Relato de um seminarista francês nas terras de Santa Cruz

“Vós me ensinais vosso caminho para a vida”[1]


Quando aceitei a proposta de um estágio pastoral na diocese de Santíssima Conceição do Araguaia, deixando por dois anos a minha família, os meus amigos e a minha diocese, fiquei imaginando o que poderia ser essa vida de missionário ad extram. No “inconsciente coletivo” dos católicos franceses, ainda ressoam as imagens desses padres missionários dos séculos XIX e XX, que tudo deixavam para anunciar Cristo aos confins de toda a terra, levando para regiões longínquas a fé cristã. Chegando numa diocese onde a primeira evangelização ocorreu pela ação – muitas vezes heroica – de frades dominicanos, vindos também do sul da França, esse modelo parecia se confirmar: eu tinha muito para ensinar às pessoas que iria encontrar.



A realidade é que isso não é nem vida missionaria, nem vida cristã, e descobri-lo foi provavelmente uma das maiores lições desses dois anos de missão no sul do Pará. Sair em missão com a ideia de que muito sabia e muito iria ensinar foi uma ilusão que não demorou a se desfazer diante do choque com uma cultura diferente, com códigos diferentes, também com a pobreza material, moral e espiritual do bairro de Conceição do Araguaia, onde iriam ser escritas as mais numerosas e mais belas páginas da minha missão.


Desse confronto nasceu um sentimento de impotência. O que fazer diante da situação de tantas famílias desestruturadas? O que dizer a tantas crianças já bem machucadas pela vida? Como pretender dar lições a outros num país onde não conhecia nada? Acabei enxergando a minha própria pobreza, a minha incapacidade, às custas e na dor, mas afinal, graças a Deus! De fato, enquanto o olhar meramente humano vê apenas o fracasso, aquele que lê a sua própria história com a luz da fé consegue ver a mão de Deus. “É na fraqueza que se revela totalmente a minha força”[2] diz o Senhor ao apostolo São Paulo. Qual é essa força? Nada menos que “a linguagem da cruz”[3].

Essa meditação da Cruz acompanhou a minha missão durante vários meses. No hino da carta aos Filipenses[4], São Paulo desenha o retrato desse Cristo que “humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte e morte de cruz” e “por isso, Deus o exaltou grandemente”. Quanto mais rezava, repassando essas palavras no meu coração, mais ficava convencido de que o caminho de gloria de Cristo é o caminho da cruz: via dolorosa, via gloriosa!


A nós que queremos ser seus discípulos, o Senhor não diz outra coisa: “se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”[5]. Renunciar a si mesmo é “ter a humildade de não confiar simplesmente em nós mesmos”[6], é compreender que “não é o poder dos nossos meios, das nossas virtudes e das nossas capacidades que realiza o Reino de Deus”[7]. Não devemos, porém, considerar a renúncia como um fim, pois ela é apenas um meio. A autêntica renúncia cristã consiste em abrir um espaço no seu coração, criar uma disponibilidade, descentrar de si mesmo para deixar crescer em si “os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo”[8].


É justamente por isso que o dia do missionário sempre começa e termina no mesmo lugar: na capela, diante do Senhor. No diálogo intimo com o Cristo, na oferta da minha própria vida na Eucaristia quotidiana, aprendi a dar sentido às dificuldades, às fraquezas, e a receber o despojamento como um dom de Deus. Essa experiência se revela incrivelmente libertadora. A partir dela, o coração se dilata, aprende a se preencher Deus e a se abrir ao próximo, ao irmão, ao mais frágil.


Não fiquem pensando que tudo isso aconteceu em um dia, que foi uma revelação instantânea. Novamente, foi na oração e na releitura paciente dos eventos do dia a dia – à luz da fé – que percebi a mudança que Deus ia fazendo em mim. A amizade com Deus, que a grande tradição cristã chama de caridade[9], não deixa de produzir frutos.

