Os Jesuítas e a educação no Brasil Colônia


“O catolicismo é um elemento constitutivo na história do nosso país”[1], o que significa que não podemos escrever sobre o crescimento do Brasil sem levar em consideração toda a influência da religião. Nesse sentido, é de grande importância o apoio dos jesuítas no contexto educacional durante o período colonial, e as marcas deixadas por eles, e que ainda hoje podem ser vistas.


“A evangelização no Brasil começa estritamente ligada à colonização”[2]. Após a chegada dos europeus, a coroa portuguesa necessitava organizar as terras recém anexadas e exercer certo domínio sobre a população indígena. A Companhia de Jesus é de grande importância para isso. Assim, em 1549 desembarcam com o primeiro governador geral da colônia, Tomé de Sousa, os primeiros jesuítas – quatro padres e dois irmãos religiosos –, que vinham para fundar as famosas missões. Possuíam como objetivos o estabelecimento dos bons costumes entre os que já eram cristãos e a conversão dos indígenas[3]. Talvez a chegada simultânea de dois poderes, o monárquico e o religioso, no Brasil recém descoberto, já fosse um indício de que nossa história estaria sempre marcada pela cruz (o sobrenatural) e pelo povo (o humano), como veríamos no desenrolar dos anos seguintes.


Esse primeiro momento é vivido com deslumbramento pelas duas culturas, as quais se revelavam tão diferentes. Somente mais tarde, com o avanço dos portugueses no território brasileiro, e a busca pelas riquezas naturais, é que a relação entre nativos e colonos seria abalada. A busca pelo progresso e pelo crescimento econômico desenfreado trouxe um desequilíbrio entre as duas raças, levando-as ao conflito.


Simultaneamente, dá-se início à catequese indígena e, embora no horizonte de ação da Companhia estivesse o enlarguecimento da fé, não se pode negar que iniciar os povos autóctones nas verdades salvíficas deixava-os mais submissos e suscetíveis ao poderio português e, portanto, todo o empenho jesuítico de evangelização era grandemente incentivado pela coroa.


De qualquer forma, enquanto a Companhia se preocupava com a vida dos povos indígenas e se empenhava na sua educação e cristianização para livrá-los da escravidão, o movimento bandeirante os submetia e vendia como mercadorias. Precisamos entender que no início da nossa história, o índio não era visto como pessoa, e justamente por isso os portugueses se viam no direito de tentar escravizá-los. A educação dada pelos padres demonstrava que a única diferença deles para o homem tipicamente europeu era o nível de conhecimento científico e de filosofias mais abstratas. Nesta luta veremos grandes nomes como o dos padres Manoel da Nóbrega, José de Anchieta, Gabriel Malagrida e o também literário, Antônio Vieira. Houve certa rixa entre os padres jesuítas e os bandeirantes, alguns religiosos foram mortos em defesa dos índios, e alguns desbravadores presos. Durante todo o período colonial, veremos acentuar cada vez mais a discordância entre a Companhia e os bandeirantes.


Não obstante, aos poucos os valores do homem moderno foram implantados na colônia, e o exigente processo de colonização era concretizado. Em meados do século XVI e XVII já haviam sido erigidas importantes Igrejas, como é o caso da Arquidiocese de São Salvador da Bahia e dos Bispados de São Sebastião do Rio de Janeiro e de Olinda[4], e as primeiras cidades sedes das capitanias começavam a crescer e se tornar importantes centros de comércio. Outro fator que acompanhou a construção da Igreja e que também contribuiu para a instauração da ordem na sociedade colonial foi a fundação dos colégios. Aqui tem início o importante método educacional elaborado pelos jesuítas, que durante muito tempo foi o único no Brasil, chamado Ratio Estudiorum. A contribuição da Companhia havia começado com a catequização dos índios e, aos poucos, eles se tornavam o único baluarte da educação numa terra que assumia progressivamente sua cara e formava sua cultura.


Em poucas palavras, esse método educacional pretendia construir um modelo de homem coerente com os princípios escolásticos e com as necessidades de uma sociedade em formação. Ensinavam disciplinas como filosofia, geometria, gramática, lógica, além da própria teologia. O pensamento filosófico, e as ideias sobre Deus ensinadas pela Companhia, aos poucos deram forma a um ideal de pessoa cristã que atendia as exigências de Portugal e da Igreja[5]. O resultado disso é o fato de hoje sermos um país de cristãos, independentemente das influências que recebemos dos povos africanos, trazidos à força e que difundiram amplamente seus ritos e crenças.


No ano de 1759, por ordem do Marquês de Pombal, primeiro ministro português, toda a Companhia foi expulsa dos territórios do império luso[6]. Este político, entusiasmado pelas ideias revolucionárias e iluministas decide podar todo projeto educacional e religioso realizado pelos jesuítas. Os padres de Sto. Inácio haviam alcançado grande prestígio na corte, entre os nobres, e com os camponeses, entre os mais humildes e simples. Eram, portanto, detentores de um poder político grandioso, que colocava em risco, como entendeu o marquês, a hegemonia do seu reinado. As consequências dessa expulsão foram funestas. Sem nenhum plano ou sistema educacional para substituir àquele realizado pela Companhia, o ensino nas colônias foi fortemente afetado. Por muito tempo, mesmo os filhos de abastados produtores, não tiveram a oportunidade de ascender ao conhecimento científico.


Apesar desse desfecho inesperado, podemos concluir enumerando algumas contribuições feitas pela Companhia de Jesus ao nosso país. Por exemplo, foram eles que iniciaram a luta pelos direitos da pessoa, quando defenderam as aldeias indígenas que eram constantemente atacadas. Essa defensoria deu margem, para mais tarde, dar-se início ao movimento abolicionista e ânimo para a campanha contra a escravatura. Também não podemos deixar de citar a contribuição literária da Ordem, com os famosos Sermões, do padre Antônio Vieira, que retratam muito bem a sociedade vigente. Além disso, envolto a toda a tentativa de educar nosso povo, devemos aos jesuítas o mérito de ter revelado a nós pensadores como Aristóteles e Tomás de Aquino.

[1] MATOS, Henrique Cristiano José. Nossa História – 500 anos de presença da Igreja no Brasil. 1ª ed. São Paulo. Paulinas, 2001, p.37. [2] ANTONIAZZI apud MATOS, Henrique Cristiano José, op. cit., p.44 [3] MATOS, Henrique Cristiano Jose, op. cit., p.116 [4] Ibid., p.162 [5] SHIGUNOV, Alexandre Neto. O ensino jesuítico no período colonial brasileiro: algumas discussões. Disponível em:< http://www.scielo.br/pdf/er/n31/n31a11.pdf>. [6] MATOS, Henrique Cristiano Jose, op. cit., p.289


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