Quaresma: Tempo de conversão

Neste início de tempo quaresmal e ao retornar as atividades do nosso blog, apresentamos uma breve entrevista realizada com o seminarista Rafael Rodrigues, da Arquidiocese de Brasília. Esperando que possa ser de bom proveito para os leitores, desejamos a todos uma santa e frutuosa Quaresma:



Por estar presente todos os anos no calendário litúrgico, o que fazer para não enxergar a Quaresma somente como um simples período que se repete anualmente? Com que espírito deve-se viver para obter os frutos próprios desse tempo?


A Igreja nos ensina que a liturgia é vida, um renovar cotidiano da experiência do povo fiel com Deus[1]. De fato, a vivência litúrgica nos insere num hoje do tempo da graça do Senhor (kairós), em que vivemos os mistérios da nossa salvação - no caso da Quaresma, a caminhada do povo de Israel no deserto após sua libertação do Egito, terra da escravidão, e, especialmente, os quarenta dias de Jesus no deserto, cujas tentações sinalizam o tormento da Paixão[2]. Por sua vez, esses mistérios são vivos e eficazes: atualizados na liturgia, são para nós fonte inesgotável de graça, cuja água é de um único rio, mas sempre nova. Nesse sentido, uma celebração litúrgica nunca é “mais do mesmo” ou repetitiva.


Ano a ano, na Quaresma, celebramos o cumprimento da Palavra que diz: “Foi num deserto que o Senhor achou seu povo, num lugar de solidão desoladora; cercou-o de cuidados e carinhos e o guardou como a pupila de seus olhos”[3]. Assim, no retiro quaresmal, com nossa alma penitente em sacrifício[4], somos chamados, enquanto discípulos de Cristo Jesus, a ter em nós os mesmos sentimentos dele[5], a fim de gozarmos de Sua misericórdia, penhor da glória pascal.


O que dizer para as pessoas que pensam ser a Quaresma um tempo de tristeza ou de sofrimento vazio?


Recordemos que o próprio Verbo encarnado, “repleto do Espírito Santo”[6], foi impelido a fazer a experiência quaresmal do deserto. Aliás, toda a sua missão foi eminentemente pascal, isto é, em vista da passagem do homem deste mundo para a vida eterna pela via do sacrifício[7]. Ora, se nosso Salvador se dignou assumir nossa humanidade e sofrer para repará-la, logo, nosso sofrimento unido a Ele tem valor redentor! É verdade que, no deserto, ele fez penitência e foi tentado, e isso evidentemente não é algo prazeroso. Porém, Ele nos deu o exemplo de paciência - e “a paciência tudo alcança”[8] - e de obediência, fazendo em tudo a vontade do Pai até a morte de Cruz[9]. Assim, ele derrotou o diabo, assegurando-nos a vitória sobre o mal em nossa caminhada neste “vale de lágrimas”.


Por isso, a Quaresma, antes de ser tempo de tristeza e mero sofrimento, é momento de união com o Sagrado Coração de Jesus, em que nós devemos buscar com mais firmeza a conversão diária para, assim, dar glória a Deus e salvar as almas. Cristo anseia comer a Páscoa conosco[10]; cabe a nós vivermos a Quaresma à luz da fé, vendo cada tribulação como causa de perseverança, virtude e esperança[11]. Portanto, animemos nossos irmãos no testemunho de que o sacrifício não é um vazio, mas, sim, um “esvaziar-se fecundo”, pois a semente que morre, essa dá muito fruto[12].


Por que a Igreja indica a oração, o jejum e a esmola como práticas quaresmais? De que modo concretamente podemos nos dedicar a cada uma delas a fim de se viver a Quaresma na presença de Deus?


Para a Igreja, a oração, a esmola e o jejum são práticas evangélicas[13] fundamentais para a nossa formação humana e espiritual. Com elas, aprendemos a amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos[14] com gratuidade e generosidade e, assim, crescemos na nossa intimidade com o Senhor e com os irmãos. Como somos pecadores e não sabemos amar plenamente, essas práticas são para nós remédios urgentes (penitenciais, mas salutares) e dons preciosos de amor autêntico.


Na oração, nós nos devotamos ao Senhor com louvor, gratidão e súplica em favor de nós mesmos e dos outros. A esmola, por sua vez, significa amar a Deus na pessoa do outro[15], com serviço e doação do que temos e somos de modo desapegado e segundo a justiça para com os mais necessitados. Por fim, o jejum é a educação da carne e da vontade, visando à devida ordem, uma vez que nossas paixões e desejos devem ser governados pela alma, a fim de vivermos a nossa dignidade de pessoas humanas e filhos de Deus, gozando dos frutos do Espírito[16].


