Quem é devoto de São Mateus?

Um dia me perguntaram: “Matheus, qual é seu santo de devoção?” Minha resposta foi certeira, o primeiro da minha lista: “São Mateus!” A pessoa me olhou com cara de espanto e perguntou: “Mas, São Mateus? Não conheço ninguém que seja devoto de São Mateus. Ela me pediu, então, que lhe contasse porque eu tinha devoção a ele. Fiz como ela me pediu e contei o seguinte:


De antemão pode parecer óbvio que tal devoção venha por conta do nome que meus pais me deram, ou pelo fato de minha paróquia de origem tê-lo como padroeiro. Com certeza, esses dois fatores influenciaram bastante, mas não, não são eles os principais.

O que me levou a ter uma admiração ímpar pela vida e testemunho de São Mateus, pode ser resumido em duas cenas narradas pelo próprio em seu Evangelho.



A primeira é o chamado que Jesus faz a Mateus: “Jesus viu um homem, chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos e disse: ‘Segue-me! ’ O homem levantou e O seguiu.”[1] Diante do pecador, o olhar de Jesus é sempre de misericórdia. Como deve ter sido bonita esta cena. Ser fitado pela Misericórdia do Todo Misericordioso! Como resistir a este chamado? Mateus não resistiu! “E levantando-se, O seguiu!”[2] Sem dizer nada, sem questionar, abandonando a corrupção, os bens terrenos, a opulência de seu posto, entregou-se ao seguimento Daquele que nada possuía. Esta atitude de Mateus me cativa, me constrange, me faz questionar o meu interior, me faz querer imitá-lo, mesmo que ainda esteja demasiado longe da totalidade desta bela resposta.


São João Crisóstomo se encanta com esta mesma cena e faz uma belíssima reflexão: “Por esse acontecimento nos é mostrado o poder d’Aquele que chama: pois arranca do meio do mal um homem que não renunciava a um ofício perigoso, como fez com Paulo, que estava enlouquecido. [...] Assim como viste o poder d’Aquele que chama, aprende também a obediência do que é chamado. Ele não lhe opõe resistência, nem pede para voltar até sua casa e comunicar sua decisão aos seus.”[3]


A segunda cena traduz outra ação de Jesus na vida de Mateus que me impulsiona vocacionalmente. “E aconteceu que estando na casa de Mateus, muitos publicanos e pecadores vieram e puseram-se a mesa junto com Jesus e seus discípulos.”[4] O foco deste episódio, geralmente, diz respeito ao fato de Jesus sentar-se à mesa com os pecadores e, por isso, ser questionado de que, Ele sendo Deus não deveria rebaixar-se a tal situação e Jesus responde dizendo que o médico deve cuidar dos doentes, pois os sãos não precisam, por hora, de ajuda. Sem dúvida nenhuma, é crucial este entendimento da passagem, mas me toca muito outro fato escondido nas entrelinhas: A conversão de Mateus deu a oportunidade a muitos outros publicanos e pecadores de serem tocados pela misericórdia do Senhor. São Beda, venerável, traduz este ato de Mateus com a seguinte conclusão: “Aquele que seria apóstolo e doutor dos povos, logo no primeiro encontro arrasta após si para a salvação um grupo de pecadores. Assim inicia o ofício de evangelizar desde os primeiros começos de sua fé aquele que viria a realizar este ofício plenamente com o merecido progresso das virtudes.”[5]


Sua humildade, ao escrever o Evangelho, é percebida por São Jerônimo quando comenta a perícope do relato de seu chamado comparando-o a forma como os outros evangelistas o descrevem: “Os outros evangelistas, por respeito e honra do mesmo Mateus, não quiseram chama-lo pelo nome com que era vulgarmente conhecido, mas chamaram-no de Levi, pois ele usava esses dois nomes.”[6] Ele, então, conclui o raciocínio mostrando o heroísmo virtuoso do evangelista: “Mas o próprio Mateus, seguindo o que diz Salomão – O justo é o primeiro acusador de si - , chama a si mesmo de Mateus e de publicano, para mostrar a todos os que lerem que ninguém deve desesperar de sua salvação, caso se converta a uma vida melhor, já que ele mesmo foi repentinamente transformado de publicano em apóstolo.”[7]

Responder prontamente ao chamado do Senhor, e fazer-se caminho para que outros encontrem a misericórdia que nos salva são as façanhas de Mateus que fazem meus olhos brilharem por seu exemplo.


São Mateus, rogai por nós!



[1] Mt 9, 9

[2] Idem

[3] Homiliae inMattheum, hom. 30, 1

[4] Mt 9, 10

[5] Hom. 21: CCL, 122, 149-151. Séc VIII.

[6] TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. Vol 1 – Evangelho de São Mateus. Campinas: Ecclesiae, 2018. p. 332

[7] Idem.

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Pastores Dabo Vobis
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