“Pai, perdoa-lhes: não sabem o que fazem.” (Lc 23,34)



A tradição da Igreja pelos séculos imemoráveis compendiou e conservou as derradeiras palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo nas últimas horas, quando, à Cruz, estará trespassado não somente pela lança que abriu-lhe o coração, ou pelos pregos que perpetraram em seus sacrossantos braços, e tampouco pela coroa de espinhos encimada em sua cabeça como um sacramental do seu Reino. Foi, ó pecador, e é o pecado. São aplicáveis as palavras do santo profeta Isaías proclamadas pela Mãe Igreja naquela sexta-feira in parasceve: “e, no entanto, eram as nossas enfermidades que ele levava sobre si, as nossas dores que ele carregava”[1].


Ao observarmos atentamente as sete palavras do Deus crucificado percebemos a intrínseca correlação entre tais, e não isto apenas, pois nesse vocabulário encontra-se a plenitude de todo o ensinamento do Salvador Jesus e de maneira óbvia, como Deus e Homem verdadeiramente, no recôndito delas presentificam-se as dores e as angústias da humanidade ao esperar o seu advento glorioso, uma vez que, em Jesus, dá-se o encontro da história entre o Criador e a criatura querida desde toda a eternidade.


Tal comunhão, portanto, não é em si mesma uma abstração ou quiçá a estória de um herói. Porque o Deus que é Revelação assumiu a condição humana, exceto no pecado, segundo as palavras de Agostinho em um dos seus sermões sobre o Natal: “Aquele que te criou sem vós não pode te salvar sem vós”. Neste escrito, escolhemos a primeira palavra de Jesus para aí refletirmos e notar o quanto ela é atual no hoje da existência de todo mortal.


Suspenso no lenho, a primeira palavra de Jesus faz eco à relação que Ele mesmo, o Filho de Deus, O evocou: Abbá, (meu papai). No grito do Senhor, à hora sexta, segundo os evangelistas, está presente a sua oração tornada ali Sacrifício. Jesus que amiúde foi sendo uma oferta cruenta, nessa hora, a sua palavra continua sendo aquela do mistério da sua comunhão com Deus: ‘Pai’. Quais os sentimentos que podemos conceber nesse momento de agonia dolorosa? Por que, para Ele, que fez bem todas as coisas, sobram cusparadas e vilipêndios, suor e vinagre, coroa de espinhos e o seu lado direito trespassado? Por quê? Grande e reverente é o mistério da beatíssima paixão de Jesus Cristo! Superabundante é que naquela mesmíssima hora o Senhor não se esqueceu da sua palavra de confiança, do seu Ego sum, justificado numa palavra de amor: ‘Pai’!


A lume da primeira palavra o nosso Redentor contempla a humanidade de todos os tempos e, após evocar o seu Pai, Jesus não cessa em um pedido de perdão. A Carta aos Hebreus, em outras palavras, apresenta-nos as características do Sumo Sacerdote “que nos convinha”, e um dos seus atributos é a sua condição em se compadecer do pecador, por isso, no auge das suas dores, nosso Senhor não cessa em complementar a sua petição: “perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem”.


Bento XVI na sua trilogia Jesus de Nazaré nos oferece um relevante comentário sobre a súplica de Jesus: “A primeira palavra de Jesus na cruz (...) é o pedido de perdão para aqueles que assim O tratam (...). Implora o perdão para aqueles que o crucificam, e motiva esse pedido: Não sabem o que fazem”[2]. Ora, irmãos caríssimos, este ‘não sabem o que fazem’, prolonga-se no mundo e no Corpo de Cristo, isto é, na sua Igreja. São Paulo já havia advertido, na Carta aos Colossenses: “completo o que falta às tribulações de Cristo em minha carne”[3].


O que podemos elencar, portanto, dos atos insanos do homem contemporâneo que ainda gritam no silêncio de suas engenharias técnico-científicas, maculando a dignidade total do ser humano, reduzindo-o à descartabilidade? Quais as pretensões ao dar a negativa a Deus, substituindo-Lhe pelos ídolos mais atuais? Não é também o brado de Jesus à cruz, a voz da sua Igreja, quando a própria profissão da fé católica sofre crudelíssima perseguição em seu Corpo Místico?


O homem criado à imagem e semelhança de Deus contempla o Transfigurado-desfigurado. Aquele que antes da queda primeira vivia em paz com o seu Deus não teme em pedir a crucifixão do Justíssimo Jesus. A ignorância é uma deturpação consequente do pecado. Uma obscuridade de impedimento em enxergar a luz sem ocaso. Logo, Jesus sabia da inclinação na qual estaria imersa a vida do ser humano. E, por isso, ainda que o seu Sacrifício expiasse o pecado do mundo, a tendência do “não faço o bem que quero, mas pratico o mal que não quero”[4] presentificar-se-ia em todas as ações da antropologia comportamental.


Esse ‘mistério da iniquidade’ apenas se torna mistério da salvação, porque o novo Adão, Cristo, não se eximiu em, na obediência a Deus, voltar com o homem para reconduzi-lo ao paraíso. Ao lado da cruz de Jesus, lembremo-nos: dois malfeitores ouviram o seu “perdoa-lhes: não sabem o que fazem”[5], dos quais um lamentou tamanho castigo Àquele que fez bem todas as coisas. No desenfreamento da própria condição da liberdade outorgada por Deus ao ser humano, o qual chama-se pecado, está presente a anarquia do engano. Porque o homem capax Dei – capaz de conhecer a Deus –, não é Deus, nem o será. Os meandros da história já nos legitimaram essa afirmação e a evidenciou com provas.


Benditíssimo ato de comiseração e misericórdia do nosso Deus. Só Ele, em Jesus, pode ser a vítima vicária e a voz da complacência que acolhe os pródigos de todos os tempos em seu Unigênito. Em Jesus podemos também gritar como o cego Bartimeu: “Filho de Davi, Jesus, tem compaixão de mim!”[6] porque no alto da Cruz foi perdoada a culpa das origens.


Autor:


[1] Is 53, 4 [2] RATZINGER, Joseph. Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém até a Ressurreição. 3 ed. Planeta. 2020, p.188 [3] Cl 1, 23 [4] Rm 7, 19 [5] Lc 23, 34 [6] Mc 10, 47