisas, mas uma forma de alcançar uma realidade espiritual.


Portanto, mundo concreto e mundo espiritual não podem ser separados. De algum modo a realidade mais comum deve apontar para uma realidade transcendente. Por isso os filósofos antigos, e também os cristãos, procuravam alcançar a virtude da sabedoria, porque a verdadeira sabedoria consiste em reconhecer o ser de cada coisa, reconhecer que as coisas são, que existem e alegrar-se, maravilhar-se com essa verdade.


Chesterton dizia que “esses contos nos dizem que as maçãs são douradas unicamente para relembrarem o esquecido momento em que verificamos serem elas verdes”[9]. Afirmar que a realidade existe é gerar no homem um espanto para que ele perceba quão maravilhosa é sua vida. E amar o mundo, a realidade criada por Deus, de modo ordenado, é conduzir a minha humanidade à potência para qual ela foi criada.


“As leituras juvenis calaram fundo na sua alma, impregnando-a de beleza”, a literatura o ajudou a enxergar Deus na realidade, a perceber que mistérios divinos também se escondem na realidade, contribuiu ainda para preencher sua alma de conteúdos para transformá-los em amor, eram recursos, ideias para construir projetos nos quais Deus era a razão e a finalidade.


Em um relato comovente, São Josemaria Escrivá mostra-nos a influência da literatura no trato pessoal com Deus: “Comoviam-me essas cantigas, como a daquele monge que, na sua simplicidade, pediu a Santa Maria que o fizesse contemplar o céu. Foi até o céu na sua oração – todos nós entendemos isto, todos os meus filhos o entendem, todos, porque somos almas contemplativas – e, quando voltou da sua oração, não reconhecia nenhum monge do mosteiro. Tinham passados três séculos! Agora entendo-o também de uma maneira particular quando considero que Tu estás no Sacrário há dois mil anos para que eu te possa adorar e amar e possuir; para que eu possa comer-te e alimentar-me de Ti, sentar-me à tua mesa, endeusar-me! Que são três séculos para uma alma que ama? Que são três séculos de dor, três séculos de amor, para uma alma apaixonada? Um instante!”[10].


Em síntese, a literatura deve contribuir para que haja uma abertura para a contemplação do mundo, o que deve culminar na contemplação da sabedoria, que é sinteticamente falando, reconhecer que as coisas são. Assim sendo, ao contemplar o mundo, o homem assumirá aquilo que é uno, belo, bom e verdadeiro dele em sua biografia pessoal, e assumindo tais propriedade, poderá caminhar com passos mais firmes rumo à contemplação da verdade, fim último do homem a ser alcançado.


Esse foi o caminho dos Santos; por amarem a Deus, não descartaram a realidade, justamente porque a espiritualidade autenticamente cristã experimenta a relação entre o transcendente e o material. Os santos amaram o mundo, mas o amaram com uma perspectiva sobrenatural, sabendo que o Reino de Deus pode começar aqui, regnum Dei intra vos est, mas deve culminar em uma realidade que transcende a nossa. Enfim, Adélia Padro, poeta brasileira, uma vez disse em seus poemas, "de vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo", um santo, assim como o poeta ou outro artista, também olha o mundo de modo diferente, com uma perspectiva poética da sua circunstância, que procura transformar "a prosa diária em decassílabos".


Procuremos, então, assim como os santos, reeducar o nosso olhar sobre a realidade, aprendendo a maravilhar-se com aquilo que é mais ordinário. Esse processo é caminho para encontrar Deus de modo mais pleno, fazendo com que Ele seja o centro, que Ele reine e que mais almas O encontrem. E o papel da literatura é um significativo meio para que isso aconteça, pois os clássicos são diferentes olhares de diferentes homens sobre a realidade, e a leitura destes é meio para o homem apossar-se das possibilidades da vida humana, percebendo aquilo que é mais belo, bom e verdadeiro no mundo, e tomando consciência de que isso advém de Deus; além disso, percebe-se, também, em diversos exemplos literários, o quão terrível é a negação dessa vocação.

[1] LUCAS, Ramón Lucas. El hombre, espíritu encarnado: compendio de antropología filosófica. Salamanca: Sígueme, 2013 [2] STORK, Yepes Ricardo; ECHEVARRÍA, Javier Aranguren. Fundamentos de antropologia: um ideal da excelência humana. São Paulo: Ramon Llull, 2005 [3] Ibid., p.134 [4] CARVALHO, Olavo. Aristóteles em nova perspectiva. Campinas: Vide editorial. 2013, p.30 [5] MARÍAS, Julian. La imagen de la vida Humana. Buenos Aires, 1955 [6] Ibid., p.28 [7] PRADA, Vázquez Andrés. O fundador do Opus Dei. São Paulo: Quadrante, 2004, p.79 [8] Ibid., p.79 [9] CHESTERTON, Gilbert Keith. Ortodoxia. Campinas: Ecclesiae, 2019, p.70 [10] PRADA, Vázquez Andrés. O fundador do Opus Dei. São Paulo: Quadrante, 2004, p.80


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Pastores Dabo Vobis
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