Por que a Teologia do Corpo está ganhando espaço na Igreja?

São João Paulo II foi, sem dúvidas, um dos maiores papas para a Igreja, não apenas por ser um dos papados mais longos da história, mas também pela vasta produção literária, seja na filosofia ou teologia, cujo legado permanece frutificando, e em termos de questões profundas da experiência de fé e da existência humana. Um exemplo significativo são os estudos relacionados à Teologia do Corpo, conjunto das 129 audiências de quarta-feira entre 1979 e 1984. Nos últimos anos vimos surgir vários movimentos, seminários teológicos bem como institutos que voltaram totalmente suas atenções para o aprofundamento nessa doutrina – talvez o mais significativo seja o Theology of The Body Institute, fundado nos Estados Unidos – de modo que, sendo algo tão recente, poderíamos nos perguntar acerca dessa relevância: seria a Teologia do Corpo realmente um instrumento ímpar para a Teologia ou apenas uma mera novidade doutrinal?



A pergunta é justa, visto que o ambiente teológico contemporâneo testemunhou, não poucas vezes, a efervescência de muitas doutrinas que pretenderam dar novos sentidos à especulação e cujos ciclos de acadêmicos se entretiveram a ponto de abandonar consideravelmente os sistemas teológicos clássicos em nome das ditas teologias de vanguarda. Queremos, então, colocar à disposição do leitor os elementos pelos quais justificaremos o porquê desse tema ter ganhado espaço nos meios acadêmicos e pastorais, bem como atestar a favor de suanotoriedade.


A princípio é preciso dizer que, em virtude da Verdade objetiva, seria errado afirmar teologias; pois há um só Deus, uma só Verdade, um só Espírito Santo, um só Cristo e, portanto, uma só Teologia, que permanece perene pelo contributo da Santa Tradição, afirmada pelos Padres da Igreja, e pelo igualmente sacrossanto Magistério. Ainda assim, há diversidade no campo especulativo por força dos vários aspectos da vida de Nosso Senhor que podem ser elucidados. São João Paulo II, em consonância, não pretendeu lançar mão do precioso deposito fidei, ao contrário, como Sumo Pontífice, lançou olhar sobre o campo da Antropologia Teológica a fim de aprofundar- se no caro tema da corporeidade humana, presente abundantemente tanto nos Evangelhos como na Tradição daIgreja.


A pretensão é justa, visto que nos dias que correm urge ante a nós católicos o quanto as experiências humanas se esvaziaram em virtude de um mundo hipersexualizado e de uma visão cada vez mais fragmentada da pessoa humana. Com efeito, o Teólogo estadunidense Christopher West1afirmou em seu livro Teologia do Corpo para Iniciantes:


Se a Teologia do Corpo fornece a resposta para a crise do nosso tempo, não é porque ela oferece ao mundo um “grande ensinamento”. Ao contrário, é porque ela reconecta o mundo com o “grande mistério” que é Cristo e o seu amor por sua esposa, a Igreja.


O primeiro ponto de relevância é, pois, reafirmar a unidade da pessoa humana, mesmo na dualidade entre corpo-alma, porque já o vimos dizer que “esta é uma das tarefas que o pensamento cristão deverá assumir durante o próximo milênio da era cristã. A subdivisão do saber, enquanto comporta uma visão parcial da verdade com a consequente fragmentação do seu sentido, impede a unidade interior do homem de hoje” [2]. Portanto, não se trata de um dualismo, ainda que a natureza humana seja essencialmente composta. Trata-se, porém, de partir do dado evidente do corpo para afirmar a verdade do homem em conformidade com fato de que o Verbo de Deus se fez carne [3].