Claro, a situação precaríssima desse bairro de Conceição do Araguaia não mudou de um dia para o outro; as crianças não se tornaram imediatamente anjinhos. Tive, porém, o privilégio de ver algumas sementes que começaram a germinar, aos poucos, lentamente, através de pequenos gestos, atitudes e palavras. Todos os dias, na capela, a gente se cansava com as crianças para tentar acalmá-las para a oração com a qual iniciávamos as atividades: uma luta aparentemente sem fim. No entanto, um belo dia, de manhã, na maior discrição, vi uma dessas crianças entrar na capela, fazer uma bela genuflexão, ir até ao sacrário e simplesmente deixar uma pequena flor como oferta ao Senhor ali presente. Presenciar uma pequena delicadeza como essa torna-se, então, fonte de uma profunda alegria: Cristo está agindo nos corações.


Talvez seja essa a maior das alegrias: saber que, apesar de nossa fraqueza, o Senhor quer transformar o mundo através de nós. “Até para o sacerdote, o grão de trigo[10] não aponta apenas para a Cruz. Para ele também, é um sinal da alegria de Deus. Poder ser um grão de trigo, um servidor do grão de trigo divino, Jesus Cristo, isso é que consegue tornar um homem feliz no mais íntimo do coração”[11].


O sentido da missão fica, então, um pouco mais esclarecido: nós não somos primeiramente chamados a levar algo, porque, no fundo, nada temos; ao contrário, Cristo chama-nos a entregar-Lhe a nossa própria vida, a doar-nos aos nossos irmãos. O Reino é d’Ele, a obra é d’Ele; somos apenas como os servidores das bodas de Cana: chamados gratuitamente a colaborar com a missão de Cristo. Nisso, nos tornamos testemunhas alegres da ação de Deus: “Os que serviam estavam sabendo, pois foram eles que tiraram a água”[12].


Assim, ao terminar esse tempo de missão no Brasil, posso com São Paulo, “[recordar] as palavras do próprio Senhor Jesus, que disse: ‘Há mais felicidade em dar do que em receber’”[13]. Voltando para a França, trago comigo toda a riqueza de uma experiência inesquecível. O contato aprofundado com uma cultura diversa; um jeito um pouco diferente, mas não menos intenso de viver a fé; a descoberta de desafios imensos e de cristãos que doam-se sem se poupar; a amizade com pessoas que nada têm a dar, a não ser a necessidade de amar e serem amadas; a vivência fraterna ao serviço dos mais frágeis, entre tantas outras pérolas que carrego agora no coração.


No entanto, tudo isso se revela pouca coisa em comparação ao tesouro que constitui a amizade renovada com o próprio Senhor Jesus, “o Caminho, a Verdade e a Vida”[14]. Inaugurando o seu pontificado, Bento XVI dizia: “Só nesta amizade [com Cristo] se abrem de par em par as portas da vida. [...] Ele não tira nada, ele dá tudo. Quem se doa por Ele, recebe o cêntuplo. Sim, abri de par em par as portas a Cristo e encontrareis a vida verdadeira”[15].


Doar-se por Ele, doar-se a Ele, doar-se n’Ele, a exemplo da Virgem Maria e tantos santos no decorrer dos séculos: eis “o caminho para a vida”[16].



[1] Sl 15, 11

[2] 2Cor 12, 9

[3] 1Cor 1, 18

[4] Fil 2, 6-11

[5] Mc 8, 34

[6] Bento XVI, Audiência geral do 13 de junho de 2012 – https://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2012/documents/hf_ben-xvi_aud_20120613.html

[7] Ibid.

[8] Fil 2, 5

[9] Cf. São Tomás de Aquino, Suma teológica, IIa-IIæ, q. 23, art. 1

[10] Cf. Jo 12, 24: “Se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morre, produz muito fruto”.

[11] Ratzinger Joseph, Homilia para a primeira missa de um novo sacerdote, 25 de fevereiro de 1962, in Diener eurer Freude – Meditationen über die priesterliche Spiritulität [tradução pessoal a partir da edição francesa].

[12] Jo 2, 9

[13] At 20, 35

[14] Jo 14, 6

[15] Bento XVI, Homilia para o início do ministério petrino, 24 de abril de 2005 – https://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/homilies/2005/documents/hf_ben-xvi_hom_20050424_inizio-pontificato.html

[16] Sl 15, 11


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Pastores Dabo Vobis
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