Percebe-se, então, que a Quaresma é o tempo mais dedicado do ano litúrgico ao exercício do bem a partir dessas três práticas sublimes, pois é tempo de penitência, conversão e encontro. É importante um plano de vida no tempo da Quaresma em nos dediquemos mais fervorosamente à oração pessoal e comunitária (meditação da Palavra e Santa Missa, por exemplo), à esmola (obras de misericórdia ou algum serviço caritativo à Igreja, família ou sociedade) e ao jejum (retirar algum alimento ou atividade do nosso dia a dia por razões espirituais). Um ponto essencial: tudo seja feito com prudência e humildade, sem “farisaísmos” e vanglórias[17] diante dos outros; caso contrário, não apenas não receberemos a recompensa divina, como essas coisas serão causa de nossa humilhação![18] Santa Teresinha nos ensina que certas coisas perdem seu perfume quando expostas ao ar. Quanto maior o recolhimento, maior o mérito na presença de Deus.


Relata-se com frequência que, mesmo com uma boa vivência quaresmal, existe um certo relaxamento após o encerramento desse tempo. O que fazer para que essa natural perda de intensidade não represente uma interrupção na caminhada cristã ou um abandono das graças recebidas?


É evidente que cada tempo litúrgico tem a sua vivência própria, com práticas mais dedicadas. Todavia, esses períodos devem criar suas raízes no fundo do nosso coração para continuarem a gerar frutos, mesmo “fora de estação”. Isso significa que o cristão não vive de intensidade momentânea, mas de perseverança. O que precisa perdurar de cada tempo litúrgico são essencialmente a graça e as virtudes, sobretudo a caridade. Isso deve causar em nós transformação e crescimento, de modo que, ao se finalizar um tempo litúrgico, aquela experiência tenha sido vivida a tal ponto que continua nos animando, dando vida!


A respeito de um momento tão forte como é a Quaresma, que a nossa alma não se arrefeça na prática da penitência, do silêncio orante e da comunhão: essas e tantas outras realidades experimentadas intensamente no nosso deserto quaresmal são pilares de toda uma vida cristã autêntica, pois o combate espiritual[19], o recolhimento e a fraternidade devem fazer parte do cotidiano! Por exemplo, podemos fazer diária ou semanalmente pequenas renúncias nas nossas refeições, um momento a mais de adoração ou alguma obra de misericórdia. Pequenas, mas constantes e caridosas práticas. Isso não interromperá o ritmo dos demais períodos do ano litúrgico nem nos atrapalhará no dia a dia; na verdade, nos santificará cada vez mais, até sermos adultos na fé, à estatura de Cristo.[20]


De que modo a vida no Seminário tem te ajudado a viver melhor a Quaresma ao longo desses anos?


A vida do seminário, com sua disciplina e espiritualidade, me ajuda, no dia a dia, a viver o silêncio e recolhimento, a renúncia, o sair de mim mesmo para ir ao encontro de Jesus e do irmão e muito mais. Tudo isso se intensifica na Quaresma, com meus propósitos penitenciais assistidos pelo diretor espiritual e pelos padres formadores. As tribulações e desafios são meios para uma experiência de Quaresma bem encarnada e frutuosa. Nós temos um ambiente propício para a vivência quaresmal em comunidade: rezamos juntos a Via Sacra, fazemos jejuns e abstinências, temos tempo para a oração, os padres contribuem com a formação humana e espiritual, dentre outras coisas.


Enfim, o Seminário me dá condições de, também nas minhas atividades pastorais junto às paróquias e às famílias visitadas, testemunhar a vivência quaresmal e, assim, ajudar as pessoas a viverem essa graça.



[1] “A liturgia, sem dúvida, é o modo específico através do qual a Igreja vive de Cristo e por Cristo, e faz viver os fiéis de Cristo e para Cristo. As palavras e os gestos litúrgicos estão a isto ordenados: ‘Para mim, de fato, o viver é Cristo’ (Fl 1,21)” (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. O sentido espiritual da liturgia. Brasília: Edições CNBB, 2014. p. 8). [2] cf. Mt 4,1-11; Mc 1,12-13; Lc 4,1-13 [3] Dt 32,10 [4] cf. Sl 50 [5] cf. Fl 2,5 [6] Lc 4,1 [7] cf. Lc 9,22 [8] Santa Teresa d’Ávila [9] cf. Fl 2,8 [10] cf. Lc 22,15 [11] cf. Rm 5,3-4 [12] cf. Jo 12,24 [13] cf. Mt 6,1-18 (Jesus ensina a esmola, a oração e o jejum) [14] cf. Mt 22,37-39 [15] “Pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê. E este é o mandamento que dele recebemos: quem ama a Deus, ame também o seu irmão.” (1Jo 4,20b-21) [16] cf. Gl 5,16-25 [17] “Não busquemos vanglória, provocando-nos ou invejando-nos uns aos outros.” (Gl 5,26) [18] cf. Lc 18,9-14 - parábola do fariseu e do publicano no templo. [19] Na oração das Completas às terças-feiras, a Palavra de Deus exorta: “Sede sóbrios e vigilantes. O vosso adversário, o diabo, rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar. Resisti-lhe, firmes na fé.” (1Pd 5, 8-9a) [20] cf. Ef 4,13


Autor:


Rafael Pinheiro

(Arquidiocese de Brasília)

Pastores Dabo Vobis
  • Instagram - White Circle
  • Facebook - Círculo Branco