S. João Paulo II aprofunda-se, então, na questão da vocação universal a partir do dado essencial do corpoe, mais ainda, a partir da não menos importante diferenciação dos sexos como forma de personeidade também essencial: “homem e mulher os criou” (Gn 1, 27). Tal abordagem influi na Teologia como um todo, pois além da Antropologia, a própria Trindade é refletida na imagem da unidade própria e específica da comunhão do casal, como afirmou o Concílio Vaticano II [4], bem como é possível iluminar o mistério do plano escatológico da humanidade também de uso de suas reflexões [5]:


Aqueles que participarem no “mundo futuro”, isto é na perfeita comunhão com o Deus vivo, gozarão de uma subjetividade perfeitamente madura. Se nesta perfeita subjetividade, conservando embora no seu corpo ressuscitado, isto é glorioso, a masculinidade e a feminilidade, “não tomarão mulher nem marido”, isto explica-se não só com o fim da história, mas também — e sobretudo — com a “autenticidade escatológica” [6].


Para não cairmos em tendências dualistas, São João Paulo II explica que a contraposição que se observa nos textos paulinos não é entre corpo-espírito, como se, numa ótica platônica, a alma estivesse encarcerada no corpo. São Paulo contrapõe o homem terreno do homem escatológico, poderíamos dizer que significa a natureza humana ferida pelo pecado contra a natureza redimida pela ressurreição de Cristo. Portanto, a vida segundo a carne que São Paulo tanto fala, quer significar o homem total, ferido no seu corpo e na sua alma pelo pecado e inclinado ao mesmo. Assim nos explica:


Como se fala da ressurreição do corpo, isto é, do homem na sua autêntica corporeidade, por consequência o “corpo espiritual” deveria significar exatamente a perfeita sensibilidade de sentidos, a sua perfeita harmonização com a atividade do espírito humano na verdade e na liberdade. O “corpo animal”, que é a antítese terrena do "corpo espiritual", indica, pelo contrário, a sensualidade como força que muitas vezes prejudica o homem, enquanto ele, vivendo "no conhecimento do bem e do mal", é solicitado e quase impelido para o mal. [7]


Desta maneira entendemos que não é um dualismo antropológico, mas uma antinomia de dois estados diferentes: por um lado o homem, em sua totalidade, enquanto permanece sob a ação do Espírito vivificante de Cristo, e por outro o mesmo homem que resiste e se contrapõe a esse mesmo Espírito. “No segundo caso, o homem é corpo animal (e as suas obras são obras da carne). Se, pelo contrário, permanece sob o influxo do Espírito Santo, o homem é espiritual (e produz o fruto do Espírito: Gl 5, 22).” [8]


Todas essas considerações, acerca das palavras de Cristo sobre a ressurreição, bem como a própria contribuição paulina nascida da experiência com o próprio Ressuscitado, são o plano de fundo que São João Paulo II se utilizou para, em seguida, aprofundar sua teologia sobre as vocações ao celibato e ao matrimônio. A relevância de seu trabalho pode então ser atestada tanto em sentido teológico, em virtude da amplitude que o tema pôde relacionar-se com a Teologia como um todo, outrossim, pelas perspectivas abertas para um diálogoajustado em relação à sociedade hodiernanas suas mais profundas crises.


1 Fundador e atual presidente do Theology of Body Institute.

2 S. JOÃO, Paulo II - Fides et Ratio, 1998.

3 Vale notar também que “o termo neotestamentário σάρξ (sarx - carne) pode denotar a corporeidade material do ser humano (2Cor 12,7), mas também a pessoa no seu conjunto (Rm 8,6)”. Cf. “Comunhão e Serviço: A pessoa humana criada à Imagem de Deus”, Comissão Teológica Internacional, 2004.

4 “Mas Deus não criou o homem deixando-o só, desde o princípio 'homem e mulher os criou' (Gn 1,27) e a união deles constitui a primeira forma de comunhão de pessoas”. Gaudium et Spes n°12.

5 De fato, o 3° ciclo das catequeses tem por finalidade o sentido escatológico do homem.

6 S. JOÃO, Paulo II. “Teologia do Corpo – O amor humano no plano divino.” Ecclesiae, São Paulo, 2014. Pág. 307.

7 Ibid. pág. 324.

8 Ibid.pág. 325.


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Pastores Dabo Vobis
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