Philocália, uma relação de amor com o sagrado


Sobe ao altar de Deus o sacerdote e paramenta-se para o ofertório, ressoa pelo templo o canto reiterado do “Kyrie eleison” enquanto este elege, entre alguns pães apresentados, o que será consagrado pela palavra e o Espírito. Procede ao redor do altar com o cordeiro escolhido. Neste é posto um véu, para simbolizar o corpo do Cristo morto no monumento, esvaziado, aguardando a sua ressurreição. Segue-se o rito penitencial, lê-se as epístolas de São Paulo, os atos dos apóstolos, e entoa-se um hino clamando a intercessão de Maria para tornar o Evangelho real. Após as leituras, canta-se o Trisagion por três vezes. Agora apenas se usará a língua antiga e sagrada etíope, o Ge’ez, na oração. Na comunhão em duas espécies os santos se aproximam descalços ao canto do salmo 150, as mulheres separadas dos homens durante o Ofício Divino entoam sons próprios da cultura, desprovidos de significado, mas que expressam o júbilo da comunhão.

Esta breve descrição do rito alexandrino da Igreja Católica Etíope estimula nossa imaginação ao refletirmos sobre a beleza que é a liturgia – expressão máxima do sagrado no mundo –, a qual vamos considerar como uma obra de arte humana e divina, a mais bela feita pelo homem sob a orientação de Deus.

Deus é o belo por excelência, e a liturgia é reflexo de Deus no mundo. A arte em si mesma é sempre sagrada, e a verdadeira arte é religiosa, pois tem como finalidade a elevação do espírito humano. Ela possui uma capacidade de atualização metafísica no homem, independente da cultura.

Existe uma riqueza muito grande nesta diversidade de ritos. São seis no total, a saber: o latino (I), romano com sua forma ordinária e extraordinária (com variações históricas nas ordens religiosas), ambrosiano e moçárabe, a de uso anglicano em comunhão; o rito alexandrino (II), copta e etiope; antioqueno (III) dividido em siríaco, maronita e malankar; armênio (IV); caldeu (V) e bizantino (VI), com 13 divisões as quais poupar-vos-ei.

Pensar nas diversas formas externas que recebe o mesmo e único sacrifício eucarístico nos dispõe a compreender melhor a mensagem que contém esta grande obra. Citamos todos para ter em conta que esta diversidade, de certa forma, imita o proceder de Deus que cria o universo em uma variedade tremenda de seres em harmonia.

John Ronald Ruel Tolkien, quando concebeu a origem do universo da Terra Média, o fez como uma grande canção da divindade, na qual os espíritos participam desta criação seguindo a proposta inicial do Maestro. Esta imagem da sinfonia do universo nos ajuda a entrelaçar esta verdade. A beleza se encontra na relação de todas as partes; os momentos que antecedem um concerto são de ruído maçante. A música é bela em sua multiplicidade de notas e harmonia, pois não são as partes isoladas que nos permitem esta experiência, mas o conjunto do som advindo do silêncio na capacidade que temos de, pela memória, unir o fim com o começo pelo meio. Este todo nos entrega a mensagem que contém aquela música. Esta experiência tem na obra de Vivaldi, as quatro estações, uma maneira fácil de perceber seu conteúdo em cada uma das quatro partes/estações enquanto oscilam no conjunto dos fenômenos da natureza com cada tempo, tonalidade, etc.

A cerimônia da Missa tem em si a estrutura do teatro, uma vez que é sempre a representação da última ceia, da qual é memorial eficaz. Assim, tem sua importância cada um dos elementos que envolvem a ação litúrgica; todos colaboram para tornar acessível ao homem o divino, compõem a via pulchritudine. A liturgia tem como enredo simbólico a visão apocalíptica de São João, e também nos diz que o precipício é o lugar onde não se ouve mais cantos, nem cítaras, não se encontra mais nenhum artífice; o inferno, portanto, é onde não há mais arte ou beleza[1].

A conversão de André Frossard se deu ao esperar um amigo em uma igreja na França. Na vida dos santos sacerdotes, como Vianney, Montfort e Escrivá, temos relatos daqueles que os viram celebrando a Missa e eram como que transportados para dentro desta relação com a beleza. Santo Agostinho nos legou em suas Confissões uma análise psicológica da beleza dos cantos que ouvia os fiéis cantarem no templo, e o faziam chorar de alegria em Deus. Elaboração do seu bispo Ambrósio, e possivelmente o estilo de salmo responsorial que temos ainda hoje provém de Milão. A beleza é uma clave propedêutica. Justamente por isto, um dos pedidos do último Concílio, na Sacrossanctum Concilium, ressalta a necessidade dos bispos zelarem pela sacralidade da arte e do canto em suas dioceses.

A beleza revela para nós o dom que é o ser. Um dos contributos mais eminentes do filósofo Roger Scruton é esta associação da estética com o sentido da vida, no seu caráter existencial. A ordem, a proporção, a harmonia são necessárias para encontramos sentido na vida. E este rosto, no qual ela se apresenta, vai nos revelando também o rosto de Deus.

O catecismo denomina a oração como um “amor da Beleza – philocália – deixa-se encantar pela glória do Deus vivo” [2]. É um enamorar-se de sua formosura[3]. O rosto de Jesus é belíssimo. Cristo é o mais belo dos filhos dos homens[4], e isto torna qualquer celebração bela, ainda que nela Ele esteja de novo na figura do servo sofredor de Isaías, da qual de tão deformado já nem parece homem, e nos dá gana de desviar o rosto.

Diante das dificuldades da beleza sensível que podemos encontrar na Missa, como cantos inapropriados, um templo não harmonioso e desornado, ou um celebrante ímpio, convém buscarmos a beleza imaterial da Missa. Criarmos em nosso coração um belo oratório, fazer da nossa vida o canto novo do Senhor, trabalharmos nossa relação e compreensão litúrgica. Como ao estudar uma música, quando dedicamos tempo para conhecê-la, a ponto de sabê-la de cor, esta adquire um sabor totalmente diferente ao ouvirmos.

Santo Agostinho por muitos anos ignorou as Sagradas Escrituras, porque as considerava de péssima qualidade estética. Quando não conhecemos bem a palavra e a mesa, podemos ter a mesma percepção errônea. Apreciar uma obra de arte é visitá-la, cortejá-la generosamente. É preciso dedicar tempo a uma estátua da Santíssima Virgem para podermos realmente entrar na beleza do mistério da Encarnação ao qual ela conduz. Essa disposição é essencial para que a arte produza o seu fim. Assim, também assistir a Santa Missa durante toda a vida é nos expor a estrutura da Beleza eterna, é adentrar aos poucos na nossa morada definitiva numa contínua elevação da nossa alma em toda a bondade, verdade e beleza.


Àquela a quem consagramos este mês de maio, Maria, tota pulchra, senhora de toda beleza, a mulher revestida com a beleza e o esplendor do sol, portanto colocada no meio do céu, e com todo o mundo sublunar aos seus pés, pois sua beleza está acima de toda criação transitória, eduque-nos a afetividade para amar o que é realmente belo, o seu Filho divino.

[1] Cf. Ap 18, 22 [2] Cf. Catecismo da Igreja Católica, n.2727 [3] Cf. Sb 8, 2 [4] Cf. Sl 44

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Pastores Dabo Vobis
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